domingo, 29 de agosto de 2010

Éramos poucos...










Sexta-feira passada, depois de matutar até o ponto de quase fundir o cérebro, achei que não devia limitar-me a espreitar e clicar em "gosto" pelo feisebuque fora. As palavras do Vítor Oliveira Jorge que entre delicados dardos contra os voyeurs (ai!) aludiam às revoluções internas, animando a rebentar esquemas, remoíam em mim num fervo não fervo quase incandescente que me queimava nos dedos. O que é que eu podia fazer nessa imensa montra de egos? Como quer que a ideia de entregar esforços a alimentar vaquinhas que nem se deixam comer não me enchia, optei por fazer o único que sei... mais ou menos: traduzir. Assim, criei nas "notas" um compromisso comigo para ir passando poemas de autores de que gosto (uns de sobra conhecidos, outros nem por isso) de português para espanhol e mesmo, vez por outra, com muito atrevimento, ao contrário.

Mais tarde ocorreu-me que bem podia expor esse trabalho (porque é um trabalho mesmo, ou pensam que enfio os poemas no tradutor-bimby do google, hein?!) além do círculo reduzido e selecto de amiguíssimos feseibuqueanos, criando mais um blogue com idêntico esquema, aberto ao planeta Terra e parte de Vénus, por enquanto. De certa maneira, uma ponte que se juntava ao que esta tem chegado a ser pouco e pouco.

E como se tratava de partilhar e havia um apartado do Abnóxio de Ademar Ferreira dos Santos de cujo contido e epígrafe sempre gostei... à maneira nasceu o título:


No blogue irei colocando os poemas que escolher para o féisebuque. Como quer que alguns já saíram lá desde Sexta-feira, aparecem agora n'O poema... com essas mesmas datas. Só a partir de hoje é que começarão, notas e blogue, a estar sincronizados.

Eu sei que há por aí algum amigalhaço que não aprecia poesia (e ainda bem, porque então, olhem que nojo, ele seria perfeito!), mas eu também te digo, meu caro, não lerás meia palavra a gabar bola neste tasco. Porém, isto será mote para outra postagem...

quinta-feira, 26 de agosto de 2010

Garrafas com mensagem (2)

Eu aludi no texto anterior a um amigo da minha época estudantil que o sucesso (bem pouco sucedido, com certeza) me trouxe à memória. Não que não o tenha lembrado triliões, aproximadamente, de vezes. Mas nesta oportunidade decidi provar fortuna no feisebuque, com muito pouca fé, seja dito de passagem, pois conheci-o bem e não o imaginava a cair numa destas de redes. Mas, ó surprise!, lá estava. Um perfil absolutamente desperfilado sem dados nem fotografia, só com a possibilidade de enviar uma mensagem, qual garrafa de boca aberta. E eu pensei, já que cá estamos, vamos é lançar a garrafa à internete assuntada num conciso "és tu?", ver o que se passa. E, ó mais surprise! ainda, nessa mesma tarde recebi resposta, que traduzo à vossa ignorância despolíglota:

Fosga-se!!!
Acho que sim... que se tu és tu, eu sou eu! Mas... tens certeza que tu és tu? Maria...? De Lmbrd (lá vão mais de 20 ou 30 anos que se me agarrou o nome pela musicalidade, filha)?
Enfim, se somos, apesar de tudo, os que somos: envio-te um beijão enorme, e é que nem imaginas a alegria que me entrou, que já vês como escrevo todo atrapalhado...

Depois que foi uma coisa sobrenatural, olha! Estou de jolidayses na casa de Grrtx, a evitar qualquer contacto com portáteis, telemóveis... e zaca!, ocorre-me hoje ligar-me para procurar uma receita* e deparo com a mensagem. E isso não é tudo, pois não! Abri conta no feisebuque nos inícios, para um estudo sobre minaria de dados1, que eu nunca liguei às redes sociais, mas, coisas!, não eliminara a conta2 e além do mais tinha lá o meu nome e tudo3!

Pronto... que na verdade tens de contar muitíssimas coisas, de maneira que responde-me logo-logo (pelos teus pecados!), que fiquei tão nervoso como um dia em que enfiei o fio dental4 ao contrário...



Ai que um dia destes me vejo a gabar as bondades do bigbrotherzão!
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*. Hehehe...! Sempre há algum pretexto.
1. Já vi escusas melhores!
2. O coitado nem sabe que isso é tão difícil ou mais! do que apostatar do catolicismo...
3. Eu mais diria "e nada".
4. No vocábulo empregado no original não restam dúvidas: não alude ao fio de limpar os dentes mas ao que designa uma prenda de lingerie. Ups!

Garrafas com mensagem (1)

Em tempos tive um amigo catalão cuja mãe, ainda solteira, face à inchação crescente da barriga, num outro milénio em que a prenhez fora dos limites do matrimónio era, além de opróbrio, pecado (ou viceversa), defendeuse da ira paterna e a vergonha materna alegando que aquilo vinha dependido de se ter banhado repetidas vezes (reparem na reincidência a lata da pecadora, se não é isto tentar o demo...) na praia da Barceloneta. Hoje, oito anos depois do lavado de cara das Olimpíadas, presumo aquelas águas tão limpas que a gente pode afogar nelas sem qualquer risco para a saúde, mas naquele então os argumentos da futura mãe do meu amigo eram de peso e evidente gravidez.

Primeira garrafa com mensagem
Lembrei isso há dias, ao deparar no Alpendre da Lua com uma notícia, em cujo final, aliás, o administrador do coiso citava, muito amavelmente, um texto deste blogue (estamos aqui num puxa-saquismo quase patético). Vejam.

Um executivo com ar de não ter pisado nunca fora do rego (talvez não é muito feliz a escolha da expressão) colocou repetidas vezes sémen próprio na garrafa de água duma colega de trabalho. Até aqui tudo bem: uma ideia perfeita para a mente dum tarado conceber. Mas há algumas incógnitas de índole para-científica não esclarecidas no jornal que me têm desde a data numa de insónias inquietantes.

Como é que fez o Michael Kevin (este pessoal tem mesmo nomes de telenovela) para enfiar o esperma pela boca (quase ia utilizando à galega "bico" para dar nisto um toque etno-medieval, mas depois ficam-me todos nervosos) da garrafa? Eu só imagino aquilo tudo esporrado por fora, visto que a maioria dos homens nem para mijar, com a pila bem segurada e fixa, acertam no wc, que tem um diâmetro consideravelmente maior, quanto mais...

Ora, a água é, como bem aprendemos na escola, um líquido incolor, inodoro e insípido. A mim não me digam que uma gota de esperma que seja não dá nas vistas por ali a aboiar com aquela corzinha esbranquiçada? Quanto ao sabor, ainda levou três meses a gramar água choca antes de notar qualquer coisa de estranho?! Se calhar, a papalva ia pensando, "Olha que isto que estou a beber é bom como a água, tem um gosto que me traz belas recordações mas não identifico" e tal. Acontece muito nos cursos de cata entre pessoas inexperientes. Já relativamente ao odor, aí pronto, concede-se-lhe o benefício da dúvida, pois nem toda a gente consegue farejar que um colega de trabalho possa trazer água no bico ou que essa água não fosse flor que se cheirasse.

Porém, um dos poucos pormenores que levou a vítima a desconfiar foi o facto de ela ficar indisposta depois do acto, vamos denomina-lo assim, de libidinagem. Esta também não percebi. Eu já fiz inquéritos para me documentar seriamente e das 1637 mulheres entrevistadas, 78% afirmou que jamais se sentiram indispostas por ingerirem esperma pela boca, muito ao contrário, algumas (67'9% destas) sentiram-se muito bem dispostas; houve 12% que alegou preferirem água com gás; 7% declararam-se lésbicas; e o 3% restante não souberam barra não responderam (aqui incluo uma senhora que me bateu impiedosamente com a mala).

É por isso que, ao meu parecer, este insólito episódio só se explica através das subtis apreciações feitas no Alpendre, o que me leva a animar os governos das sociedades mais avançadas a proverem de fundos à comunidade científica para investigar na linha aventada com tão pouco êxito pelo Michael Kevin.

segunda-feira, 23 de agosto de 2010

A-videncias e amigos invisibles










O neboeiro da tarde en Moledo que me conxelou os dedos sobre as páxinas do Anna Karénina fixérame presentir unha noite máis fresca para o concerto da noite na Nova, onde, entre tanto, rachaban as piñas poucas que van restando dos incendios. A servidora xa non lle quedaría estranxeiro ao que fuxir se se dedicase a vender estas videncias con libro de reclamacións e dereito ao reembolso da "vontade" dos crédulos (esa que os adiviños saben que se ha mostrar magnánima, porque a mesquindade non presta ante os ollos omniscientes dos poderes sobrenaturais) expresada nos negros billetes coloridos.

Porque ao final a noite foi quente. Non abondase a temperatura real, estaba a sensación térmica transmitida desde o palco por el, polo vento cálido da súa voz e a súa simpatía vertidas en cancións de amor e paixón, e eu deixándome arrolar na música para non me consumir nas letras, a lúa entre nubes acenando, o meu amigo invisible case corpóreo a evitar, as súas mans tenras e firme nas miñas, que me arrastrase ao fundo a negrume.

sábado, 21 de agosto de 2010

Sinais de vida ou isto

Acho que continuo viva, contudo, nem de evidências falsas disponho. Os mortos têm dor de canelas? Já sei que ninguém me vai responder a esta pergunta, e caso que alguém viesse com a resposta não demonstraria eu muito juízo em da-la por válida, mas, acreditem ou não (a administração deste coiso descrê de crenças, porém, a volubilidade é obstinada), é questão que me preocupa mais do que bastante. Talvez, se os deuses se decidissem a executar o projecto do Éden (para isso ainda deverão encontrar um operador que forneça um serviço de internet móbil decente, e milagres não se fazem a toda a hora), conseguiria comunicar com o XLV e inquiri-lo sobre esta dúvida subsistencial, mas também não tenho muita confiança em que isso se vá produzir antes dos próximos 1374 anos. Por enquanto, vou-me sedar. Tenham boa noite, que já o sol vai alto.

segunda-feira, 9 de agosto de 2010

Ante un ermo vasto (10)

Cando terminou de ler as Memórias póstumas de Brás Cubas, quedou a pasmar un bo anaco. Entre tanto íalle abrollando a golpes suaves e ondulados unha idea que apenas uns séculos depois, xa consciente dela, había qualificar de fabulosa. El tamén ía escribir de morto! Que ocorrencia xenial! Acelerado polo entusiasmo, Xoán Lobo Vieira dirixiuse á casa galgando vila através sen desviarse ante paredes nin mirar aos lados para cruzar as rúas, sen pedir paso aos veciños que cumprindo a tradición se xuntaban ao luscofusco nas terrazas para falaren da calor e enxotaren en comuñón a impertinencia teimuda dos mosquitos. Non ben chegou, considerou oportuno ao decorado colocar un malte seco nun canto do escritorio. Deseguida librou o espazo de papelada, colleu unhas poucas de cuartillas limpas dunha resma xa mediada e sentou, na man dereita a pluma, entre o furabolos teso e o gordo da esquerda pousado moi intelectualmente o queixo, pronto a acometer a maior obra literaria nunca escrita: o relato da súa existencia real no alén. A brancura do papel foise tinguindo de amarelo mentres nun remuíño zoaba o baleiro da atemporalidade.

(Nunha dimensión diferente os deuses, parados ante un ermo vasto suspendido na eternidade por columnas xónicas cuns repoludos querubíns trompeteiros a modo de capiteis, continuaban a debater un proxecto á medida do soño humano: un xardín abundante en regatos e maceiras, con conexión wifi.)

domingo, 8 de agosto de 2010

Danza de partituras ao vento






O anfiteatro enchíase mentres os acomodadores pedían para nos aconchegarmos uns aos outros coma se fose inverno. E non era. A superficie das bancadas, nas que estivera día enteiro batendo o sol de cheo, queimaba como se fose ao tacto baldosas dun piso que tivese a gloria a arder por baixo. Só que non era.

O que era era un vento de suspiros que quitaba as follas das partituras a bailar, pretendendo conquerer, envexoso, os aplausos en que os espectadores prorrompían mal acabada a peza, nin se sabe se satisfeitos do ouvido se ansiosos por ouvir máis. Os pianistas, á deles, viraban en círculo, trocando os instrumentos coma quen muda de parella sen desafinar no clímax, que se reflectía nos rostros levantados dos ocupantes do patio ou nos debruzados dos que abrazabamos o espazo no escano superior evitando que o son se perdese na penumbra.

Había nenos por todas partes: os máis vellos escoitaban en silencio, beneducadísimos; os máis cativos ían adormecendo sen roncar sequera nin ousar soñar de alto un conto de medo ou de marcianos orelláns, aniñados no colo que os acollese.

No anfiteatro da Nova o público réndese sempre ao final en pé porque hai poucas ocasións de ouvir música decente por aquí, fóra o verán, e percíbese a entrega dos músicos, en xeral1, que chegaron con día aínda e levan pintado no resplandor dos ollos a caricia desta paisaxe que ancorou entre o norte e o sur de ningures.


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1Vale, dixen en xeral porque o verán pasado estivo por aquí o túzaro dos calcetíns cor de rosa, que non deu de máis nin as boas noites e saudava tan envarado que non lle collía unha palla no cu, como se tivese medo de que os pantalóns lle rachasen. O farruco, xa pode tocar onde lle pete, que a min só pagándome unha millonada me volve ter de público. Ese non sabe quen son eu!

sexta-feira, 6 de agosto de 2010

Receita para adiar máis un día a compra

Onde vai xa que da neveira sumiron os iogures e só lle abro a porta para sentir o frescor na cara a aboiar de calor e desleixo. Petisco aquí e alá para compor un menú de migallas e restos: una lata de atún baixo en sal ou o derradeiro toro de peixe conxelado, as ídem ervellas ou unha cenoria mirrada, arroz ou pasta que ameazan xa cun alarmante fin de existencias e a froita do eido, ende ben, que non me falta. Velaí, entón, que nesta desolación alimentaria aparéceme o veciño co agasallo duns tomates (vexetais, non me sexan mal pensados, que non estou para chanzas), que eu non sei se será a fome de comer verdades ou a desgana de ir á compra pero morrería así á fronte dunha prata deles, nun baño de aceite denso transmontano, un orballo de tomiño e albaca e as pingas finais de vinagre (meu, de por min co viño que non bebín e o oxíxeno que non respirei criado) a sobrancealos. E pan para mollar, claro.

segunda-feira, 2 de agosto de 2010

A cor, a luz






Anêmonas vermelhas, Dacha



Eu nunca pensei mercar un cadro, digo, pensar pensei moitas veces pero sempre como un imposible. Por iso fun á exposición que a Dacha (Dália Faceira, que descubrín no Alpendre da Lua) colgara en Caminha apenas coa intención de agasallar de cores a vista e acender coa luz dos lenzos a temperatura corporal. Saín do local, dígovos, tamén con algún centímetro a máis de altura no ánimo. Agora cómpre buscarlle un sitio onde quebre a brancura inane das paredes.

domingo, 1 de agosto de 2010

Xa podía vir o outono...

É día e vai unha calor tal que nin caen a fío os paxaros nin xa as piñas rachan: ultrapasado o límite da resistencia, funden estas nun mazacote de breo, denso e castaño, sobre a terra pulverizada, mentres aqueles quedan suspensos nun letargo de contra-hibernación, o bico aberto nunha regaña, os ollos embazados, medias estendidas as asas e o corazonciño nun pulsar de mínimos máximos. A iso, tan natural, engádeselle o pregón das poxas para os santos (cuxos beneficios os devanditos dubido que caten) que chapodan a calma das doce en punto con restras de cifras por forza breves, pois preferen a cor negra dos billetes á venda a crédito rexistrada en tarxetas plásticas; os arraiais continuos que me lañan o pouco xuízo coas agullas das tiples en falsete amansadas no rumor das concertinas; os turistas que arrastran polas prazas vizosas de antucas a indolencia no petar mol das sandalias ou no máis rítmico chocolear das chancletas, os nativos que os espreitan de esguello desde a altura digna duns zapatos dos domingos ben lustrados e a camisa branca toda estiradiña; os forasteiros que me levantan poeiras e sufocos nos camiños de andar a pasear os cans ou me asaltan nos recunchos máis recónditos roncando sobre a herba ou non roncando, explico, nun rozamento de suores e respiracións arfadas, que se delata nun rastro de clíneses e preservativos correctamente usados, espero, pero pesimamente tirados. E a noite, pensaron que a noite era máis doada?! A noite é un chunda-chunda trepanador que nin os tapóns nos ouvidos abrandan e me obriga a cocerme nunha humidade morna de fiestras fechadas.

Menos mal, menos mal que hai fogos de lucerío que me estoupan a negrume do firmamento e a outra.


Artigo roubado, porque sim

Hoje apeteceu-me trazer aqui este artigo de opinião da Laura Ferreira dos Santos editado no jornal Público de 31 de Julho 2010

A beleza dos funerais laicos

Não é fácil fazer um funeral laico a norte do Porto. Falta de liberdade religiosa para os não-crentes?

Através dos media, tenho observado a beleza de alguns funerais laicos, como o de Saramago: os/as amigos/as e os/as estudiosos/as podem falar à vontade de aspectos da obra, do trabalho ou do carácter de quem morreu. A pessoa falecida tem direito ao seu nome, à sua biografia, a testemunhos sobre o melhor da sua vida. De funerais laicos muito mais discretos dizem-me que correm de modo semelhante. Ora, eu nunca vi acontecer isto num funeral religioso católico: quem morre é reduzido a um cadáver a enterrar, e não a uma pessoa, a uma tessitura de afectos, compromissos e paixões, por mais humilde que tenha sido a sua vida. De repente, deixa-se de se ser aquele homem ou mulher que os familiares e amigos recordam com afecto, e de que tantas histórias conhecem, para se ser apenas um "servo de Deus" (mas até Cristo disse: "Não vos chamo servos, mas amigos") que exemplifica a vulnerabilidade humana e serve para dizer que a vida terrestre é uma completa miséria. Mesmo quando dizem o nome do "servo", custa aos familiares e amigos ver como o padre mostra não saber ao certo onde o apontou. Afinal, aquele é um cadáver de quem não sabe nada, por que raio havia de ter um nome? O protocolo que rege os funerais católicos só diz que aquele corpo tem de ser enterrado com umas tantas orações e bênções, não fala de afectos nem de ternura. Afectos e ternura não se protocolam, logo não existem nas instituições que tanto amam os protocolos.

O meu único Irmão, com quem tinha um elo mágico, morreu-me abruptamente há pouco, apenas com 57 anos. Apesar de ele ser não-crente, quis fazer-lhe um funeral católico. Era como se, desse modo, tentasse acompanhá-lo a outras margens de ternura e serenidade. Ele dizia que, se houvesse deus, ao menos que fosse parecido com o meu, por isso achei que compreenderia, ou perdoaria, o meu gesto. Mas tive as minhas dificuldades. Sim, poder-se-ia fazer funeral católico por não-crente, mas, atenção, não por suicida; os alunos dele, que encheram a igreja, poderiam ler antes do final da missa um texto que tinham escrito em sua memória, mas o pároco não podia permitir que a missa fosse de "homenagem". Quanto a outro padre que concelebrou, os alunos estariam "riscados", eu é que disse peremptoriamente que já obtivera autorização para eles. E, sem entender que eu tivesse escolhido para o meu Irmão um caixão sem cruz, o pároco fez-me desejar fazer-lhe um funeral laico. Só que já não tinha tempo, e não é fácil fazer um funeral laico a norte do Porto. Falta de liberdade religiosa?

Estavam na igreja amigos/as que poderiam ter de facto ajudado naquela despedida tão abrupta, cada um falando de uma faceta do Ademar, que até era bem conhecido na cidade e que há anos editava o seu singular Abnóxio. A antiga directora do Mosteiro de Tibães pegou na sua urna, em memória de toda a luta que ele travara pelo mosteiro. Mas ficámos sobretudo a cumprir um protocolo. E foram os seus alunos a personalizar a cerimónia, num texto lido com pressa por causa da emoção e que a todos comoveu. Muitos desejaram bater palmas. Era a emoção contida que se queria manifestar, pelos alunos e pela despedida. Mas estava-se a cumprir um protocolo, e toda a gente se inibiu.

Alguns padres cultos portugueses desfazem-se em elogios a Gran Torino. Não entendo: Gran Torino abre com uma cerimónia de funeral em que, perante a homilia do jovem padre ingénuo, o actor Clint Eastwood exclama baixinho, com despeito: "Jesus!" Acharão estes padres cultos que procedem de modo muito diferente?

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Laura Ferreira dos Santos é docente de Filosofia da Educação da Universidade do Minho e membro da Comissão de Ética da ARSN

sábado, 31 de julho de 2010

Dunha e doutra nunha noite cálida

Está hoxe para completarse unha semana e nin vos falei do corpo dela cando canta, do movemento medido e pousado dos xestos, da voz tan súa que cabalga no ar as distancias e a mímica que engaiola a mirada e conxela a imaxe na memoria.






María Berasarte




Tamén non vos escribín aínda nin no vento destoutra, que é puro nervio e voz que abraza, grave e tenra de madurez fresca, acabadiña de estrear parece, a espertar na noite calor e aplausos que o río devolve nun eco líquido.






Carminho

quarta-feira, 28 de julho de 2010

Presente de ar sonoro












Estícome nas puntas dos pés para alcanzar a caixa do correios e xiro, en lentitude de alento contido, a chave. Abro coma quen abre o cofre do tesouro posible. 'Coita! Se eu agora fose extrovertida veríanme os veciños atacar os primeiros pasos da danza das albísaras e gritar o contento, que por uma vez é o ar quen me escribe. Cáeme por fin nas mans o presente, hai séculos que son uma semana anunciado, como maré súbita de sonhos que me envurullase os ombros de alegriaciñas de seda, unha ducia delas, uma por cada música, a sumarse na alegría grandota do libro de partituras que as acompaña.

E agora escoito, de poros abertos e digo, digo, sinto: Tes beleza na voz e cantas como se as mans falasen agarimando brisas para nas vibracións delas atinxir no máis tarde e máis lonxe os interiores da xente con ouvidos por dentro das orellas. Para isto tamém se inventaron as neuronas, atentos. Imaxínote no silencio a escudriñar entre os versos as notas que ocultan, arqueólogo sabio que desentraña hieroglíficos nas fonduras da terra cun pincel en cada dedo: é maxia para min o que activa a engrenaxe desa arte que descoñezo. A música, a voz, a palabra crean o triángulo da emoción perfecta.

Aínda, os olhos de fóra recréanse nas fotografías e no modelado que deu ao papel o Luís Efigénio.










Sobre a palabra de poetas famalicenses:
musicou e cantou o Ivo Manuel Machado
tangueu a guitarra e arranxou o Carlos Carneiro
fotografou e deseñou o Luís Efigénio.

domingo, 25 de julho de 2010

Retrato impresionista dun incendio calquera










Agárraseme ao nariz o fume mentres ascendo a Arga ferida, fito o sol alto e a alta desesperanza que o tolda, que me abrasa por fóra e dentro, polos poros que transpiran e os ollos que cuspen querendo derrubar a fera que arrasa o monte contra a tarde en calma. Dóeme o rostro dos bombeiros, arrimándose o aconchego uns aos outros, vermello e negro, negro e vermello, formigas de brazos caídos coma o espírito, o cansazo e a tristura tatuados a ferro na pel incandescente e seca, de costas ao quita-medos e á impotencia, o camión-bomba rendido aos pés deles, manso, fungando de ventre baleiro, rebentado.

Agárraseme ao peito o lume mentres descendo a Arga magoada, prendo o instante nos ollos en que os dragóns de auga envorcan o cesto, como xoguetes que desafiasen as mofas do trebón colosal cincento; resóame nos ouvidos o brado do monstro cego; no tacto apéganseme os estralos agonizantes dos piñeiros que a resina ceba e o silencio das criaturas de pernas curtas ou asas inválidas que sucumben sen unha memoria tisnada de tenrura que as salve.


sábado, 17 de julho de 2010

E choveume tanto no regreso...

Para a isabel, o bruno, o valter

Veu a noite cun poeta outro, o das videncias calculadas sobre o visible à mostra no palco espido e expulso nas voces que o interpretan. E eu, ai eu!, a esculcar desde a platea, instalada na fondura dun poema diferente: eles os tres, que me acollen, sobre o valado en que argallaran un casamento triangular de cuño oficial e declaración conxunta de gastos e ingresos, eu a pairar sobre a sua sintonía antiga, ligando e desligando elos, en silencio. Quebrei a esfera de vidro que me ampara no meu mundo interno. Entraron eles en min, xenerosos, eu sorría moito no estómago, mentres ascendiamos por entre ruínas cotrosas de edificios malhabitados, as tendas clausuradas, o cheiro agresivo ao mexo de home-can, as luces que a custo nos ceiban do remoer nun exceso de tristezas, sen un pataco con que alugar o piso das aparencias veciñais satisfeitas ou o traxe que presuma dunha banda colorida e presidencial no peito, moito flash e pilotos vermellos de gravando-gravando, os aplausos e os dentes corteses na imaxe conxelada e potencial da fama.

Aínda é noite e partímonos entre a complicidade dun segredo que me regalan con moita maldade da boa, da que fai gargalladas francas á sombra arbórea despropositada na praza da República, porque aínda é noite, e fundímonos en bicos e apertas tenras, ese portento en que se multiplican os afectos, porque somos catro e ninguén sobra, nin teño eu gana de fuxir aos meus sólitos ningures.

quinta-feira, 15 de julho de 2010

Non é desta que vai a do queixo










Recibín un disco. A caixa do correo ás veces sorpréndeme así, con xenerosidade, para me lembrar que aí fóra aínda hai quen se empeña en puntear de beleza cada segundo tamén para os meus ouvidos.

Grazas, María Jesús e David.


P.S.: Un día destes deberei tamén falar do parmegiano, o queixo!

domingo, 11 de julho de 2010

Fatuidades (e não só) confessas










Gosto de espectáculos à borla, pois. Assisto a um concerto num anfiteatro ao ar livre, pré-instalada na insónia duma noite de verão, e gasto em poemas, ali mesmo na feira do Livro, o dinheiro que pagaria pelo bilhete. Vocês já sabem como eu sou fraca quando passo ante uma capa com um título a dizer come-me: abandono-me à tentação e ainda sucumbo à sobremesa. Além do mais, enfio na mochila os versos assinados, de costas leves por ter sabido engolir no ponto certo as vogais, na breve (breve, pronto, está bem) conversa que mantive com o autor, até conseguir que não desconfiasse do meu sotaque. E parece que deva bastar isto como justificação para o amanhecer de mais um dia.

Os deuses da pátria a cavalgar nos sonhos

Se eu tivesse segura a eternidade [como tenho as contas diárias
para pagar] renunciaria aos livros que ainda tenho para ler.
Nem poria os óculos que me tonteiam a realidade. Nem
ouviria o Peter Grimes que agora oiço -que me interessaria
o bramir da música contra os rochedos da poesia?
Se eu tivesse segura a eternidade [como a geada que esta manhã
me gelou os olhos] deixava-me dormir o dia inteiro
com os deuses da pátria a cavalgar nos sonhos. Talvez
inventasse um planalto qualquer, com uma pedra em forma
de destino e sentado esperasse os animais de Zaratustra
no seu aparecer alto e circular
O animal eólico do corpo. Nuno Higino


Mas há sempre quem julgue que 'gratuito' significa direito a entrar à hora que melhor lhe parece, sentar ao lado da senhora essa da câmara na mão que foi procurar um lugar bem afastado para ninguém a incomodar, falar em voz muito alta para se fazer ouvir perante a barulheira dos gajos que estão para ali à sua vida no palco, deixar às criancinhas aos pinotes e aos berros pela bancada. E eu estou com muito pouca paciência ultimamente. Nenhuma, digo, sou franca. Nem eu me aguento. De modo que, sem mais nem mais, virei-me para os pândegos vizinhos e ―presunções minhas, atingindo o nível avançado das indignações exprimidas naturalmente em língua alheia― mandei-os calar se faziam favor e não se importavam, que eu até a esguichar dardos tóxicos pelos olhos sou bem-educada. Fez-se, portentosamente, o silêncio. Quando mais tarde me lembrei deles, espantada da sua resistência em susterem a léria e as rédeas dos selvagens que criavam, tal qual deusezitos, à imagem e semelhança, descobri que foram pastar embora. Não digam a ninguém mas estou muito à vontade comigo assim intratável.

quinta-feira, 8 de julho de 2010

Declaración escrita da miña deshumanidade

Debera, escríbovos, se a resaca nos vos tolda a vista para me lerdes nítido, someterme a unha análise de adeene que me integrase ou expulsase, de vez, unha e por todas, da humanidade en que non me identifico. Pois que se esa é isto que din os informativos, eses gritos e palabras podres, os insultos ou alegrías que alagan o serán abafante e o amañecer mesto e apagado en que esperto, non son eu deste mundo. Non, non distingo as cores nin pido desculpas por iso. Tamén non distingo na terra desta beira tonalidade ningunha que a singularice sobre a terra da beira outra, beiras en que me perdo e me encontro sen que me nazan bandeiras ou camisetas polas orellas. A min ―que teño paixón polas pelotas, escríbovos, e tamén polos balóns ―bempensádeme!―, un bo xute e o arco belo dun corpo esticadiño que o detén no ar― isto que se repite en porfía a todas as horas non me estremece nada.

Estreméceme, por exemplo, a caída ao baleiro dun antecipo de cadáver roto, roto xa de atrás, de antes do salto na fuxida ou do empurrón, pois que tanto máis dará a causa última, se a que conta é a primeira: aquilo a que el chamou amor e era odio ou incapacidade de amar, violencia tirana do miserable sobre o enigma de quen se abandona e somete á indefensión da vontade anulada?

Estreméceme, noutra orde de cousas, a manipulación dos poderes que nos queren prolongar a contra-vida laboral en canto nas oficinas de desemprego medran a angustia, as colas e os recortes salariais e sociais; os poderes apoltronados que nos advirten das consecuencias nefastas para a futurible xubilación dourada do noso empeño en non procrearmos próspera e branquísima man de obra barata, mentres no mundo morren cantas ―respondédeme a vintecinco céntimos cada― criaturas de fame, sede e tortura, no tempo que dedico a estas liñas, os dediños delas acusándome, e eu que acabei de almorzar agora.

Estreméceme, atmosfericamente falando, a treboada: o vento primeiro, en refachos, que sacode as fiestras, a casa onde habito arregañada; os claróns que me furan as pálpebras na intermitencia intensa e perdurable como de estrelas mortas que aínda aínda; os arrepíos de chan e paredes que o trebón me concita nos adentros; o recendo húmido prognosticando as gotas que van petar, pesadas, grosas, apenas un instante despois a pingar do canto das follas ou dos ollos que se abren e logo xa se negan. E a memoria, visceralmente falando, dos corpos meus ausentes a esfarelárenseme devagar, a se me recrearen a soas no frío absoluto do nada.

Debera, escríbovos, desistirme, non me redimise o prodixio da palabra, que aínda me arrinca un sorriso no limiar da desolación con que vos incomprendo.

terça-feira, 6 de julho de 2010

Homenagem ao Ademar, dois ou a parte escrita: ponto de encontro









Fossem assim todas as aulas, todos os encontros. Mas isto não eram aulas: era a vida isto, aprender a aprender... haja alguém que ensine e queira aprender da gente.

Primeiro foi a música, ouvimos, e na música eram só respirações, tosses sustidas contra a secura da saudade que se empilha e empalha a garganta, as memórias a deslizar em vertigem de contactos. Veio depois a escrita, lemos, alto e claro, compreensão palpável, sentido o significado de cada vírgula ou a sua ausência, da vírgula digo, tanto é a sua leveza importante. A seguir, as vozes, de cada quem, quem sou, partilhamos, os testemunhos, todos na sequência duma mesma declaração tácita ou expressa de paixão, todos urdidos de cloreto de sódio e água, todos numa troca de oxigénio e dióxido de carbono ou alento, a química reagindo.

No fim, um puzzle recomposto de peças que vieram a confluir na essência, o ponto de encontro numa humanidade singular e múltipla, dádiva de anos que ainda sabendo a pouco deverão ser provisão bastante para o caminho até ao até.

segunda-feira, 5 de julho de 2010

Nunha caixa de cartón










Atravesei o eido cunha laia e unha eixada. Escollín un lugar onde o sol chegase peneirado polas follas das maceiras no verán, ceibe e calidamente manso do inverno. E cavei. Cavei un buraco da medida dunha cadela pequena e teimosa: setenta centímetros de fundo, trinta de largo, de longo para aí sesenta. Tanta terra nunha morea.

Levantei a caixa de cartón do chan. Pesaba. Agachei e coloqueina amodo. A herba sabíame húmida nos xeonllos. Este ano ou non hai mosquitos ou fíxenme inmune ás picadas, reflexionei. Nunca imaxinei que a primeira padexada de terra fose resoar así contra a tapa da caixa de cartón. Foron outras logo, ningunha igual ca a primeira. Calquei suavemente cos pés.

Axeitei tres pedras enriba.

Atravesei o eido. Gardei no alboio a laia e a eixada. Era case noite xa. Nunha noite de inverno, lembrei, hai catorce anos, cheguei á casa cunha caixa de cartón e unha mincha de cadela dentro.

sábado, 3 de julho de 2010

quinta-feira, 1 de julho de 2010

No final é sempre mamas

Se isto é uma verdade absoluta empiricamente demonstrada, não tenham dúvida que está aí a solução definitiva que a Antónia precisava. Se não for, pronto, sempre se livra dele umas horas. Chegado o fim-de-semana, ó Antónia, manda o maridão às compras!

Se me tivessem perguntado a mim os tais cientistas (reparem que isto é uma notícia de muito rigor jornalístico em que ninguém se dá ao trabalho de inventar uma universidade chinesa a que impingir o experimento), poupavam desgaste mental, que também deve produzir impotência ou no mínimo infelicidade. Compreendo, contudo, que não me perguntassem: acabavam jornalistas e cientistas no desemprego, que é igualmente origem de muita disfunção eréctil e desdita. No fim de contas, a hecatombe.

Mas explico já a minha teoria. Paciência. Jornalistas e cientistas, vão dar um passeio e voltam de aqui a uns dias, quando este emplastro caducar. Porque eu já tinha reparado em que há duas classes de maridos que cada vez se impõem mais no cenário dos supermercados.

Vejam se não. Estão, num extremo, os espertalhões que ficam no carro afirmando-se na presumível condição de machos (ou serão mesmo?), com ar aflito, enquanto lêem as letras grossas das páginas desportivas (atenção, sinédoque: futebolísticas) e, em simultânea acrobacia do seu cérebro mono-neurónico, escutam no rádio os programas desportivos (atenção sinédoque: futebolísticos) e olham de esguelha para as gajas boas como eu que atravessamos a imensa esplanada ao sol do parque empurrando os carrinhos atestados, abanando ancas e mamas acompassadamente ao ritmo da música ambiente (e pimba) e com o excitante brilho do suor a escorrer pelo decote e os ombros nus... (vamos parar por aqui, que me foge das mãos a análise exaustiva do estudo e também não me lembra a figura estilística a que esta imagem fabulosa corresponde).

No outro extremo (e estes extremos não se tocam, que há muita testosterona comprometida), estão os que acompanham a mulher às compras ("acompanham", sim, disse, o mesmo que há os que "ajudam" em casa). Pertencem a uma espécie que se extasia perante as prateleiras de cerveja (é verão, está calor, a visão colorida de garrafas e latas é esplêndida e o animal, fraco) e se demora longamente nas zonas de congelados, iogurtes e afins, onde o objecto de estimação são os mamilos, que a tal temperatura estão tão rijos quanto acabrunhados os pirilaus (olhem que eu me comedi na escolha do calão, sei pior), em ambas as situações com um fio de baba a pingar do queixo abaixo. Já e inevitavelmente na caixa, para compensarem a virilidade humilhada tiram sobranceiros o VISA da carteira, manuseiam o talão envenenado num esforço vão por decifra-lo, pois não trouxeram os óculos de perto, e até que enfim pagam, impotentes, às cegas.

Fosse eu a fazer o estudo, porém, diria que a causa da impotência (e a barriga) não é o tal bisfenol (mesmo que a própria denominação do composto oriente onomatopeica e perversamente as investigações), antes uma conjunção de três factores objectivos: a temperatura enregelante das zonas frias dos supermercados e os seus efeitos negativos fulminantes sobre a tesão, a despeito dos inúmeros pares de mamilos túmidos insinuados; o consumo de cerveja e salgados em círculo viciante que as visitas a estes locais promovem; e, last but not least (e nem gosto de clichés mas hoje amanheci virada para aí, aturem-me a inglesice o mesmo que me já me vêm aturando este maçada prenhe de estereótipos), a bonita cifra que figura no talão e que o pagador engole sem dar um ai que se ouça ante o rosto impassível da menina da caixa.

No fundo receio que o tal estudo venha financiado por alguma associação machista de maridos que ficam no carro enquanto a mulher vai às compras (o grupo deverá estar já criado no fb) para não compartilharem tal acto de submissão doméstica e, o que é bem pior, verem-se obrigados a ajudar, também!, a dar biberão! às crianças. E até porque divulgar a presunção criminosa de ser a cuja dita substância ingrediente do plástico que substitui as mamas no processo de nutrição de futuros machos não é inocente, não.

terça-feira, 29 de junho de 2010

Gravidez ectópica

Era sábado dum junho qualquer na outra margem. Estava calor. Sentada à sombra, sobrevivia ao post prandium com o copo ao alcance da mão direita, enquanto experimentava uma tumefacção interna crescente a medida que passava as páginas e bebia, inconsciente, água com gás. Nessas de inchar andava, quando se achegou a menina à minha mesa e a sua voz, quase num sussurro, expulsou-me de repente das entranhas da leitura.

―Perdona. Está ocupada? ―apontou para uma das cadeiras.
―Não, não. Pode levar ―respondi tão portuguesmente.
―Gracias.

A espanholita foi embora com a cadeira na mão. Eu fiquei com o ar preso na garganta, entre uma crise de tosse e uma sufocação. A seguir veio-me para cima uma pressão no esófago, como se fosse uma alma encarnada a fugir-me dos adentros, até que aos poucos uma espécie de ovo, julguei, começou a assomar-me pela boca. Às convulsões provocadas pela náusea expeli uma cabeça careca. Vinha de olhos escuros para o céu que me contemplavam como quem pede desculpa, sem exageros, pelo incomodo. Logo o reconheci. Peguei nele pelo nariz e puxei para fora o corpo inteiro, que vinha nu, todo babadinho, peganhento de sucos gástricos e, enfim, um nojo.

―Ó valter ―disse-lhe―, ainda bem tiveste a deferência de te parires de mim sem óculos.

Não respondeu. Pegou no maço de guardanapos que tinha esmagado debaixo do rabo e gastou-os todos em tentar limpar-se, mas só conseguiu acabar cheio de pedaçinhos de papel colados, como pétalas. Achamos engraçadíssimo e lindo, uma escultura no pedestal, mas nas costas sentimos confluírem as picadas dos muitos olhares dispersos pela esplanada, um resmungar invejoso que cortava as alegrias e alguns risos que soavam em notas acedas arrogantes, desprezativos. De modo que entrei no café e pedi um pano húmido. A empregada ainda me perguntou se era tudo.

Tirei-lhe aquela porcaria. Tinha um corpo arredondado e deixava-se mimar como um bebé. Quando terminei, fiquei a olhar para ele e pareceu-me um poeta nu bonito. Pedi-lhe, então, para descer da mesa e sentar como a gente grande ao meu lado numa cadeira. Obedeceu. As pernas penduravam-lhe tontas, sem alcançar o chão. Distraído na observação do movimento suspenso dos pés, falou-me assim, de cor:

―um dia apareceu um poeta sem pétalas, nunca tal se vira. sem pétalas, dizia-se, estava igual a nu, coberto de nada que o diferisse, como se ser poeta não trouxesse marcas à flor da pele. algumas pessoas riram-se nervosamente, e só por isso o estranho poeta se foi embora sem outra notícia.*

Não respondi. Ele levantou-se e partiu em direcção ao rio sem virar-se uma vez que fosse. Eu permaneci em silêncio, um bocado mãe, a vê-lo caminhar sobre as águas, esquecida de todas as línguas até hoje... em que acordei.
____________
valter hugo mãe. o poeta como nu. livro de maldições. folclore íntimo (2008: 1ª edição)

sábado, 26 de junho de 2010

Á noite nin todos os gatos son gatos








Para o F..., que sempre me arranca no final un sorriso

Saín de casa, no luscofusco, á procura dun conto. Non prevín que xa no camiño estreito que me leva á ponte me agardase, empoleirado sobre un valado, en corpo de gato. Gato, iso mesmo. Avanzo amodo, porque, xa foi dito, o paso é estreito, as curvas agochan enigmas, sustos que antes son medos. Vaise ben en segunda, o motor rosmando. A présa, ao cabo, é un estado de exaltación que non me cadra agora. Nin sequera cando o gato me salta sobre o ombro dereito. Os gatos son gráciles no salto e a cazadora protéxeme das farpas (o goretex furouno, supoño). Colócaseme diante, ollándome todo azul e o rabo nunha reviravolta enganchado á barra central do guía. Atravesamos a ponte, a lúa redonda pintada nun lenzo escuro, acelerándomos gato e eu a moto, até que se impón a noite: vinte e un minutos e trinta e seis segundos máis tarde.

Hai unhas luces violentas que anuncian un puticlú de estrada e sede. Paramos. Convido eu?, suxiro, interrogo. Os gatos nunca levan carteira. E sentamos na barra: na barra o gato, literalmente; eu, nun tallo alto, as pernas procurando, medias tontas, punto de apoio.

―Ponos dúas cervexas, por favor ―pido.

O gato envolve un porro de maría, colleita propia, explica, e ofréceme a primeira calada.

―A noite ―cóntame mixu-mixu e exhala, topicamente, o fume doce en volutas― ten tantas estrelas como palabras. Só a luz apaga as estrelas.

E nárrame até o amañecer, unha tras outra, eu só silencio e ouvidos, historias fantásticas que lle aconteceron con humanos.

Despois cala.

sexta-feira, 25 de junho de 2010

Desta doideira minha (flora intestinal)

Uma vez abriram-me a barriga. Tenho-vos para o corroborar uma cicatriz verticalmente ostentosa que sempre suscita curiosidades não trasladadas a perguntas, tal o horror, o horror inestético ao sol, entenda-se. Mas não era isso o que interessa. Nem também não isto: que me enfiaram as mãos dentro do abdome exposto para me destrinçarem a estenose que me estreitava a sarjeta (atenção: metáfora de estilo demagógico) por que os alimentos deviam continuar intestinamente o processo de absorção ou descarte. Tudo correu bem e dez dias após o ingresso hospitalário recebi a alta médica e licença para comer.

O que interessa é isto: o cirurgião, que se perdia muito em filosofias e paciências explicativas (um gajo porreiro ele), deixou-me esquecido no ventre um pensamento profundo. Vem tudo de aí.

quarta-feira, 23 de junho de 2010

Insulamento

Não devo poder morar numa ilha, julgo eu. Se morasse numa ilha estaria sempre a medir os passos com medo de me despenhar por uma falésia qualquer que se me aparecesse, súbita, após uma ausência desopilante de apoio compacto (ui, ui, ui!). Ou pior, atenção: com pânico de escachar ―quando já não mais tem a gente para onde descer desimpedida― contra uma rocha milenariamente desgastada em erosões a cabeça e, arrastado o corpo anexo no fluxo e refluxo maçante das marés, achar-me engolida pelas águas e cercada de peixinhos não aptos em medida para a venda legal, que me debicassem todinha, até o osso (pch, pch, pch...).

Por isso, vivo num continente de tamanho que chegue a acalmar estas agonias desconfortáveis. Mas não é tudo assim tão maravilhoso, pois não. Cá estou eu circundada de montes que me tolhem o olhar de imensidade, que me asfixiam os fôlegos de respirar as distâncias e não só. Está o rio, manso o quê?!, com as suas falas trapaceiras, a tentar seduzir-me para uma dança, e eu que não, não e não, chateia já tanto que fede. De maneira que afinal estou sempre feita ilha ao avesso, a cair para dentro de mim nos silêncios. Sem serviço de vigilância costeira que me ouça nem resgate. Quem sabe, um dia destes farto-me, passo as barbatanas de máximos a ferro e despido-me seriamente com uns manguitos de tanta firmeza terrena.

O gajo aqui ao lado na esplanada em sombra bebe golos de whisky barato com pedras de gelo em copo alto e coca-cola à mistura, fuma tabaco desparasitante e arrota, numa alternância sequencial cíclica e compulsiva. Depois ainda querem que eu escreva poesias bonitas?!

terça-feira, 22 de junho de 2010

Ánimos?

A Sanidade pública xa non é o que era. Onte, o especialista en internas medicinas recibiume tres minutos antes da hora marcada (interrompéndome as convulsións sobre un poema do Herberto Helder), sen fonendo ao pescozo nin bata branca...

―Raisopartan, doutor C, isto é maneira de recibir unha paciente? Onde van os protocolos?

Ao doutor C moito lle amola que o trate por doutor C en vez de polo nome de pía, que ao cabo xa lidamos moitas batallas xuntos e ímola virando. Pero hai que manter certas distancias a prol da cerimonia e a asepsia na arte de sandar. O doutor C, explícase todo azorado, está en camisa de riscas azuis e brancas, porque é xuño e nesa zona de consultas, aínda ben, o aire acondicionado non virou o mundo polo norte asasino. Para compensar, esténdeme o sorriso e unha man e recita o ensalmo:

―Que tal?
―Mal ―rímolle en verso coxo.

O doutor C levanta a cabeza e a perplexidade da listaxe obxectiva de cifras, onde se confirma que algo non vai, abofé, tan ben como debera. Seguramente, en todos estes anos, nin cando as vimos máis negras me saíu unha tal contudencia negativa na resposta. Interrógame cos ollos. Fálolle de e do corazón, do espertar último detallado en síntomas e temores, mentres el, aplicado no reconto de triglicéridos e colesterois, suma e resolve.

―Vas facer un electrocardiograma e se notas dor no peito corres a Urxencias. E nin se che ocorra morrer antes de eu me xubilar.
―Xa lle vale, doutor, que egoísmos! Deixe que me xubile eu tamén, que me quero estrear nas viaxes do IMSERSO...
―Ai, perdoa, perdoa, é que pensei que eras máis vella ca min...

E aí é que case o ía matando...

sábado, 19 de junho de 2010

No día da morte do José Saramago houbo...

...coma decote algunha prea a asomarse á luz intermitente das cámaras que inzan os espazos da opinión publica para delatarse, ignara e estulta (que son dous adxectivos de elevadas prestacións), nunha necrolóxica adversa: nunca se debe cuspir contra o vento. Non busquedes nomes, pois non merece que conste aquí a rubrica con que asina os seus exabruptos convulsivos. Só reteño a queixada amarela que arregañou para mostrar os dentes longos, quebrando a cotra reseca dos vómitos, ávido de protagonismo no noticiario da maior audiencia, empoleirado o seu tamaño escaso sobre os zancos efémeros dun micrófono. Desprezar a quen gañou a pulso e letra firmes a eternidade na terra non é só cousa moi-moi fea, que en calquera manual de urbanidade se recrimina, senón síntoma inequívoco de ruindade moral e mental.

sexta-feira, 18 de junho de 2010

Oficioculto do profano

Hai un prólogo a modo de explicación das escrituras sagradas ou poesía: a voz amplificada, descendendo polo corredor central do patio de butacas, preventivamente advirte sobre os fins que se perseguen a porta fechada ―mentres os imbéciles pasean a pel de ovella polas sendas da transhumancia mansa― para dourar as vaidades dos elixidos, de entrada paga e butaca quente. Rolan os títulos de inicio e imponse, co repenique da campaíña da consagración, o silencio e as tebras na sala. Recita o oficiante de costas ao público e danza as palabras, contra un reflexo que se tece en seda de araña e chuva de pratas, unha ave triste que se recrea en muller-casa-e gato a desaprender as leccións elementais do voo.

Hai unha coreografía coral de dicentes que se alternan sobre a estampa apocalíptica que na sublimidade dos paneis se deseña. E no fin do texto, o sumo sacerdote deposita un beixo cómplice: o evanxeo segundo Cesariny. Contigo profanamos.

(Máis tarde renuncio a escoitar guitarras electrificantes, só cismo: tamén eu podía desatar un día destes a versificar en inglés as miñas ignorancias para me elevar sobre andaimes ocos co pretexto de exportar ao universo as texturas opacas da mediocridade. Fecho paréntese cun sorriso cínico que apenas se me esboza na comisura dos labios.)

Teño sono e medo de o-fender cun ronquido porcino a penumbra... E de súpeto, esperto! Polo menos haberá que concederlle ao espectáculo de calcomanía ese mérito. Non máis. Arrisco a desprenderme da etiqueta de hiperposmoderna. Non é isto o que me seduce, esa noite, non; e talvez nin nas vindeiras.

Termina o Isaque en grande, enorme, como entrou, chantado na platea, só co altifalante agora da potencia da voz e a forza da palabra espida na memoria. Ao Luiz Pacheco recomendaríalle, con todo, irreverente e acronicamente, algún método anticonceptivo, unha simple vasectomía que aforrase fames na descendencia... mesmo que a profilaxe nos privase da acidez soberbia con que apercibe contra o veleno da esperanza, ese bicho, ese bicho falsario.

No vestíbulo, durante o intervalo, róldame o maxín un experimento malévolo. Se me virase de costas a vós todos contra un canto e proferise un grito, o que me reclama a distancia ruín que me separa da vosa alegría, un único berro grave e seco, de animal ferido, que me escindise a gorxa e vos paralizase a leria incesante, aplaudiriades a intervención ou pediriades, os móbiles áxiles, unha ambulancia?

Poesia, amor, liberdade disme, e eu respondo amén, amen. E voume en paz, a cruzar serena a Serra d'Arga, na noite alta.

quinta-feira, 17 de junho de 2010

Café à sombra em que vence à Salomé o Jodorowsky










Desviei a derrota com propósito de almoçar na Póvoa, mas fui indo-me sempre em frente e foi na Vila que descavalguei. Arrisquei num tasco qualquer que me pareceu bem, pequeno, à minha medida, e não sendo mau, nem grande, nem desmesurado, esqueci apreender o nome para não programar regressos. Rumei mais tarde na procura dum aroma turvo, cor castanha ao lusco-fusco, centrípeto, à sombra duma esplanada e mar de fundo em todos os sentidos. Pequei, sim, pequei contra mim própria e quando acheguei às narinas a chávena morna, quase ia desmaiando de prazer: só o pudor e a falta de mordaça me abafaram o grito entrecortado.

Eis-me sem borbulhinhas de Pedras fresca coma cócegas na boca que me façam rir-te. Eis-me sem ti para me protegeres do assalto dos pedintes que brandem como carta de referência o deus desleixado de que descri uma tarde qualquer sumida no remorso duma culpa não minha, como agora sumo numa alternância de vozes de impulsos contrários até que enfim me vence a palavra antiga do náufrago enquanto afogo a da esperança luminosa que não mais me cega.

Perla sola
La voluntad de crear al mundo
no es tuya,
es una culebra que desciende
de la impensable bruma
para inocularte
por debajo de la mente
el veneno de los números,
sueños sin límites, balbuceos de niño,
océanos muertos, cometas epilépticos,
esqueletos más líquidos que el agua,
mil láminas de mustios universos.
Todo esto
consolidando el sufrimiento
crea una perla.
Inmensa perla
que a altas horas de la noche
mientras te esfumas dormido
cae de tu boca y gira
en la oscuridad
gestando el engaño
del nuevo día.

Alejandro Jodorowsky, Pasos en el vacío


e bastava isso para que todo o meu corpo
se estilhaçasse

Ana Salomé, excerto de "Ode veloz", em Odes

quarta-feira, 16 de junho de 2010

A viaxe

Dicides de min que sempre tardo, e tardo. Non é no destino onde se me espera, senón en cada reviravolta e desvío do camiño, na beira da estrada, ao pé das nubes que se tocan, mergullada entre espigas ou papoulas, apegando na pel o cantroxo, a lavanda, o tomiño e a resina, aceptando ―con reparos― o túzaro recibimento dos cardos, ou ergueita sobre a atalaia calcaria inestable en que me equilibro para aprehender o instante efémero de luz e recendos.

Dicides de min que sempre tardo e é só que xa nunca alcanzo o destino cando regreso: morreume a infancia.














































segunda-feira, 14 de junho de 2010

Alecrim e angustura

Não é estômago para todos, avisei, não me venham reclamar, que cá não tem livro disso nem entra a ASAE. E não vou despedaçar por mais que peçam, vou menos é desvelar para os vossos olhos o véu que esses, se fossem curiosos, deveriam por si e por vocês levantar e, mergulhando, (de)gustar: a ascensão às profundezas da aprendizagem para a subsistência e mantimento ou a metamorfose de Raimundo Nonato em Nonato Canivete.

Direi, sim, para vos escancarar ou estrangular os apetites, que tem muitos sabores dentro, muitas texturas e até cheiros sugeridos que não descuidam a imaginação: tem peixe, tem carne crua ou assada, galinha, tem arroz e batata e feijão preto, farofa, queijo bolorento e goiabada, cebola ―muita, constante―, cebola picadinha e unhas; alecrim no que se mastiga e no que é para beber, angustura. Mas tem bicho também que, existindo, não presta: barata, vareja, formiga, ratazana, mulher e homem, toda a gente na mesma luta dos vários comeres, bunda ou filet mignon. E um pre-fim de corte redondo que é para ver de olhos fechados enquanto o óleo crepita na frigideira. ('Tàputaquiopariu! Hihihi!)

Estava sentindo no regresso que nunca mais perdia o sotaque da pronúncia mental. Mas já lá foi.

sábado, 12 de junho de 2010

Avuvuzelada









Nunca resistín a colocarme, à mantenta, xustamente e sen rede, no cordel dos equilibrios agudos que a curiosidade me brinda sobre mares de tiburóns ou vénuses papamoscas: a vida é estes riscos que nin sempre respectan as distancias e os medos, xamais a miopía. Será mellor isto, dígome, que o sosego dos muros altos e as arameiras electrificadas que abrasan moscas e estorniños. Do que se fala hoxe e tanto se vai falar nin sei nin me interesa, fóra o seguinte. Recibo a dose matutina e flipo a cores sen bandeiras. O intrépido xornalista, desprazado miles de quilómetros, felicítase de non ter que pisar a rúa nin enfrontar os ollos delincuentes e viciosos dos desprotexidos, do hotel para o estadio, do estadio para o hotel, acomodos idénticos aos que podería ter no salón da casa en pantalla plana e conexión satélite, con muito, dito sexa de paso, menos gasto dos erarios públicos para alivio dos meus ouvidos cansos. O outro comenta con orgullo patrio, desde o reduto rúgbico e de aí branquísimo e coloradote, de fala enxertada que raña na gorxa, como até o céspede para o campo novísimo e adhoc dos adestramentos futboleiros dos vermellos se importou en prácticos tepes das españas nun avión cargado de despropósitos. E eu insístome, en fin, descansa, non te esixas comprensións que te fritan as conexións sinápticas, rapariga (hoxe falo galego e, con todo, podía non), que aínda tes que lidar coa serie dos réptiles invasores e malísimos.

Namentres, entre cantigas exultantes, zunidos plásticos en demostración de potencia viril e moito abanar de farrapos identitarios (só hoxe souben, con atraso relativísimamente breve, a través dunha fenda de conciencia nos noticiarios), vinte e seis anos despois!!!, dítase sentenza: uns nove mil euritos de multa e dous anos de cárcere zafados con fianzas liberadoras duns centos de patacóns por cabeza de delegado autóctono. Non é mal choio, non, o da neglixencia criminal sobre a miseria. Bhopal apenas é un punto redondo nos mapas de papel... sen vuvuzelas que o asistan. E eu ao meu, que é mudarlle as pilas ao teclado.

terça-feira, 8 de junho de 2010

Aínda (aló no alén) hai clases

Non sei que me desacouga máis: a hipótese (que outros chaman dogma de fe) de que haxa no inferno categorías distintas de condenados sobre os cales os funcionarios do tridente deberán aplicar cadanseu e senlleiro método e grao de tormento e perversión ou que até no paraíso existan desigualdades. Pensaba eu que isto do val do lágrimas compensaba minimamente se no ceo a gloria estaba non só garantida senón ben repartida (xa nin esixiría o premio de cen homes maduros, sabios e experimentados para completar orgasmos celestiais), pero agora resulta que non, que vai haber prebendas e privilexios como aquí, (in)xustizas diferenciadas e aínda para máis eternas, sen o consolo da redención e unha morte certa á vista. Onde é para desapuntarse?

(Grazas por me facer caer da burra a tempo, don Rubén Ruibal.)

segunda-feira, 7 de junho de 2010

De sortes e azares









Eu dígovos que son afortunada. Mesmo, mesmo. Vós crédeme. Levo, calculo que, catorce anos nesta casa e sempre sempre limpei a parte do camiño que corresponde ao meu valado, coma calquera outro veciño, sen máis remedio nin mérito. Botei parte considerable (adxectivo subxectivo) da fin de semana a cortar a herba no eido e só non cortei e limpei por fóra porque ese é labor para a rozadoira, que emprestei e aínda non me devolveron (xa vos estou vendo, non me critiquedes isto que non é a cuestión senón a salvación). E non foi que esta mañá apareceu unha cuadrilla con rozadoiras a limpar o camiño?

Non fose polo abenzoado que non me devolveu o trebello, estábame eu suicidando un pouco neste momento!

sábado, 5 de junho de 2010

Apuntamentos fílmicos montados sobre catro escenas

Non escribo sobre todas as películas que vexo, non me esixan para iso as razóns ningunhas de que carezo. Desvarío, se cadra, sobre unha infumable sucesión de fotogramas coa que me castigo, nunha noite de paciencias infinitas ou masoquismos duros; exáltome, tamén se cadra, ante belezas que ninguén máis ve e desprezo as risas dos insensibles que deberan, penso por min, ser estremecemento ante a miseria allea, igualciña á de calquera un outro eu.

Da da semana pasada direi que non me pareceu mal. Tampouco foi nada que rebordase o común e isto só porque o Fatih Akin xa conquistara antes o meu respecto e, peor, o interese, pero prefiro non os finais felices, e isto, xa sei, xa sei (aí vou eu barrenando nas miñas psicanálises), é carencia e incredulidade adquiridas por causa da morte dos afectos, eses inventos que esturran nos fogóns a alma.

A de onte encheume (no sentido de fartureiro, non de farto) mais, aínda-aínda e malia o final tamén felicísimo para os vivos, con rescate e rumbo a un sur calquera marcado no mapa das esperanzas para os detentores de paraísos fechados que se adaptan ao desterro, e inmolación dos covardes en descarga eléctrica, fuxida a ningures cando os muros de finas láminas plásticas rectangulares esboroan, por amor... por amor propio.

sexta-feira, 4 de junho de 2010

Divagações para as sobrevivências

A primeira era uma visita de índole burocrática a um primeiro andar. Uma vez por ano tenho de lá ir para renovar o cartão que me dá acesso a muitas economias em matéria de gasto farmacêutico. Possuidora feliz do cartãozinho, pago só um 10% do PVP (até um máximo de quatroeurosetalcoisa) dos medicamentos de dispensação não hospitalar que necessito. E isso é bom. Os meus parcos rendimentos de tradutora e eu estamos gratos ao sistema. Não percebo é por que se tenho uma doença crónica sem mais cura possível por enquanto do que a morte devo é lá ir uma vez por ano. Ninguém poupa nisto. Não poupo eu, que podia ser uma linda reformada a viver duma mísera pensão mas não sou e por tanto tenho de me deslocar, perder de trabalhar e de olhar para o ar, nem poupa o organismo autonómico encarregado da gestão na pessoa da funcionária pública que tem de preencher a mão com letra legível o documento e a seguir acossar a inspectora médica até obter a sua bela e cara rubrica estampada no dito, deixando ambas de atender assuntos de certeza mais prementes e/ou satisfatórios.
Perguntem-me vocês, "Será que deves lá ir para provares que continuas viva?", que eu responderei, "Mas para que precisava eu morta dum chorudo desconto em fármacos?". Ponto.

A segunda visita é num rês-do-chão. A máquina, sem me desejar bom dia nem boa tarde e prévio reconhecimento do código de barras, cospe-me uma folha que me confere uma clave de cifras e letras, o número duma consulta e uma cor. E lá vou eu a procurar pelas paredes a franja verde que identifica o meu corredor de espera, paradoxos da arquitectura sanitária para os planos da assistência ambulatória. Abro o JL 1035 pela página 13. Leio:

Os meus mortos levaram consigo, de mim, palavras, memórias, dias, lugares, desígnios, incertezas; os seus olhos guardam para sempre o meu rosto, os seus ouvidos a minha voz. Também eu morri com eles, e também eu, o que fiquei, me perdi fora de mim. Onde quer que eles estejam agora, quem quer que sejam, estou, pois, junto deles. E pertencem-me, tanto quanto provavelmente lhes pertenço.*

O ecrã anuncia o meu número. A médica recebe-me com um sorriso, dois beijos e uma voz estruturada como para falar a crianças sem cérebro. Pergunta-me se está tudo bem. Eu respondo, educadamente, com um está tudo óptimo aparelhado dum sorriso consoante ao dela, como quem se deixa fazer criança sem cérebro. Se fosse o meu médico de sempre, ele leria-me nos olhos bolas não, não está nada óptimo, está é tudo uma santíssima merda. E aconselharia-me um lexatin engolido demoradamente com um copo de bom whisky ―eu ficaria-me só pelo último. Mas o meu médico de sempre reformou-se e a substituta, que é nova e bem disposta, que tem o sorriso nos lábios e fala com a voz com que se fala às crianças sem cérebro, não lê além dos parâmetros analíticos que confirmam as minhas palavras: está tudo óptimo. E manda-me embora com cita e bateria analítica marcadas para dentro de seis meses num papel, o cartão que me certifica viva para o sistema sanitário na carteira e o eco duma conversa na cabeça:

de María para iMac Ademar: Gostei muito do "À mesa da usura", não tanto pelo que diz, que afinal é discurso repetido, mas pelo como. Tem portugueses para aí que escrevem bem, sabia, professor? Alguns dias penso que deveria virar portuguesa só para ser capaz de escrever assim. Alguns dias não, segundos só. Gosto de mim assim, nada perdida de amores pátrios.
de iMac Ademar para María: O Pina, além do mais, é um poeta interessante. Podes procura-lo na Antologia.

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*(Excerto dum artigo do Manuel António Pina publicado pela primeira vez em Visão, 14.06.2001)

Ángulos obtusos

Digan se non hai que ter puntería para estamparse co queixo propio contra un cóbado alleo?

terça-feira, 1 de junho de 2010

Lapso temporal

Tiña a consulta de Rehabilitación ás 17.45. Era un ir e vir, porque total xa o outro (que outro?!, ele!!!) me dixera que non había nada que facer. Ía con tempo de sobra, pero cando entro polo corredor adiante soa a campaíña e na pantalla aparece o meu código (agora non temos nome, senón código, pero non me queixo: o sistema é eficaz).

―Que rapidez. Nin tempo me deu a sentar.
―É que non había ninguén e fun chamando. Mellor non?
―(Sorriso)
―(Sorriso)

Cóntolle telegraficamente o que me pasaba e xa case non me pasa. Porque os ósos nestes tres meses deixaron de doer (tantísimo) e os xeonllos andan que nin os coñezo, lubricados. Resúmolle ametrallado o meu historial clínico: faime a ficha, apálpame, mándame facer forza coas pernas. Sorrimos.

―De calquera forma, se ves que che doe outra vez, pides cita ao médico de cabeceira e volves ―sorríe.
―(Sorriso)

Vexo o reloxo da moto. Son as 16.43. Algo está mal aquí penso. Entón eu tiña cita ás 17.45 (confirmo vendo no papel), a min nalgún lugar cruzóuseme un cable, vin unha hora e cuarto antes, polo si ou polo non (o cuarto a máis era para ler un chisco na sala de espera!, cousa que non...) e atendéronme?!

Definitivamente, teño que ir mirar a cabeza... aínda que sospeito que para isto non hai remedio tampouco.

segunda-feira, 31 de maio de 2010

In memoriam

Este caderno de exercícios de tradução para aliviar a tristeza está dedicado a todas as pessoas que amam o Ademar, mas principalmente à sua irmã, Laura Ferreira dos Santos, e aos filhos dele ―Henrique, Francisco e Alexandre.
María Alonso Seisdedos

domingo, 30 de maio de 2010

Secuelas?

A próxima vez que me gabe de privilexiada por mor do meu oficio, lémbrenme sen dó que fun eu quen traduciu os 197 episodios de walkerrangerdetexas e que pasei a mañá dun domingo esplendoroso revisando a tradución de deltaforce2. Qué pánico meten os números ao final dos títulos. Pánico e secuelas no cerebro. Non vai ter unha pesadelos!

Calcetíns de coelliños ou mar









Non son xente de levar bichos nos pés. (Hai quen sexa, fauna e flora a discreción, viva ou reproducida, sen comentarios.) A ver, é que están novos e non podo andar sempre por aí de roupa vella, coma un cocido do día seguinte e menos en plena primavera. Fica mal. Só por iso iso os puxen. E porque viñan no conxunto de tres daqueloutros de riscas negras e grises que me gustan tanto. Pero estes, ai, xa os imaxino, asomando as orellas entre o botín e a perneira dos vaqueiros, o fulano do coche que vai detrás de min, dicindo ou pensando, depende: Mira, mira, esa da moto leva coelliños presos nos pés. Ridículo. E eu vou ver o mar. O mar é unha terraza cunha botella de Pedras fría sobre a mesa.

―Café não? ―estrañouse a camareira―. A senhora sempre pedia café e uma Pedras (fresca)! Por isso.
―Tiraram-me o café... também ―e sorríolle, non é só para ela o sorriso e o adverbio, senón para as fonduras de min, que é onde se navega.

Gústame este bar, o seu nivel de barullo tolerable, que me fai sentir no mundo sen me roubar os adentros. Aquí pódese ler.

Falar alto no escuro é também uma das grandes violências, é grave, é desrespeitar a natureza das coisas. Por isso dos mortos nada escutamos porque morrer é a terra cobrir os corpos, e é denso, um escuro permanente, sólido, como uma construção negra, mas sem matéria. Não os ouvimos.*

Este rapaz escribe verdades soltas, pero aquí non leva a razón nin lla eu dou. Por algo ando hoxe de calcetíns de coelliños. Nunca, endexamais!, iría ao pé de ti con estes calcetíns. Quen te aturaba! E o xelado que pido despois é de chocolate e vainilla, non de amorodos derretido con anacos de froita. A antuca gárdame do sol na cabeza e no xelado. Haxa quen pense inventos destes!

Levanto os sentidos ao horizonte. O mar non é meu, cousa que, señoras e señores, coelliños do mundo todos!, non impide que me bañe nel, que lle sinta o cheiro, a frialdade aberta e atlántica nos tornecelos, que lle ouva o crepitar da escuma esvaecendo na capa finísima última que me borbulla na area, que o vexa espello do ceu gris-verde-azul, consoante, e/ou que mastigue contra o padal un consomé-esencia de algas desconstruídas... sen afogar. Meus son os calcetíns de coelliños. Apanda, rapariga!

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* En "Os movimentos de ficção", água, cão, cavalo, cabeça do Gonçalo M. Tavares.

sexta-feira, 28 de maio de 2010

Vai nas asas, nas asas!

―Foda-se, Maria! Quantos golos levas já? Que tens tu hoje?
―Raiva ―rosnei roendo as lágrimas nas entranhas.

Joguei a raiva nos golos, como se a baliza fosse a morte, a bola todos os poemas que ficaram na gaveta dos futuros inéditos. Depois tomei duche e jantei, sem te dizer, que estranho, não me doem as canelas, ou comi salada, maçã e iogurte, o teu olhar severo, tch-tch-tch, sem te perguntar, e agora, achas que vá de carro ou de mota?, nem responderes tu, vai nas asas, nas asas!

E fui nas asas. Nas asas para alcançar a lua no céu, Senhora da Hora, olho vazo amarelo, mordido pelas nuvens como o meu corpo pálido desfalecido, entre os dentes teus entregue. E num além escaso de ali, ali parei e vi, vivi, ouvi cacarejar a galinha que parece frango, ri, rimos, ristes, riram com ela à gargalhada, enquanto, enquanto de pescoço esticado, peito ondulante, trémula a crista, acompanhava o canto lírico cómico cáustico arquitec-tónico, contra uma sucessão incessante de edifícios hiperconstruídos ou hipogrifos de tijolo pedra betão-batom azulejos de loiça partida ou ira gaudiniana, redondezas arestas em aleatoriedade instavelmente equilibrada: a sustentável gravidade do absurdo. E eu o que? Eu rebentando os silêncios numa risada franca, o brilhozinho da felicidade breve, intervalo da raiva.

Depois a música. A música não são palavras. É batucar de sapatos, coiros, cordas perpendiculares em ângulo obtuso de contrabaixo e guitarra, é paus-baquetas, cascavéis ou castanholas cascateando-me nos sentidos, menos tristes, tronantes, mansos.

E mais tarde as palavras. As palavras são, às vezes, só às vezes, música a duas vozes requintada na quinta das quintas, a dita supradita: Antes a poesia que é a coisa mais séria. Seria?* Só se for de boca escancarada e fôlego no fole dos pulmões em alento feitiço. Assim sim, só.

O final é nunca mais, digo-te, mas é a mim que digo, pensa bem, ao escolheres lugar, mede medita, que os altifalantes são altiloqüentes, altíssonos numa harmonia que é de fábrica, bater de maça, ronco de sirene no nevoeiro, facho na voz, na luz, na luz, na voz, na luz serena, na voz sereia, na calma incerta, sou eu, altibaixos, amputada de ti recente, extrema extremidade fantasma, beijo-te contra o precipício e tu ainda me dizes, então vem, vem-te.

E fui, vim, vim-me, voltei, voltei nas asas das tuas interjeições rotundas, radicais, reverberantes... Só não houve sms que enviar-te, cheguei nem não cheguei, que já não lhe é preciso ao teu descanso.

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*Alexandre O'Neill, "Amigos Pensados: Vate 65"

terça-feira, 25 de maio de 2010

domingo, 23 de maio de 2010

Amanhecer sem ti (2)

Para o Ademar Santos







Fui à procura de desrazões e o rio deu-mas.
María Alonso Seisdedos

Amanhecer sem ti

Para o Ademar Santos







Já é dia.
Vou fazer o café.
Descansa, Ademar.
María Alonso Seisdedos

Nem um dia

Para o Ademar Santos







Tem muitos dias em que acordo destas horas e já logo-logo me levanto. Escrevo-te, então, um bilhete de madrugada para te dar o bom dia. Hoje não consegui dormir. Antes que o telefone tocasse, às 02.04 (HE), eu não conseguira dormir, como se... quem sabe? Deixara o telemóvel na mesa de cabeceira, por se me devolvias a chamada que preocupada pelo teu silêncio te fiz. Quando tocou, ao meu "bom dia" de brincadeira aliviado (!), não foi a tua voz que respondeu, mas um silêncio longo, e depois já, num sussurro, senti alguém que não eras tu a pronunciar o teu nome e a seguir, um pretérito imperfeito. E eu agora a escrever para ti, como se me lesses, sem te poder dar o bom dia, nem um dia, mais um dia... para nós.
María Alonso Seisdedos