domingo, 30 de maio de 2010

Calcetíns de coelliños ou mar









Non son xente de levar bichos nos pés. (Hai quen sexa, fauna e flora a discreción, viva ou reproducida, sen comentarios.) A ver, é que están novos e non podo andar sempre por aí de roupa vella, coma un cocido do día seguinte e menos en plena primavera. Fica mal. Só por iso iso os puxen. E porque viñan no conxunto de tres daqueloutros de riscas negras e grises que me gustan tanto. Pero estes, ai, xa os imaxino, asomando as orellas entre o botín e a perneira dos vaqueiros, o fulano do coche que vai detrás de min, dicindo ou pensando, depende: Mira, mira, esa da moto leva coelliños presos nos pés. Ridículo. E eu vou ver o mar. O mar é unha terraza cunha botella de Pedras fría sobre a mesa.

―Café não? ―estrañouse a camareira―. A senhora sempre pedia café e uma Pedras (fresca)! Por isso.
―Tiraram-me o café... também ―e sorríolle, non é só para ela o sorriso e o adverbio, senón para as fonduras de min, que é onde se navega.

Gústame este bar, o seu nivel de barullo tolerable, que me fai sentir no mundo sen me roubar os adentros. Aquí pódese ler.

Falar alto no escuro é também uma das grandes violências, é grave, é desrespeitar a natureza das coisas. Por isso dos mortos nada escutamos porque morrer é a terra cobrir os corpos, e é denso, um escuro permanente, sólido, como uma construção negra, mas sem matéria. Não os ouvimos.*

Este rapaz escribe verdades soltas, pero aquí non leva a razón nin lla eu dou. Por algo ando hoxe de calcetíns de coelliños. Nunca, endexamais!, iría ao pé de ti con estes calcetíns. Quen te aturaba! E o xelado que pido despois é de chocolate e vainilla, non de amorodos derretido con anacos de froita. A antuca gárdame do sol na cabeza e no xelado. Haxa quen pense inventos destes!

Levanto os sentidos ao horizonte. O mar non é meu, cousa que, señoras e señores, coelliños do mundo todos!, non impide que me bañe nel, que lle sinta o cheiro, a frialdade aberta e atlántica nos tornecelos, que lle ouva o crepitar da escuma esvaecendo na capa finísima última que me borbulla na area, que o vexa espello do ceu gris-verde-azul, consoante, e/ou que mastigue contra o padal un consomé-esencia de algas desconstruídas... sen afogar. Meus son os calcetíns de coelliños. Apanda, rapariga!

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* En "Os movimentos de ficção", água, cão, cavalo, cabeça do Gonçalo M. Tavares.

sexta-feira, 28 de maio de 2010

Vai nas asas, nas asas!

―Foda-se, Maria! Quantos golos levas já? Que tens tu hoje?
―Raiva ―rosnei roendo as lágrimas nas entranhas.

Joguei a raiva nos golos, como se a baliza fosse a morte, a bola todos os poemas que ficaram na gaveta dos futuros inéditos. Depois tomei duche e jantei, sem te dizer, que estranho, não me doem as canelas, ou comi salada, maçã e iogurte, o teu olhar severo, tch-tch-tch, sem te perguntar, e agora, achas que vá de carro ou de mota?, nem responderes tu, vai nas asas, nas asas!

E fui nas asas. Nas asas para alcançar a lua no céu, Senhora da Hora, olho vazo amarelo, mordido pelas nuvens como o meu corpo pálido desfalecido, entre os dentes teus entregue. E num além escaso de ali, ali parei e vi, vivi, ouvi cacarejar a galinha que parece frango, ri, rimos, ristes, riram com ela à gargalhada, enquanto, enquanto de pescoço esticado, peito ondulante, trémula a crista, acompanhava o canto lírico cómico cáustico arquitec-tónico, contra uma sucessão incessante de edifícios hiperconstruídos ou hipogrifos de tijolo pedra betão-batom azulejos de loiça partida ou ira gaudiniana, redondezas arestas em aleatoriedade instavelmente equilibrada: a sustentável gravidade do absurdo. E eu o que? Eu rebentando os silêncios numa risada franca, o brilhozinho da felicidade breve, intervalo da raiva.

Depois a música. A música não são palavras. É batucar de sapatos, coiros, cordas perpendiculares em ângulo obtuso de contrabaixo e guitarra, é paus-baquetas, cascavéis ou castanholas cascateando-me nos sentidos, menos tristes, tronantes, mansos.

E mais tarde as palavras. As palavras são, às vezes, só às vezes, música a duas vozes requintada na quinta das quintas, a dita supradita: Antes a poesia que é a coisa mais séria. Seria?* Só se for de boca escancarada e fôlego no fole dos pulmões em alento feitiço. Assim sim, só.

O final é nunca mais, digo-te, mas é a mim que digo, pensa bem, ao escolheres lugar, mede medita, que os altifalantes são altiloqüentes, altíssonos numa harmonia que é de fábrica, bater de maça, ronco de sirene no nevoeiro, facho na voz, na luz, na luz, na voz, na luz serena, na voz sereia, na calma incerta, sou eu, altibaixos, amputada de ti recente, extrema extremidade fantasma, beijo-te contra o precipício e tu ainda me dizes, então vem, vem-te.

E fui, vim, vim-me, voltei, voltei nas asas das tuas interjeições rotundas, radicais, reverberantes... Só não houve sms que enviar-te, cheguei nem não cheguei, que já não lhe é preciso ao teu descanso.

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*Alexandre O'Neill, "Amigos Pensados: Vate 65"

terça-feira, 25 de maio de 2010

domingo, 23 de maio de 2010

Amanhecer sem ti (2)

Para o Ademar Santos







Fui à procura de desrazões e o rio deu-mas.
María Alonso Seisdedos

Amanhecer sem ti

Para o Ademar Santos







Já é dia.
Vou fazer o café.
Descansa, Ademar.
María Alonso Seisdedos

Nem um dia

Para o Ademar Santos







Tem muitos dias em que acordo destas horas e já logo-logo me levanto. Escrevo-te, então, um bilhete de madrugada para te dar o bom dia. Hoje não consegui dormir. Antes que o telefone tocasse, às 02.04 (HE), eu não conseguira dormir, como se... quem sabe? Deixara o telemóvel na mesa de cabeceira, por se me devolvias a chamada que preocupada pelo teu silêncio te fiz. Quando tocou, ao meu "bom dia" de brincadeira aliviado (!), não foi a tua voz que respondeu, mas um silêncio longo, e depois já, num sussurro, senti alguém que não eras tu a pronunciar o teu nome e a seguir, um pretérito imperfeito. E eu agora a escrever para ti, como se me lesses, sem te poder dar o bom dia, nem um dia, mais um dia... para nós.
María Alonso Seisdedos

Tempo desconjugado

Para o Ademar Santos







Está um silêncio de horror ou tristeza, nem sei, instalado na minha caixa do correio electrónico. És tu que já não és. E eu aqui, tão longe, num infinito em que as distâncias carecem de medida que as contenha. E eu aqui ainda. E tu já nem. Nós nada já mais. Nem o teu olhar. Os olhos, lembras, que me deste? Não, não lembras. Sou só eu a lembrar doravante. E as mãos, as tuas mãos na mesa na hora do almoço dos domingos tão poucos. A tua voz, a silabar o meu nome inteiro, a tua voz na rua a me guiar entre ruínas inexistentes, como nós agora, que já nem entulho somos. E eu, os verbos cativos, que me recompunhas, agora só conjugados no tempo passado contigo, impresente.

Está o frio em mim, mas em ti é o mundo uma prancha de aço em contacto com as costas que nem sentes.
María Alonso Seisdedos

sexta-feira, 21 de maio de 2010

A bota e o resto...

Adormece. Urina para a garrafa de água e despeja-a
sobre as flores. Adormeceu. Não o acordes.

"Um coração de rosas" em água, cão, cavalo, cabeça.
Gonçalo M. Tavares.


Ela nem gosta de lembrar memórias sujas, mas como lembra, afinal, será bom, pensa, escrever para enxotar ao menos o mais. E o detalhe, revisto à câmara lenta, até teria piada se não fosse a bota a bater contra a porta e o resto. O resto...

Deitara-se bêbado, como quase sempre, o quase da mamadeira a mama-lo, não o deitar-se, que esse era sempre sem quases. E adormeceu, se já não estava adormecido para a vida. Por isso, quando se levantou também não estava acordado. Levantou-se, pegou na bota que estava no chão, de lado, ao pé da cama, e encostou-a ao pénis.

―O que é que fazes?! ―virou-se ela ao senti-lo, quem sabe se triste, se zangada, se cheia de vazio― Estás parvo ou?

Ele atirou a bota contra a porta e o resto, salpicando a raiva e o resto. Deitou-se adormecido ele. O resto a pingar pela porta, as paredes, o chão. Ele adormecido e ela a atravessar a praça enquanto o sol saciava na pele dela a sede.

Estado de excepción

Agora ―pídemo a razón― debera barrenar sobre os tales oviños estrelados, pero esta mañá, antes incluso de abrir os ollos, espertei coa emoción simple do gol de onte, eu que son unha manta amarrada a un pau tras unha bóla, coma o burro que persegue a cenoria. Por unha vez, non caín (a ver, caer caín, pero non desa, senón doutras e diversas), tireime!, coma o chulo do conto, debruzada, esticando o estique, batendo na bóla negra e marcando. E descubrín que as xeonlleiras foron inventadas para algo: erguinme (os colegas aínda paralizados e encollidos coa dor, imaxinada, allea, ou sexa miña, inexistente), coma quen sacode o po das cachas, like a pro. Isto non se repite a cada hora.

quarta-feira, 19 de maio de 2010

O meu primeiro fã ou... no tecto "pital" da maralha pita

No mesmo dia em que descobri que estava já, já!, no tecto "pital" da maralha pita, nem que nunca tenha proferido um grito histérico, encontrei, com poucas horas de diferença, o meu primeiro fã, que também não gritou nem histérica nem gravemente, mas olhou para mim com uma admiração que nunca me julguei capaz de suscitar em ninguém, menos numa pessoa de tamanho tão enormemente pequeno.

Fora feriado aqui dia inteiro e imaginei a invasão no jardim, na outra margem do rio, por isso fui um bocado mais tarde do costume. Todavia, ainda havia lá galegos para dar e vender (se houvesse quem comprar...). Suspirei. Vamos ver se não atropelo ninguém, vai estar difícil, disse para os meus botões, que não responderam. Ao rematar, balanço feito, somei alguma travada brusca, mas nenhuns mortos nem sequer óculos partidos.

Já no final, aproveitando que apenas sobraram seres humanos na contorna, pus-me a praticar a marcha atrás e os giros. Reparei num puto duns sete anos (digo eu, que sou incompetente nisto de cálculos que não sejam renais) quieto a um lado do trilho. Acabou por sentar na relva, o corpo afincado sobre um braço, as pernas ligeiramente dobradas, baixo os cabelos curtos, louros, o olhar triste e doce, o rosto pálido, redondo, de bochechas coloradas, a seguir-me os passos. Sorri para ele e falei-lhe em galego, quer-se dizer, não me perguntem, mas notava-se que era galego.

―Gústache patinar?

Acenou afirmando, tímido, movendo um quasemente a cabeça.

―É divertido, non é?

Sorriu.

Eram horas e decidi que chegava de piruetas. Fui para a mota, o puto atrás de mim. Falamos. Perguntei-lhe se tinha patins. De duas rodas não, respondeu, daqueles outros.

―En liña?
―Iso.
―Xogas ao hóquei?

Sacudiu a cabeça, a olhar-me ainda, de fite, desde ali em baixo, frente a mim, os dedos roçando a mota.

―Tes que practicar moito para despois xogares ao hóquei. Vas ver que ben que se pasa.
―E vas montar na moto así cos patíns? ―atreveu-se-me a perguntar baixinho, case num murmúrio.

Ainda falamos um bocado, apareceu o irmão mais velho, mais loquaz também, muito diferente, morenote, forte, cabelos de ouriço-cacho, a tratar-me de "vostede". Perguntei-lhes de onde eram. De Pereira, respondeu o pequeno, como se Pereira fosse o centro do mundo, o centro do seu orgulho. Pereira? Ourense, esclareceu o mais velho. Ah, Pereira de Aguiar. Xiça, isso é longe. Pois é. E fazem aqui ainda o quê? Pus cara de gente que finge seriedade. Não têm escola amanhã?

Sacudiram os dois a cabeça. Estavam tristes. Não tinham escola. Fiquei sem saber porquê. Depois continuamos a falar de motas, de bicicletas, e os sorrisos voltaram. Apareceu a avó a chama-los para irem embora.

―Cóllenos aquí ―pediu o mais velho.

A avó chegou logo ao volante do carro.

―Espera máis un pouco ―voltou pedir o mais velho.
―Se estades á espera de verme saír a facer caballitos, ides dados. Nunca souben facer caballitos... nin na bici.

Sorriram com todos os dentes. Cavalinhos era coisa que eles sabiam fazer. Eu vai ser difícil que aprenda já, estando, como disse, no tecto "pital" da maralha pita, mesmo com a admiração ingénua e meiga dum puto de sete anos capaz de me ensinar.

terça-feira, 18 de maio de 2010

Ao sol










Regresaba de Cidadeabertaomar e ao pasar por el quedoume gravado o cadro. Seguín camiño, pero ía pensando, cache...!, ben puiden parar a tirar unha foto. Seguín camiño, a imaxe non se me borraba da cabeza, pero xa me parecía ridículo dar volta. Un quilómetro máis adiante non aguantei. Virei á primeira de cambio.

Era coma nas películas pero na realidade, na realidade cutre.

(Parvadas á parte, se fose eu a empoleirada, baixo o sol do mediodía, destas horas estaba na unidade de queimados.)

segunda-feira, 17 de maio de 2010

E cada día






17 de maio.
Día das Letras Galegas

Cuidades vós, meu amigo,
ca vos non quer' eu mui gran ben,
e a mi nunca ben venha,
se eu vejo no mundo ren
---que a mi tolha desejo
---de vós, u vos eu non vejo.

E, maca-lo vós cuidades,
eno meu coraçon vos ei
tan grand' amor, meu amigo,
que cousa no mundo non sei
---que a mi tolha desejo
---de vós, u vos eu non vejo.

E nunca mi ben que(i)rades,
que me será de morte par,
se souberdes, meu amigo,
ca poss'eu ren no mund' achar
---que a mi tolha desejo
---de vós, u vos eu non vejo.

Vasco Praga de Sandim, séc. XIII
En Antologia da Poesia Trovadoresca Galego-Portuguesa. Alexandre Pinheiro Torres (ed.)

domingo, 16 de maio de 2010

Em conjunção

Improviso sobre uma tela desta noite...*















Lua e Vénus



*Poema de Ademar Santos.

Danza para dous... ollos

Sábado á noite quitei os ollos a bailar...











































Entremáns.
Si quiero


***********************




































































Losdeae.
Capuccino per due

sábado, 15 de maio de 2010

Tchaikovsky no sangue

Préstalle ao corpo asistir de cando en cando a unha produción disparatada sobre a construción dun soño, nin que o edificio se sustente sobre alicerces de cartón pedra. É cine, ilusionismo, xogos malabares imposibles, que se nutren da complicidade co público, en troco de música, tenrura, denuncia e redención. Unha dose de optimismo sen efectos colaterais perniciosos.

sexta-feira, 14 de maio de 2010

Ela está farta!








24horas, 09.05.2010



Valha-me deus! Sim, porque uma coisa são sextas, todas, vá lá, todas as sextas. E sábados, pois, sexta e sábado, afinal, escrevem-se com "s" de sexo. Mas ainda nos domingos por vezes?! (Já não há nada sagrado?) Dois dias de sexo na semana e por vezes três! E se calhar é capaz de empregar até três minutos em cada. Não, não posso deixar de me solidarizar com a senhora. Experimente com um caldinho de aranha, e se não der, sempre tem o veneno das formigas. É lento mas seguro. Morte ao insaciável!

___________
Não me digam que não há cá argumento para a inspiração duma bela melodia pimba? Eu ofereço o refrão.*

Ela está farta
de que não farte.
Sofra um enfarte,
que um raio o parta!

'Tá aborrecida
de tanta queca
que grande seca
virou a vida!

'Tá a Antónia cheia,
não mais atura
'tar volta e meia
na tal tesura.

Venha uma droga
p'ró maridão,
que o mande, roga,
já p'ró caixão!

Venha um remédio,
morra a tesão!
Parem o assédio,
por compaixão!


*Eu podia morrer milionária com isto.

quinta-feira, 13 de maio de 2010

A lámpada sobre o rostro









Ben sei que estás con medo. Instalóuseche a opresión no interior da caluga coma unha dor de cervicais, unha puñalada sen ferida que sitúas no corazón e é no estómago, un abatemento que altera os circuítos do equilibrio emocional e a poesía somática. Se polo menos non existisen as tripas para nos recordar a conexión íntima de pensamento e dixestións a dar cabo do lirismo e a melancolía...

Ben sei que estás con medo. Non adianta, logo, dicir non vai ser nada. Mesmo así, haberá unha voz que diga non vai ser nada. De alí a nun instante vas notar unha man a che agarimar no brazo, a luz que se abre paso entre as pálpebras e unhas certas náuseas que che trastornan o regreso lento á consciencia, o que vén sendo, máis ou menos, nada.

quarta-feira, 12 de maio de 2010

Solo de guitarra










Fecho os ollos cando tocas para que nada me distraia do abandono calmo de sentir, escoitar, anulada a distancia do patio de butacas, a barricada misteriosa derruída.










Como se fose na sala da vosa casa, o mar de fondo, unha copa de tinto, María Jesús pendente de cada nota, de todas as notas, na tensión das cordas tensa, e nós (estrañámoste, Olga), a lágrima no canto dalgún ollo, o brillo ilimitado. E a vosa xenerosidade sempre. Beleza, digo.





David Russell.
Gran Canón (Arizona)

Máis un síntoma de primavera



cría de
ferreiriño común (gal.)

chapim-carvoeiro (pt.)
carbonero común (cast.)
Parus ater

Saíu a voar da poza en canto os cans chegaron a beber e refuxiouse entre as silveiras, á espreita, dividido entre a curiosidade inxenua dos seus poucos días e o receo do instinto, que lle foi encrespando as plumas á medida que eu máis me aproximaba coa cámara, como queréndose facer enorme, temible ogro que me aterrorizase, as forzas todas concentradas no rostro para deseñar a súa mellor cara de ferreiro... e nada.

segunda-feira, 10 de maio de 2010

Harmonía









Non parece, vendo e ouvindo a que está a caer, que onte a chuvia dese tregua para saír a ventilar o balor que se vai adherindo a medula dos ósos e comprobar, de paso e ao paso, que o mundo aí fóra, mesmo a rente do chan, continúa vivo e indiferente á agonía deste inverno interior que nunca máis termina.

(E agoniándome, desconfío que cando as nubes se disipen a calor se me vaia facer mesmo insoportable.)

domingo, 9 de maio de 2010

O parvo, se é anónimo, passa igualmente por parvo









A propósito desta embaraçosa questão, encontrei na casota do Rafeiro Perfumado um comentário que me permiti roubar e cujo autor ou autora não cito simplesmente porque aquilo é obra! (força de expressão) dum ser que se ampara na modéstia pudibunda do anonimato. É assim que nos mostra a luz no fim do túnel a mente privilegiada e esclarecedora:

Depende. Há casos provados em laboratórios de biologia de que a própria mulher pode ter um filho seu sem haver fecundação por parte de um espermatozóide. É um caso em cada mil milhões (óbvio que aproximado e exagerado) mas ocorre. Há uma interacção neurológica e a mulher quando está em ovulação, esse óvulo (oócito II) começa a desenvolver-se sem haver penetração e fecundação. Origina um ser humano (óbvio que cheio de problemas* genéticos pois contém um cariótipo reduzido e nem chega a sobreviver. Há casos que sobreviveu.

Perante tamanha evidência científica e pomposo domínio da gíria, impõe-se a interrogação retórica: o tal anónimo assinante não será fruto sobrevivente (óbvio que cheio de problemas genéticos e interacções neurológicas) duma dessas fecundações sem penetração nem espermatozóide que nos valha? Há casos, há, um cada dois mil dez anos, mais ou menos.

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* Ignorava que ser preto pudesse ser entendido como problema, mas pronto, se a ciência o diz quem sou eu ―que deixei o curso de Biologia ao meio e nas aulas de Genética só fiz experimentos com moscas― para rebater nada?

O parvo, se é calado, pasa ben por asisado

Pola presente confeso que cada día estou peor, non digo para encerrar, que xa me eu encerro sen axuda, nem de amarrar, que bastante me amarra a mortalidade ao chan. Digo peor de parva. Hai un par de días entrei nun blog cuxa xerencia anunciava o feche temporal por viaxe a Escocia. Convencidiña de que estaba no estaminé da Teté, abrín a caixa de comentarios para disuadila de que me trouxese unha botella de malte, que aló, pola cousa dos impostos sobre os vapores etílicos, sae muito máis caro. Chamoume a atención que non houbese a macacada de costume para pór a nota colorida no texto, estrañeza de que deixei constancia por escrito. E quedei tan pancha á espera do regreso. Até que onte me acordou ir visitar o tasco do Marreta e bato coa fuza nun kilt estendido a corar...

sexta-feira, 7 de maio de 2010

A dura e crúa realidade en 3D

Onte á noite pasei a maior parte da película que puxeron no Poleiro (que xa vira pero non me importou repetir) parapetada detrás do respaldo da butaca, non fose fuxir da pantalla unha bala perdida. E é que non era para menos despois de ler a noticia que un bo amigo tivo a ben me enviar para me evitar males maiores sabendo da miña afección a frecuentar as salas de cine. Non obstante, vendo que saín ilesa do tiroteo e lembrando un conto similar que ouvín en tempos, cando aínda non fixera a promesa de nunca máis lavar o ouvido dereito, estou convencida de que a americana non preñou vendo unha peli porno (ou si, se foi quen de facer dúas cousas a un tempo), senón mercé á ubicuidade do espírito santo, que por certo (aquí vén a revelación!) non é un pombo, como se cría, non. O espírito santo ―velaí a dura e crúa realidade en 3D― é o carallo!

Terapia de choque

Nunca tal me acontecera e foi unha das experiencias máis alucinantes que vivín no hoquei, fóra todas as outras que xa vivín, varias. A teoría é simple: para que un suceso se produza cómpre que conflúan circunstancias determinadas nun punto exacto nun momento concreto. Onte déronse as premisas.

Circunstancias:
1) A bóla viña na miña dirección e eu ía na dirección da bóla, cega. Fronte a fronte.
2) Tres xogadores ían cegos detrás da bóla, en cadanseu ángulo con respecto á traxectoria recta que seguiamos a bóla e eu.
3) Os meus patíns tiñan rodas e rolamentos novos: velocidade a máis para a miña pouca pericia.

Hora:
19.36h, que veñen sendo uns quince minutos de partido e mais unha hora de técnica ao lombo.

Lugar:
A 1,13m da portería, en diagonal, comigo no medio da traxectoria de tiro.

Suceso:
Dous corpos magros ―dun peso que calculo equivalente e a velocidade incalculable― bateron óso con óso e saíron despedidos polo ar en sentidos opostos, quedando estendidos no chan a unha distancia entre os pés dun e outro de 1,52m.

Experiencia alucinante:
Nunca antes experimentara a sensación de caer en cámara lenta, de sentir que os pés se levantan do chan co impacto, de me prever a aterrar sobre as costas ―e digo ben, sobre as costas, porque o normal é levar un batecú― e ter a certeza de que non me vou mancar, porque percibo o espazo de ar que hai aínda entre o meu corpo e o chan a me amortecer o golpe e dispoño de tempo dabondo para tensar uns músculos e distender outros. Bim... ba!

Conclusión:
As endorfinas, dígovos, son a mellor e máis barata droga que existe.

quinta-feira, 6 de maio de 2010

Almorzo con formiga e radio









Deambula unha formiga solitaria polo mantel e eu penso en ti. Pola radio falan da fusión das caixas, de que se o presidente e o líder da oposición concordan na necesidade das axudas a Grecia ―hoxe por eles, non vaia ser o demo―. Encabalga a voz do locutor sobre a folga xeral, o cóctel molotov, que absurdo, un cóctel molotov mata tres persoas e deixa outra ferida grave. Uns saen á rúa a defender o dereito a conservar o pouco que teñen, catro non regresan á casa esa noite, dúas mulleres e un home deixan para sempre un espazo seco, frío, na cama, no sofá, na punta dos dedos que os acariciaban. Tomo o primeiro sorbo do único café do día. Non me gusta este café. Debera ir até Monção. Non sei por que penso en ti tanto. As pastillas. Hoxe non falan da marea negra, nin de responsabilidades, nin do prezo do irremediable, do que non ten prezo. Fechar os ollos non é a solución, nin sequera cando non existe solución. A dor é para rillala, fragmentala, esnaquizala, antes que nos devore. Cae unha parede sobre un rapaz de trece anos que xogaba. Aínda é cedo para notar a ausencia. Cantas persoas choran neste momento no mundo unha morte imprevista? Cantas bágoas se necesitan para encher o baleiro dunha ausencia repentina? A formiga anda ás voltas mentres eu xiro ao teu redor gravitatoriamente. Mastigo a torrada devagar, sen apetito. Din pola radio que en Galicia hai probabilidades de chuvia? O ceo, do outro lado da fiestra, está limpo. A paxarada peteira nas migallas de pan. Pésasme cada vez máis. Recollo a mesa e saio a sacudir o mantel ao eido. A formiga cae. Apágame o son da túa voz o ruído da auga mentres frego a louza.

terça-feira, 4 de maio de 2010

À sobrevivência pela abstinência

Andava com um espaço enorme em branco no devenir e na cabeça que não sabia como havia de encher. Isto preocupa-me especialmente porque consequência dessa lagoa mental e vital é a falta de textos, de que o blogue e a minha concentração no trabalho se ressentem... muito. Até que esta manhã caí no tasco do Marreta e fui espreitar à ligação com que ele nos ilumina no caminho à superação da crise. Estes indianos têm uns mistérios paradoxais que abalam com a incredulidade convicta de qualquer um. Há quem tem sede depois de morto e há quem viva sem comer e sem beber (sen comer e sen beber, toda cheíña de frío, toda chea de dolor, diz a cantiga popular galega, aprendam alguma coisa de passagem). A mim, como a todos, assaltou-me a curiosidade. Será que também não...? De qualquer maneira, não adianta escarafunchar: já nunca o saberemos. Reparem que a investigação científica tem o gajo "em observação permanente, sob o olhar atento de 30 médicos", com câmaras a segui-lo dia e noite, do que se deduz que nem na casa de banho pode estar sozinho. E quem é o bonito que consegue meditar assim, hein?! (já não digo mijar ou cagar, que disso se calhar nem precisa), com sessenta olhos ―presumindo, no pior dos casos, a ausência de zarolhos no grupo de investigadores― ferrados nas intimidades duma pessoa?!

Ah, talvez pensaram que a minha dúvida existencial era se a abstinência em comidas e bebidas do abençoado pela deusa abrangia as fodas? Pois, também.

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O fulano, digo-vos, nesse regime não dura três telejornais.

sábado, 1 de maio de 2010

Carballo albino?









Pena que non vaia ter oportunidade de medrar.

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Domingo, 2-V-2010: Xa o rescatei. Agradécense consellos para a crianza en catividade ata que teña un tamaño que permita ceibalo na terra (supoñendo que chegue a xente grande, claro).

Quen manexa os fíos do monicreque?

Nun transbordador aparece un coche abandonado e as ondas en retirada vacilante descobren o cadáver do escritor sen sinatura sobre a area. Despois formúlase a proposta na barra dun bar e a tensión está servida. Unha viaxe en avión ao outro lado do Atlántico, ao outro lado da curiosidade e a incerteza. O negro, o fantasma, a pluma que se mete na pel doutro... deberá continuar a biografía supostamente inacabada, conxugando o que o cliente quere mostrar co que o público quere ler mentres as pezas do enigma se van mostrando na pantalla: só os que se moven dentro dela non as ven. O escenario é unha casa-oficina perdida onde o ar dá a volta, ancorada nunha praia de ceos sempre cincentos, un hotel sinistro nunha vila de filme de terror e unha música de fondo que sutilmente suxire un cineasta gordo e baixo detrás da cámara argallando tormentos para as actrices. A verdadeira historia, porén, xa estaba escrita.

sexta-feira, 30 de abril de 2010

Por pouco não

Nem devia confessar isto mas ontem quase ia sofrendo um acidente terribilíssimo no jogo de hóquei. Levo protectores de pulsos e cotovelos, levo joelheiras, levo caneleiras (o crânio que levo é duro que nem titânio, no problemo!, cuide-se mas é o pessoal de me tentar partir os cornos, não tenho seguro a terceiros*), as botas são de ponteira reforçada, uso dentes amolados, unhas como lâminas e olhar fulminante, gasto língua corrosiva que nem essência de ácido clorídrico... por não falar do poder de pancada que o stick confere. E não foi que num encontrão a alta velocidade por pouco não me arrancaram um mamilo?!

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*Nunca percebi por que é que se diz "a terceiros" quando é, obviamente, a segundos. Com certeza, os donos do invento fizeram a interpretação do Direito tão arrevesada que mais deveria essa arte ser chamada de hermenêutica do Avesso.

quinta-feira, 29 de abril de 2010

O presaxio de algo irremediable










Es que me estou volviendo viejo, le dije. Ya lo estamos, suspiró ella. Lo que pasa es que uno no lo siente por dentro, pero desde fuera todo el mundo lo ve.
Gabriel García Márquez, Memoria de mis putas tristes


Non me vexo.

Mesmo así, coñézome ―a pouco que mergulle polo esófago abaixo, que escaviche nas tripas ou alén do tendón de Aquiles― as miserias, as fraquezas, os olores lúgubres e o desencanto dos cansazos perdurables. Un día sorpréndeme coa garda baixa unha fotografía de hai trinta anos que asoma ao descoido nunha gabeta e arráncame medio suspiro truncado en tose seca de emoción mal abafada ou carraspeira, vulgar, do desgaste impertinente. Outro día, asómbrame o mapa físico arruinado na memoria que me sae ao encontro á volta da esquina e resucita inclemente os adolescentes que fomos, talvez amantes, talvez amigos, se cadra compañeiros de ascensor nun edificio hoxe derreado, derreado coma min sen o saber, e leo entre as dobras da mirada allea a sorpresa da vellez debuxada fenda a fenda na correa do rostro, no frío óseo da man que se xunta á miña, na fortaleza forzada da aperta e nos bicos, dous, concisos e húmidos, sobre a fraxilidade doente dos pómulos.

Vou vella eu tamén, e que luxo!, se aínda hai quen me escriba historias de amores desgraciados con pinturas coloridas e letras como imaxes en rodopío.

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O título do texto é unha frase roubada do mesmo libro de Gabriel García Márquez.

quarta-feira, 28 de abril de 2010

Com um sentido ou dois a menos

Imaginem só que há bocado, enquanto tentava escrever um comentário, esqueci um dos cinco sentidos. Pus mentalmente as mãos nos ouvidos, nos olhos, na língua; juntei fisicamente uns dedos aos outros dedos. Faltava um e eu sabia (ainda bem!) que eram cinco: um sentido por cada dedo. Nem o sexto (o dedo, o sentido) me acudia. Tive-o de ir procurar ao espaço virtual: era o olfacto. Às vezes isto assusta-me, falo a sério, assusta-me ao ponto de perder o sentido... ou o rumo.

terça-feira, 27 de abril de 2010

Os débiles

Dicían os que diso disque entenden e viven que xa só pola actuación del merecía a pena. A min mereceume a pena só por saír da casa e estomballar os ósos e os músculos derrotados sobre a butaca, escoitar as músicas que nunca te deixan ouvir enteiras na escuridade da sala e disolver na boca un caramelo de limón que me transmitía a acidez á mirada. Dicían que o tema xa estaba visto, mas mesmo así... que non había melodrama e tal nin cousa. Que se deixaba ver e que el estaba espléndido.

Isto, como digo, era a opinión dos críticos. A min só me serviu para entreter algunha hora que outra da noite na contemplación dunha historia que non me traspasou as escamas. Quero dicir, mal non me fixo pero ben tampouco. Se callar ando, aviso, algo cínica de percepción... e distante.

Gaiolas sobre gaiolas

Existen innumerables misterios sobre a antiga civilización exipcia que a min e a humanidade en xeral nos gustaría ver resoltos. Por exemplo, por que con aquela calor que disque vai polo día no deserto lles deu pola construción de pirámides, que dan unha sombra cativa, ou por que andaban sempre co pescozo revirado en lugar de mirar para diante a ver onde pisaban, ou para que momificaban os mortos, se total non ían estar presentes para se esmendrellaren de risa coa cara de susto que puxesen séculos máis tarde os necrófilos descubridores. Pero non, había que escavichar, con seriedade científica, nas preferencias e manías en cuestión de caniflais para chegar á solemne conclusión de que nada mudou, ou se non, que llo pregunten á dona Márcia. Xa son ganas de pallas mentais, dígovos.

segunda-feira, 26 de abril de 2010

Alimentação integral

Não há muito tempo um amigo enviou-me o curioso cardápio duma casa de comidas, em todo o amplo significado da palavra. Ontem depois de almoçarmos em Arcos de Valdevez, decidimos continuar caminho até Ponte de Lima. Escolhemos uma esplanada à sombra e retirada da barulheira da praça. A surpresa veio quando dirigi o olhar à porta do café à procura de alguém que atendesse à mesa. Foi só pena não termos fome naquele momento...



Cliquem para ampliar, seus pitosgas!

sábado, 24 de abril de 2010

Bestial o musical!

Ha! Não posso deixar de partilhar isto com vocês! O director, esse novíssimo Gato Negro, promete!

sexta-feira, 23 de abril de 2010

Bailas?

Musítame un descoñecido ao ouvido e eu digo non, non, digo un sorriso, digo os pés cangados na timidez que rima con estupidez, nin peixe acuático no rumor da harpa, da palabra poema que acompaña os pasos. É festa e eu quedo no meu luscofusco admirando o esplendor do escenario: a palabra fende o espazo dispersando borbullas de xabón, sementes coloridas, corcheas sen pentagrama, cereixas bicudas dun vermello case negro, plumas de faisán macho, recendo de azar e limón. Entremedias, un estilete gandúxame con fíos de distancia en espiral o eco da túa voz ao peito. Sangro chumbo.

Hoje é que é sexta...

Em declaro vençut
Em declaro vençut. Els anys que em resten
els malviuré em somort. Cada matí
esfullaré una rosa ―la mateixa―
i amb tinta evanescent escriuré un vers
decadent i enyorós a cada pètal.
Us llego la meva ombra en testament:
és el que tinc de més perdurable i sòlid,
i els quatre pams de món sense neguit
que invento cada dia amb la mirada.
Quan em mori, caveu un clot profund
i enterreu-m’hi dempeus, cara a migdia,
que el sol, quand surt, m’encengui el fons dels ulls.
Així la gent que em vegi exclamarà:
―Mireu, un mort amb la mirada viva.

Miquel Marti i Pol, La pell del violí


Declaro-me vencido
Declaro-me vencido. Os anos que me restam
mal vive-los-ei amortecido. Cada manhã
esfolharei uma rosa ―a mesma―
e com tinta evanescente escreverei um verso
decadente e saudoso em cada pétala.
A vocês lego a minha sombra em testamento:
é o mais perdurável e sólido que tenho,
e os quatro palmos de mundo sem aflição
que invento com o olhar cada dia.
Quando eu morrer, cavem um buraco profundo
e soterrem-me em pé, de frente ao meio-dia,
para me acender o sol, quando sair, o fundo dos olhos.
Assim as pessoas que me vierem exclamarão:
―Olhem, um morto com o olhar vivo.

Miquel Marti i Pol, A pele do violino

segunda-feira, 19 de abril de 2010

Agradecementos









Ando desde a madrugada do domingo ás voltas perseguindo as palabras e as palabras, coma na pita cega, pasan por min rozándome burlonas, inaprehensibles. Bruta que son, co corazón fóra do sitio, que case o perdo ao percorrer o treito tan infinito da mesa ao estrado, desacompasado do lento batucar da sola das botas sobre o piso do salón (estrondo que ninguén percibiu senón eu), coa timidez que me apaga o sorriso e me cega, que me tolle a alegría, non souben máis que dar as grazas, moitas grazas, nun murmurio, a voz de falar tomada e a de calar chamándome nomes. Rescatáronme da vertixe as apertas do Manolo Rivas e o Agustín Fernández Paz, aliviándome do peso dos agasallos e dándome un acougo que nin así me librou do fervillar sen paraxe das mans ―carentes de aconchego onde pousaren, coma pardais agonizantes aos que o chan abrasa e o ar escorrenta― e da cara de parva.

Así que a destempo e fóra de lugar, agradezo à Asociación de Escritores en Lingua Galega o premio á versión ao galego que Bartuk Aykam e eu fixemos da novela O museo da inocencia de Orhan Pamuk e a honra de colocarme ao lado de xentes tan grandísimas.

(E ao Xoán Abeleira, a miña gratitude polo acubillo e a conversa.)

domingo, 18 de abril de 2010

Última hora!

Deram-me o
PRÉMIO
aquele. Amanhã conto.
:)

quinta-feira, 15 de abril de 2010

Manda truco! (por se houver, que haverá, senhoras diante)

Carta ao Pompílio
(que não é assim
que se chama)

É pequena mesmo a blogosfera. Esse vídeo que colocaste do comentarista brasileiro eu já vira noutra parte. Mas não é isso o curioso. O curioso é que remetes para um tal Manuel Azevedo. Nem parece um nome muito invulgar, quer-se dizer, não é, como tu, um Pompílio Levinski de Altares que se diga. Mas a mim fez-me clinc nalgum neurónio dos que me restam em actividade e fui ao Luís Pedro Azevedo indagar. O Luís Pedro Azevedo é um gajo que um dia me pediu no facebook para ser meu amigo. Naquele então, como costumo fazer, primeiro fui ao "perfil" (a página do facebook onde constam os dados que cada um decide colocar para toda a rede ver e que podem ser nenhuns) e ali vi que tinha um blogue. Fui espreitar e soube que era (isso dizia ao menos) advogado, que morava (declarado também por ele) em Évora. Não me pareceu mal, não fosse alguma ligação por ali colocada que me arrepiou, mas me propus despreconceituar-me e passar à segunda fase. Perguntei-lhe em mensagem interna porque é que queria ser meu amigo. E respondeu (já só por isso as minhas normas obrigam-me a aceita-lo... mas no intuito de me proteger redigi-me também uma norma que estabelece que se ao cabo dum tempo não gosto do "amigo", tenho direito a remove-lo impiedosamente com um simples e único dedo) que vira um comentário que eu fiz no mural do facebook dum poeta ―que não vou revelar que seja nem gordo nem careca porque assim, obviamente, já logo o pessoal sabe quem é―, que depois fora aos meus blogues (cujos endereços tenho colocados no perfil visível a todo o público do FB) e gostara. De maneira que o aceitei, porque a mim, que queres?, a vaidadezinha me pode quando os tugas reparam, talvez só pelo exotismo, que sei eu!, na minha escrita.

Toda esta léria para dizer que o Luís Pedro Azevedo tem as ligações dos blogues que visita classificados em grupos e num deles, com o epígrafe de "Parentela", está um dum tal João Azevedo em que encontrei vários comentários dum Manuel Azevedo que casualmente ou não é o mesmo que tu citas hoje. Caso este cujo relato um galego terminaria abanando como que pensativamente a cabeça e dizendo sem levantar muito a voz: "Manda caralho!" (ou "Manda truco!", se houvesse senhoras, roupa estendida, diante).

E sim, como lês/vês, estou melhor. Melhor ânimica do que fisicamente ou talvez ao contrário, mas por momentos. Ou seja, um farrapo. Levantei-me há uma hora da cama para fazer um caldo (almoço tenho ainda do de ontem, que fiz uma carne e estava bem boa, ó incrédulo). E agora, uma vez escrita esta carta, vou inventar qualquer outra coisa para fazer.

E não, o sol hoje não assomou por aqui. Chove e a deus da-la. Mas mesmo assim, repara

beijo
te

quarta-feira, 14 de abril de 2010

A receita perfecta para escribir novelas

Terminei de ler o Invisible. Ao principio non me parecía nada do outro mundo. Tíveno aparcado e hoxe, na convalescencia gripal, superada a febre e libre da dor de cabeza, remateino dunha sentada. A verdade, a literatura que non me fai encoller non me vale. Esta novela é desas. Ignoro se o texto ten calidades estílisticas ou se se domina nel a técnica narrativa: a min paréceme plano. Pode resultar máis ou menos entretido, recoñezo que cobra forza contra o final ―que é inesperado, si, pero podería ser calquera outro e que?―, a min non me sacude. Que lle vou facer? Ademais tócame a moral, por exemplo, que non haxa cualificativos para o protagonista que fai peras en horas de traballo coma un poseso e se chame obsesa sexual a unha muller porque lle gusta foder de cando en cando, ou que se fale da menopausia coma a fin da feminidade e do marabilloso que é ter o período, como se estívesemos nun anuncio de compresas con asas... entre outras cousas, que non teño pachorra para enumerar, e que non se lle poden achacar ao autor, claro, porque son os personaxes os que falan... con idéntica linguaxe desapaixonada.

E por máis voltas que lle dei, non entendo o que significa o título. Que só vemos o que queremos ver? Pois vale. Sigo con Guerra e paz. A ver se antes de fin de ano dou feito.

Entre nós










A imaxe que vedes aí é fotografía dunha mensaxe que recibín hoxe -por engano?- no móbil. Moito me alegrou saber que os de Tráfico usan o galego nas comunicacións internas. Se encontro nun destes oito días os do radar, heilles de dedicar o meu mellor sorriso galego... para a foto.

(A verdade, estiven para responder que se confundira de número (ou?), pero logo pareceume máis emocionante gardar o segredo aquí entre nós.)

Medo meten algúns

Isto a Gaspar pásalle por non ser xouba ou simple chincho con ácidos graxos omega3. Se fose xouba ou chincho, aínda que non dese a medida, acababa no prato ben fritido acompañado duns pementos do padrón de Murcia. Pero o moi animal, que non é peixe -aínda que a impersona non asinante que perpetra a noticia e o titular así o xulgue-, ten ese tamaño por causa da xenética e non hai quen lle meta o dente. E para que serve un bicho que non se come nin sabe facer acrobacias nunha piscina?

Para a próxima, en lugar de darlle cunha changarallada dun remo, métanlle unha descarga de metralladora, a ver se aprende.

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Esqueci esclarecer: xoubas são sardinhas pequeninhas; chinchos, idem em versão carapauzitos.

terça-feira, 13 de abril de 2010

Segredos ben gardados

Quen non quere que unha cousa se saiba,
nin a si mesmo a debe confiar,
porque non cómpre deixar vestixios.

Giulio Andreotti en Il divo* de Paolo Sorrentino

Era unha película que quixen ver no seu momento, pero non cadrou. Tampouco cadrou o outro día cando a botaron no Poleiro, que ía morrendo de dores e ningunha postura me sabía ben na butaca. Así que onte enchufei o dvd e pasei 113 minutos gloriosos de política italiana contados desde unha óptica cáustica (que lindos os esdrúxulos), cunha banda sonora que sempre se interrompe no mellor coma os amantes crueis e espertos e os encadramentos encadradísimos que contadas veces se inclinan e nin así quebran a simetría e un ruído de efervescencia (que non vos enganar, é das aspirinas) que suaviza o ametrallamento de información, tracatracatrá, e a anteposición de consecuencias, golpes de imaxes brutais que se descolocan do fío temporal lóxico, pero quen sabe cal é a lóxica do pensamento? Unha beleza, dígovos, para ver con calma e o mando, pausa, imprescindiblemente na man. Ai, e prego, en italiano é outra historia.

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* Nun texto anterior coloquei a ligazón ao brutal monólogo sobre o poder, que me parece o máis representativo da personaxe. Agora despois de ver conscientemente o relato de Paolo Sorrentino xa ni sabía cal elixir, tan esencial me parece cada segundo. Déixovos unha canción que podía ser calquera outra das que dan corpo ao corpo.

Espertar

Máis unha noite a dor que me rilla, lateralizada agora (polo menos, unha novidade!), acomódaseme nos dentes, un por un até o centro, polo padal, xusto da boca, no pómulo esquerdo de porcelana branca sensibilísima, no ombro e na cadeira e, unha a unha, coma nos dentes, nas vértebras todas, nas costelas e no cabo do esterno, o punto que sostén a angustia (e o día que nunca é día nunca nunca...), a rótula baixo o fémur, na tibia ou no peroné indefinidamente e no pé, todo de lascas lancinantes... e eu só pensando, bícame, bícame xa e breve, para me transformar en sapo dunha vez e anunciar en tres letras gordas brancas que a vida é soño.... non fose polas eléctricas que sempre pasan factura.

segunda-feira, 12 de abril de 2010

Anda que...

Escribo para me encontrar e só cando me perdo absolutamente perdo tamén a capacidade de amarte, de enlear consonantes, de debuxar adverbios, de sacrificar adxectivos para ti, a quen non coñezo (nin vou coñecer nunca, nótese e anótese á marxe), os versos mais belos que nunca serán ditos, nin por min, que de enmudecido asombro grito e agora pinto, coloreo e machuco o verbo (o substantivo, ai, onde alá vai!), morro um cacho máis, o tamaño non importa, e continuo polo mesmo camiño sen sentido, que é que non aprendo. Velaí o abismo. Eu e a minha sombra núa para ti. Ssst! Cala, muller, cala... Xa che chegou ben.

Vou mercar iogures.

E ele que me cure os ossinhos

Tarde de Traumatologia. Nem tempo tive de atacar o romance. Entro na consulta, olha que gajo bonito (não fiem, são as blusas brancas com estetoscópio ao pescoço que me toldam o juízo), de olhos eu reviravoltados. Apalpa-me nos joelhos até que dói, mas nem foi preciso dizer que doía. Não vai haver nada a fazer, prepara-me. Vais tirar umas radiografias agora, diz-me. E eu, sem um chio, vou. Tem im-pacientes diante. Espero. Sento à distância que o corredor me permite. Leio a custo, está lá no outro extremo uma mulher que exige todos os ouvidos atentos ao seu desagrado, um coro em volta que lhe dá azos nos acenos. Até que enfim chamam por mim. Era eu antes, era eu antes!, grita a tal do mundo inteiro em contra. A técnico de radiologia resmunga comigo na sala, era eu antes, era eu antes, que sabe ela quem é antes de quem... Sorrio e caladinha, como frango ao espeto na maca dura, num kamasutra radiográfico, tento as posturas que me ditam, submetida, o corpo estremecido de dor, já sem tanto sorriso.

Na consulta outra vez, o gajo do estetoscópio ao pescoço me confirma o que já sabíamos, que o meu mal não tem mais remédio que ignora-lo, e aconselha-me uma visita a Reabilitação, que não vai dar em nada seguramente, mas... E explica-me tudo com tanta paixão pelo ofício, ele é a cada frase mais lindo, que saio à rua com vontade de partir as pernas.

domingo, 11 de abril de 2010

E bendita química

O catarro de nada acabou mandándome onte á cama con febre, coitadiña eu, pero tampouco merecía outra cousa por desprezalo: partido de hóquei, sesión nocturna de cine-club (nin aguantei viva até o remate de Il divo*), moto para aquí e para alá, duchas de auga fría... Do único que me privei foi de cortar a herba, que continúa á vida dela, máis forte, máis alta, ríndose de min.

En calquera caso, os meus herdeiros que deixen de botar contas, que desta non vou para a cova: xa movo os dedos.

sábado, 10 de abril de 2010

Medicina alternativa

Entrei na consulta e pedín un remedio para a tristura. O médico, moi profesional el, examinoume para certificar os síntomas:
―Ollos vermellos e brillantes ―anotou con caligrafía esmerada na miña historia por enésima vez―. Abre a boca, por favor. Di: Ahhhhh...
―Ahhhhh... ―ronquei baixo e áspero, sen cursivas.
―Gorxa irritada. A ver...
Retirou as luvas de látex e deixou esvarar a punta dos dedos pola pel quebrada dos pómulos.
―Pel seca a moi seca. Hm.
Abanou a cabeza debruzada sobre o escritorio e levantouna deseguida, revelándome un sorriso minimalista, cosido de delicadezas entre a mirada profunda e os labios entreabertos.

quinta-feira, 8 de abril de 2010

Apañei frío en Braga









Xa sei, é un chiste vello e vulgar, unha ordinariez que diría miña nai, ou que me di aínda desde as profundidades da nada.

Sexa como for, o certo é que ando cunha mona no seu sitio, é dicir, cos estragos sintomáticos de amorroamento que delatan a presenza dun virus a mais no meu corpo, por apañar frío domingo pasado tras asistir a unha misa pola resurrección da carne na Bracara Augusta. Quen disto deduza que fun abducida ao rego de sotanas e sagrarios, ollo, está tan enganado como quen creu que andei a plantar verzas nas leiras do feisbu. Son outros os altares ante os que me prosterno e me elevo. E veigas só a que teño en Toledo. Poesía á parte.

(Aleluia!)

terça-feira, 30 de março de 2010

PAUSA

Marcho a plantar verzas ao farmville...

Un sur para cadaquén (e para min, o vento)






Foto: Mario López Alonso

Canto desencontro xunto, sintetizou tras os aplausos o Tronkimazín, técnico de cabeceira nas psiquiatrías miñas, e eu concordei nun pois. Pero antes foron os encontros, isto é, os prolegómenos, saúdos sobre alfombra vermella imaxinaria, co vestíbulo ateigado polo dobre de pernas ca de caras coñecidas. En resumo, frenesí de bicos que soslaiei nun serpear polas esquinas, avara até dos sorrisos que a presión me raciona no cálculo multiplicado a ollo polo da tal falta de folgos que me entra: sumiume a tensión á sola das botas.

Apagáronse, por fin, as luces do patio de butacas e acendeuse unha expectación directamente proporcional ao alento contido. E... Hm? Hors d'ouvre? "Gato Negro Productions presenta"? Coma no cine de verdade un avance da curta-metraxe La Familia Pomodoro, auga na boca e bágoas nos ollos... das gargalladas. Apetitosas, preséntense, entre outras, as interpretacións da avoa e a bisavoa. Que sexa, pois, en breve.

Aí veu o prato principal, receita e elaboración do Condado (sen hipervínculo, que anda de blogosfera restrita):

Historias de blog... I, II e III, á distancia de cadanseu clic.

E de sobremesa, como galegos que somos (no sentido galego do termo) fomos comer e beber: unha farta de lacón con grelos, tinto e licorK, que case me manda ao coma colesterólico tensísimo profundo, non fose porque desbravei disertando durante horas sobre as coordenadas exactas do sur nun testa a testa psicanalítico co Tronkimazín, que non me explico de onde quitei a leria. Aínda hoxe desconfío se non me botou droga na bebida.

Pero só cando saín á rúa e o vento me limpou os ollos enxerguei o sur, ao lonxe, onde sempre estivo, na fábrica do ar que trae a chuvia e as palabras.

segunda-feira, 29 de março de 2010

Ascensión ao inferno

Non era esta a penitencia que eu pedira para os meus excesos do venres: a lámina de afeitar na boca que me arrincou arcadas (a un tris estiven de saír a vomitar para fóra, que na sala non ía quedar bonito), a culler no ollo que me fixo suar en frío, as dúas horas e media que dura a angustia.

domingo, 28 de março de 2010

Xa non estou para isto (se cadra, nunca estiven)

Montei no coche toda periposta predisposta a ir ao cine. Aínda non saíra das Carrouchas, cando me acordou: había teatro no auditorio. Así que despredispúxenme virando en redondo e dei unha longa camiñada cos cans, agradecidos cada un á súa maneira: el, cos ollos mansos e a lingua de fóra; unha das elas, aos pinchos e a lingua de fóra; a velliña, en fin, é caso para dar de comer á parte: rosmoume, sinal de que todo vai ben, dentes de fóra.

Subín, que antes debera dicir baixei e digo, pois, baixei, ao auditorio, con tempo dabondo para coller sitio e non ter que pousar no chan como da última vez as poucas carnes das cachas. Entretiven a espera coas odes da ana salomé, e ende ben, que foi o único bo da noite. Desta vez saín do teatro antes que caese o pano (que digo eu que por qué non hai pano que caia, que guillotine incluso taxativamente, no auditorio das Carrouchas?), porque estaban a acabar comigo nunha sesión continua de gritos e gritos e gritos. E gritos.

Sónchevos, entre outras moitas poucas cousas ou defectos perfectos, de ouvidos sensibles. E se non saio a tempo, dígovolo, grito, grito mesmo que parasen de gritar dunha vez.

Que agonía esta a miña impaciencia.

Sorte que por ir a pé, no vir, á penumbra dunha lúa que brincaba ás agachadas, fóiseme sosegando o tímpano polo conduto auditivo externo* dentro, descansándome martelo, bigorna e estribo nun batucar suave como rumor de trigo verde.

Como burbullar de estrelas.

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* Ignoro porqué lle tiraron o título da trompa ao Eustaquio.

Os donos do tempo

Ando um bocado alterada: descobri há coisa duns minutos que me roubaram uma hora esta madrugada, e agora devo acreditar que ma vão devolver de aqui a mais menos seis meses?! Devo acreditar que vou viver até lá?! E se não vivo, quê? Quero é a minha hora agora! Depois eu já decido se vivo se não vivo, que a minha vida é minha, ó senhores donos do tempo!

sábado, 27 de março de 2010

De saúdes e sanidades, de pecados e penitências

Na sexta de manhã cometi a soberba estupidez de ir de mota à Cidadeabertaaomar. Não me saí mal, porque com o dia que esteve pôde ser muito pior. A saraiva gorda caiu enquanto estava na sala de espera do médico, de maneira que safei. Não safei foi da chuva fria que apanhei no regresso. Nem do vento. Contudo, cheguei viva, humidamente tumescente, mas tenho chegado em piores condições.

A boa notícia é que por fim aplicaram a receita electrónica no centro de saúde que me corresponde, de maneira que não tenho de voltar por ali até dentro de seis meses: quando precisar medicinas para doenças primárias ou colaterais (protectores de estômagos, tensões arteriais elevadas, colesterois e por aí) vou à farmácia e retiro. Já é um avanço: nem o médico perde o tempo em fazer receitas comigo nem eu a ir e vir à chuva sem nenhum sentido nem juízo.

Depois almocei, fui ao (des)café e às compras. Quando cheguei estava com sono e cedi a tentação de deitar-me "um pouquichinho só, lês umas páginas e descansas". Nem sei a quem pretendia enganar: nem li nem tirei os óculos da cara. Quedei "frita", como dizemos nós. De maneira que depois andei mal disposta, a beber chá de cidreira, para ver se conseguia ser gente.

Essa noite, às 21.00 (HE) estreava o Condado a curta-metragem. Depois, parece, os máis menos sessenta assistentes estávamos convidados a um "lacón con grelos". Isto é jantar típico de aqui: lacón, que é o pernil dianteiro do porco salgado, que se põe de molho e depois coze-se, e os grelos (não pensem mal, suas mentes perversas!), as folhas ternas duma espécie de couve. E leva também chouriço e batata. Como se está a ver, a comida melhor para os meus pecados hipertensos e colesterólicos. Estive num sei se ir, num não sei se pecar até esse ponto... que nem ia ter com quem me penitenciar a posteriori (a priori também não). Mas decidi ir, porque o contrário seria vir para casa a me sentir sozinha e miserável, e era sexta. Já toda a gente sabe o que as sextas fazem comigo, quando consegui sobreviver ao resto da semana.* De maneira que, a quem corresponda peço-lhe me reserve uma penitência, que eu vou-me esmerar em cumpri-la com devoção.

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* Disto darei conta quando me inspire e o Condado carregue no iutu a curta. Paciência.

Quinta-feira quase-feliz









Ode com meias até aos joelhos

nos dias em que chegas a casa triste
o meu corpo é triste para que nada te fira
nos dias em que chegas a casa triste
sou só um corpo com meias tontas até aos joelhos
um corpo nu no medo claro da noite
os seios no redondo azul da tua esfera
e a sombra deles na parede do quarto.
nos dias em que chegas a casa triste
sou uma Salomé num desassossego de licor
o teu lado esquerdo com um sexo de flores
a ternura somente insuportável

de te saber triste sem te poder tocar.

ana salomé. Odes



Quintas-feiras havendo hóquei são boas, por decreto, isso aqui toda a gente sabe. Se há Leituras então, ai...! Era estranha esta. Havia muita malta nova pululando diferente da habitual. No fim viu-se porquê. No princípio viu-se pessoas que falam ao telemóvel antes de entrar na sala, pessoas que brincam com o telemóvel quando se apagam as luzes da sala. Depois não. Depois foi com as palavras que se brincou. Por exemplo.

Foi a repetição: não por mudar de idioma, chega mais o que se diz, quando nada chega porque nem se percebe bem. E os gestos repetidos, os pulos... aqui já calo.

Deu laranjas e luz, e fez bolas de sabão, "aquilo para que nascemos". Em crianças, muito crianças, fazíamos bolas de sabão com uns macarrões longos como espaguetes que já ―penso― não existem: era uma brincadeira efémera porque a massa amolecia com a água e não nos era permitido estragar mais do que um canudo cada; era uma brincadeira especial, porque esse dia havia macarrões ao forno no almoço.

Aos nove anos era a maior poetisa de todos os tempos. Já naquele então ―e isso se calhar é bom para a supervivência― tinha o ego maior do que a perspectiva e a voz.

Ela é uma maneira de concentrar as miradas e os músculos num ponto: ali onde o corpo é música, e vibrando estremece. É o ventre; às vezes, segundos só, olhos e mãos.

Veio acompanhada dos seus mitos femininos e as histórias da infância, da poesia como forma de estar com muita gente, e estava. Foi pena o tom monótono da voz. Se importante é escrever, tão importante é modular-dizer para explorar a beleza das palavras.

Ora, com a discrição duma folha de outono em forma de carta para uma tia de Lisboa, fez magia desde o tamborete, prestidigitando sorrisos, gargalhadas, ela que se quis entre cientista e palhaça, e acabou, coisas!, jornalista numa sala de teatro, com baratas que esperam na cabeça pacientemente a transformar-se em poema da Adília Lopes.

E a malta jovem, aí entendeu-se que era o público fiel do músico, a agasalha-lo no palco. Prendeu-me também, mas na distância. Imagem e som, cada música uma mulher e todas as mulheres. Eu tanto querendo tirar uma foto de fundo vermelho, guitarra vermelha e o vermelho do fundo assomando entre as pernas entreabertas. Mas não deixam e um dia destes vai-se-me perder o enquadramento na desmemória.

Só não foi uma quinta-feira-feliz porque ao chegar a casa descobri triste um meu amigo, um meu amigo que chorara, eu tão longe e ele mais longe ainda.

Assim, rapaz, não tem felicidade que resista.

quinta-feira, 25 de março de 2010

As dúas novas de onte









Onte ouvín o canto do cuco por primeira vez neste ano. Non entendo cal é o racional impulso que me levanta o ánimo cada primavera ao sentir ao lonxe a cadencia inmutable que revela a súa chegada. Digo eu que non debera emocionarme, a pouco que a sensibilidade polos débiles me asalte. Ao cabo, o cuco é o rei do acoso entre a paxarada miúda, o usurpador de niños e pitanzas, asasino gordo e feo de ovos indefensos. Con todo, el anda aí xa por fin e no ar vibra o anuncio da súa presenza. A min ―que incongruencias!― pónseme unha comechón no estómago de asas de bolboreta e pés de lagarto arnal a bailar na palma da man estendida. Irremediablemente.

Despois do lirismo pantagruélico, non sei se escoro se envorco cara á segunda nova de onte. Disque-disque, aquí a escasos quiñentos metros da miña casa, instalaron un puticlú discretamente propagandeado na prensa de chalé para recrutaren man de obra. E digo-digo que estando como está o panorama laboral talvez me conveña sopesar a oferta seriamente. A fin de contas non ía ter que gastar nin en desprazamentos e tampouco podo dicir que gañe dignamente a vida como tradutora.

quarta-feira, 24 de março de 2010

Miragens










Otherwise it's all the same.
Otherwise one is immortal for as long as one lives.

Philip Roth, The dying animal

A primavera é uma miragem. Está e já não está, puro ilusionismo. Há dois dias cortava a relva ao sol e a ameixeira nevava-me de pétalas a camisola. Ontem serrava os restos da poda feroz aos carvalhos e sentia o sangue palpitar, ainda era terça e tu a tardar-me tanto. A chuva, já hoje, amanheceu-me cinzenta, nua de ânsias, derrotada de anseios, milho seco que se aguarda estrume. Depois veio o sol timidamente entre nuvens ovelhentas, mansas. Aí senti o mar numa brisa imaginária e uma onda a cabalgar-me de espumas. Fui ter com ele. De mota como se fosse para durar. Cega.

Terminei de ler o Philip Roth à beira mar, num passeio pelo desejo e a urgência até os abismos do cancro e a solidão. Quando levantei a vista, toldara-se o céu e o sorriso que te reservara no horizonte desenhado. No caminho de regresso umas gotas tímidas me esporearam e acelerei. Liguei o aquecimento, que vinha de mãos quase invernais. Chove. Ninguém se lembra já da cor do sol e este azul pastel de fundo virou-me piegas. Mas é só por disfarçar o horror do animal moribundo que a gente leva dentro, como se fôssemos imortais.

terça-feira, 23 de março de 2010

Dando a nota (2)

Tras catro horas cunha rozadoira ao lombo e dúas a empurrar unha corta-céspede penso se non andarei a estragar tempo útil de neuronas.

Dando a nota

Sei que escribo pouco ou nada ultimamente. Hoxe tamén non é o día mellor para pulsar teclas, cun dedo inchado, consecuencia dun espatifamento involuntario produto dese meu empeño en aprender a facer virguerías sobre oito rodas e ningún sentidiño. Claro que non é grave, á vista está que as letras van saíndo. E vaise ter que aguantar o infeliz porque esta tarde hai partido extra de hóquei e estreo rolamentos.

sexta-feira, 19 de março de 2010

É ele!









O Condado* estreia curta-metragem e eu, artista na família. :)

*Não o posso linkar porque anda de portas quase fechadas. :( Manias!

Confesións e delitos

Despois de tanto pecado cometido (foi o café, foi a torrada com manteiga, foi o sal o sol da manteiga...) onte no Porto, pensei que non ía haber penitencia que me salvase. Porén, mentres na mesma mesa atacaba un xornal de papel, redimiume a estupidez ruín dos humanos: que haxa que ouvir isto cando aumenta a transmisión do virus da inmunodeficiencia humana nas relacións heterosexuais. Ten delito!

quarta-feira, 17 de março de 2010

Nem para lamber espinhas

Alguém já pensou que se o peixe fosse para ser comido sem sal moraria nos rios? Se até as trutas sabem que como sabem é com uma lasquinha de presunto na barriga. E nem um café para disfarçar este amargor... Fora gordura, fora excitantes... Estão à espera de quê, ditadores da minha saúde*, prolonguem-me a vida, tirem-me o açúcar também e metam os meus ossos na salgadeira.

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*Conste aqui: Quero muito mesmo os meus médicos e eles querem-me bem a mim, e viva, eu sei.

Telefonias psicofónicas

Quem abaixo assina, por ser meia galega?, meio desconfia quando lhe querem vender o que não pediu para comprar, não embalde assiste a aulas de economia nas melhores escolas. Por isso ontem, quando o telemóvel tocou e vi o número nada extenso que aparecia no ecrãzinho, disse ui-que-carai! A senhora Miou era eu, sim, vá lá, despacha-te. Estava com vontade de ouvir vozes humanas (confesso que ao primeiro pensei que era máquina, tal a cadência monótona da frase de início aprendida de cor) e contra o meu geral critério de não-me-interessa-muito-amável-não-me ligue-mais-toooobrigadíssima, deixei falar a criatura. Era da minha (estes possessivos!, desculpem o esgar sardónico que me foge pelo canto do lábio que tenho partido e não posso rir) companhia de telefonia móbil ―e aqui mais um ui-que-carai. Fui escutando pacientemente, com um olho posto no lume (não se me fosse esturrar o jantar e com ele a fome escanzelada). Pelos vistos e estudado o meu historial de consumo, ando ainda com tarifas do século passado, cliente fidelíssima (soubessem eles que à força, não posso ameaçar migração nem de blefe, que com outra qualquer teria sempre as antenas da margem de lá à espreita), e que me convinha mudar de contrato por um preço mínimo que num horário determinado me permitiria ligar de borla a todos os números de telemóvel e fixos, fazer essas chamadas breves que não faço ao meu marido (hein?!) ou aos meus filhos (hein-hein?) para saber onde é que eles estão (hein-hein-hein?). Aqui quase me convence, estereotipadamente. Com certeza, com essa nova tarifa adaptada aos tempos presentes, ia pagar mais uns eurazitos do que pago habitualmente, mas em troca, olhai, queridos!, em troca!, em horário nocturno, qual médium videntíssima do inexistente, ia saber onde param-pairam o meu marido e os meus filhos... Isto é que são avanços tecnológicos!

segunda-feira, 15 de março de 2010

O fío do nobelo










Case unha semana enteira para lembrar. Perdéraseme o papel dun personaxe nun filme. E gañara angustias, abismos, entre neuronas mortas. Foi preciso durmir, durmir moito, como xa nunca durmo. Cando o maxín espertou esta mañá, o quebracabezas estaba completo. Tamén non é para alegrarse nada. Unha semana! E debera dicir ende ben?

Coma un fillo









Rematei a tradución do Ishiguro. Darlle a enviar é como, imaxino, ver un fillo que sae da casa para o mundo. Por iso resístome e releo o texto unha e outra vez, modificando sempre, tentando melloralo seguido, até que xa, digo, fecho os ollos, vai, acabou. Algún día ten que ser. Non te podo reter máis sen te transformar por completo en obra miña, sen te contaminar dos meus modos.

Véxoo partir entre a fachenda (non me quedou mal, penso) e o medo a que non encontre aí fóra a acollida que lle soño.

As ilusións son así de puñeteras.

sexta-feira, 12 de março de 2010

Filmes

Ontem não foi quinta propriamente. Suspenderam-se as aulas de patinagem porque, pelos vistos, precisam o pavilhão para montar uma feira de saldos: outlet chaman-lhe agora de lábio em bico porque "esgoto" não tem nenhum glamour, outra que também suscita fascínios linguísticos. Digo isto a modo de preâmbulo para vocês compreenderem porquê na tarde de ontem houve o que houve e não os estatelamentos costumeiros.

Foi assim.

Um grande (pelo tamanho) director de curta-metragens (também pelo tamanho) ligou-me para ir gravar umas cenas para ele, melhor dizendo, para ela, a curta. Precisava, explicou-me, imagens duma pessoa a escrever num computador num café na praia. Aceitei. Não parecia que os meus dotes artísticos não fossem estar à altura. E lá fomos para Caminha (maiúscula inicial, na foz do Minho). Já no local especificou que apenas queria umas mãos de gente a teclar, o ecrã dum computador a revelar um blogue. Eu estive para me escudar em que tinha as mãos feias, que era melhor imortalizar outras partes de mim melhor conservadas, como quem diz, os mamilos, mas depois... na verdade, não sei escrever com os mamilos. Se era de escrever que se tratava isso podia pôr um problema. Além do mais, reflecti, quem sabe?, se os mamilos ficassem famosos e depois tivesse de andar pelo mundo fora sempre atrás deles... era cansativo, não era? Eu também acho. E podia apanhar frio, de vesti-los e despi-los entre tantas tomas. Claro que o frio nos mamilos nunca fica mal. Aí pensei que talvez... mas não. Afinal não disse nada e limitei-me a dar o meu melhor no papel de dedos que escrevem. Nem sei se fiz bem.

quinta-feira, 11 de março de 2010

Meios tolos eternos









'But I don't want to go among mad people', Alice remarked.
'Oh, you can't help that,' said the Cat: 'we're all mad here. I'm mad. You're mad.'
Alice's Adventures in Wonderland, Lewis Carroll

Fui ver o da Alice. Mas não direi nada, que não posso. Nem vou dizer sequer que me sonhei por vez primeira um cabelo louro e uns vestidinhos de escumas, ingrávidos, não ouriço-cacho como era o meu costume. Prometi. Ela quer-se limpa e pura ante o ecrã e quem sou eu para andar a ficar em bestuntos alheios preconceitos alheios, crípticas opiniões que entulhem a percepção livre de cores e sombras, de vozes-silêncios, de fundos-fundos e planos mais primeiros que primeiros? De maneira que vão ver, se quiserem, coloquem os óculos das fantasias sobre os óculos das realidades e sintam-se meios tolos da tola inteira.

A quem quiser continuar virgem de influências, aviso!, não lhe convém entrar na caixa de comentários: aí a moderação não está activada. (Eu aqui a falar adiantado em comentários em plena crise blogoglobista.)

quarta-feira, 10 de março de 2010

Demencia e desmemoria: o medo

a doença enumera inventaria
necessita de esvaziar completamente a memória
para que se cure o corpo
e o sonho de novo desça e construa
magníficos refúgios luminosos jardins
Al Berto, Vigílias, 4

A historia empeza xa así con acentos de película antiga, voces de macho varudo que mira de esguello o interlocutor, revelándose no pánico con síntomas físicos (a auga, o enxoo); a retranca na afirmación que é pregunta, fala como se a locura fose contaxiosa (e será?); na auga, na auga sempre presente, o terror que escorre polas mans, a forza brutal da auga que crea e destrúe, auga máis poderosa ca o lume. Os ingredientes do medo están aí todos: unha illa, que é a incomunicación; unha treboada, a luz que nos cega e a chuva que nos afoga, a constante humidade; un cemiterio, a morte, naturalmente. E unha palabra soa: FUXA! Fuxir? Fuxir de quen, de que? Pode un fuxir de si? Pode un fuxir do sangue, das vísceras, da capacidade do ser humano para magoar, dos cadáveres conxelados, dos ollos, dos ollos dos mortos, do baleiro dos ollos dos mortos? Encontrar o paciente 67 será recoñecerse perdido? Talvez a resposta estea no faro, o lugar onde se fai a luz, claro. Talvez non. Porque a loucura é iso: non distinguir o real do irreal, a verdade da mentira, se un é louco ou o queren enlouquecer, claridade e tebras. O medo.

Velaí o meu medo: traspasado o intervalo, soa ao fundo da sala, a desmemoria con toda crueza: deberei levar comigo pedras pequeninhas brillantes que me permitan regresar, recoñecer os pasos vellos, a demencia que se instala e da que só hai unha maneira de fuxir?