domingo, 13 de fevereiro de 2011
Rutina
Pasou unha semana máis, e nesta tocoume rescatar do fondo do mar un tesouro da frota de Indias, desenmascarar unha rede de tráfico de drogas dirixida por militares estadounidenses no Panamá, asistir impotente á escena en que unha tarada, dunha puñalada polas costas, deixa un médico paralítico e a outra en que o machote do colega lle ve o cu á curuxa cando lle diagnostican un cancro de mama, acompañar un grupo de soldados españois durante un atentado en Iraq... O que mudou foi a temperatura, aí fóra, que arrefeceu.
Verdades coma templos
PANTALEÓN: Cando se che acaban os soños quédache a literatura.
Rubén Ruibal. Limpeza de Sangue. Xerais. 2006
sexta-feira, 11 de fevereiro de 2011
O meu rio
Isto aqui sou eu, meu, em versão intelectual. Se alguém se tivesse dignado a gravar-me num jogo de hóquei, como quem diz, enganchada pela roda dum patim a um arame que em forma de trampa de laço me prendeu e me fez cair, em consequência directa, de bruços ao chão e pernas ao ar, para susto dos meus colegas e desconcerto meu, então, meus queridos, é que iriam ver também a minha dentuça (intacta), os meus bíceps e mais os outros "eps" todos. Por enquanto, vejam lá ao fundo o meu rio, que é o único que merece a pena.
segunda-feira, 7 de fevereiro de 2011
Palavra poética
Cá está um besugo que diz que não gosta de poesia e eu só penso (se é "pensar" este fluir de ideias soltas que me acontece num lugar estranho dentro do corpo) que de três uma, ou duas, ou as três: ou ele nunca se lê, ou se se lê não gosta do que escreve (nada abonatório isto para os seus gostos, que já a tara pela bola prejudica bastante mas, enfim, ele é que vende o seu peixe), ou ignora o que é poesia, que nem precisa de ir em linhas quebradas para ser-se como nos seus esguichos é. E onde diz "ou", pode-se ler "e" sem que a ordem dos factores possa vir a alterar o produto nem a palavra poética. Ainda bem... também.
domingo, 6 de fevereiro de 2011
Zaragata matinal com nevoeiro ao fundo
É domingo de manhã (cedo) e, quando tudo prometia um pequeno-almoço tranquilo e triste, descubro que não há coisa melhor no mundo para bem acordar de repente do que partir em cacos de variado tamanho e grossura o jarrinho do leite...
quinta-feira, 3 de fevereiro de 2011
Autopsia
Cando o forense, para apurar as causas da morte, lle abriu as tripas a aquel monte de pel e ósos, encontroulle o estómago e os intestinos ateigados de recoñecementos enteiros, medallas trituradas, títulos de toda especie, varias palmadas no ombro, medios sorrisos e moitas, moitísimas boas palabras xa case ilexibles.
terça-feira, 1 de fevereiro de 2011
São úteis as mentiras piedosas? Artigo de Laura Ferreira dos Santos
“Venci o cancro!” O perigo das mentiras piedosas
O cancro é uma doença que se possa vencer, como uma gripe forte?
Público, 29 de janeiro de 2011
De vez em quando, em revistas da moda ou mesmo em jornais sérios, é dito que alguma personagem conhecida “venceu o cancro”, como se nunca mais se tivesse de preocupar com ele.
No entanto, a medicina sabe que só de pouquíssimos cancros se pode de facto dizer que estão curados. Quanto aos outros, está-se entregue à sorte ou ao que quer que seja. Daí a necessidade de exames de vigilância, pois ao cancro, de vez em quando, sabe-se lá porquê, apetece-lhe voltar. Uma das coisas que mais me impressionou nas leituras que fiz (e faço) sobre “morte assistida” (de que resultou o livro Ajudas-me a morrer?, 2009), foi (é) o facto de encontrar recorrentemente este facto: passados 7, 15, 20 ou 30 anos, o cancro voltou. Quando ainda não passara pela recidiva do cancro da mama, estremecia um pouco: será que...? Depois de ter passado pela recidiva, seis anos depois de o ter “vencido”, pergunto-me que mais mutilações estarão à minha espera e se estarei disposta a submeter-me a elas. Há pouco, uma óptima funcionária da minha Universidade disse-me que o cancro voltara a atingir a mãe, 26 anos depois. Mas, é claro, não estamos em tempos de lembrar a nossa mortalidade (e não é por causa da “crise”...) e temos de ficar pelas histórias cor-de-rosa. Mas serão úteis estas mentiras piedosas?
Para quem tem a sorte de nunca ter passado por um cancro, a ideia pode ser sedutora: “aquilo” é uma doença que se pode vencer, como uma gripe forte, e voltar-se à saúde anterior. Mas quem passou pela experiência do cancro e é metida num follow-up médico até ao fim da vida, ou até ele voltar de forma mais aguda e dar-lhe a morte, sente-se espantada e enraivecida, pois se essa vitória existe, porque é que vê os médicos assustados ou em pânico quando não faz exames regulares? E apetece então voltar ao poema do Messias de Händel e dizer, não O grave, where is thy victory?, mas O cancer, where is thy defeat?
Apetece-me mesmo falar das consequências políticas destas histórias cor-de-rosa, pois ajudam a construir uma sociedade dessolidária em relação a quem teve cancro ou ainda não morreu dele. Pior ainda se a “chaga” não se vê, se a pessoa, vestida, parece não ter qualquer deficiência e se move com aparente facilidade. Quem sabe então das dores que essa pessoa pode atravessar, quem se interessa por saber com que sequelas ficou, em que limbos físicos (para já não falar de outros) é que vive, apesar de o limbo ter sido abolido teologicamente pela Igreja Católica?
Há tempos, uma operária que também “venceu” o cancro da mama, falou-me em desespero da insensibilidade do patronato, que continua a colocá-la em serviços em que está constantemente a partir a prótese externa que usa (e que é cara!). Entendo que a minha jovem aluna me tenha admoestado quando comentei numa aula: “Como sabem, a prazo estamos todos mortos!” “Não diga isso, professora!”, disse ela. Chamada à realidade pelos colegas, o seu princípio de prazer ainda a fez defender-se: “Está bem, mas eu vou ficar para semente e desmentir essa frase!”. Mas deve a sociedade incentivar um tipo de pensamento semelhante?
Às 22h das sextas-feiras, quando uma colega minha que já teve cancro e recidiva sai dos complexos pedagógicos para lá voltar nas segundas, lembra-se sempre com ironia desta frase de “vitória”: como “venceu” o cancro por duas vezes, deve ser considerada mais forte do que qualquer outro colega. Por isso, deram-lhe o pior horário da semana, aquele que, em princípio, não consegue trocar com ninguém. O Victory, why is your taste so bitter?
O cancro é uma doença que se possa vencer, como uma gripe forte?
Público, 29 de janeiro de 2011
De vez em quando, em revistas da moda ou mesmo em jornais sérios, é dito que alguma personagem conhecida “venceu o cancro”, como se nunca mais se tivesse de preocupar com ele.
No entanto, a medicina sabe que só de pouquíssimos cancros se pode de facto dizer que estão curados. Quanto aos outros, está-se entregue à sorte ou ao que quer que seja. Daí a necessidade de exames de vigilância, pois ao cancro, de vez em quando, sabe-se lá porquê, apetece-lhe voltar. Uma das coisas que mais me impressionou nas leituras que fiz (e faço) sobre “morte assistida” (de que resultou o livro Ajudas-me a morrer?, 2009), foi (é) o facto de encontrar recorrentemente este facto: passados 7, 15, 20 ou 30 anos, o cancro voltou. Quando ainda não passara pela recidiva do cancro da mama, estremecia um pouco: será que...? Depois de ter passado pela recidiva, seis anos depois de o ter “vencido”, pergunto-me que mais mutilações estarão à minha espera e se estarei disposta a submeter-me a elas. Há pouco, uma óptima funcionária da minha Universidade disse-me que o cancro voltara a atingir a mãe, 26 anos depois. Mas, é claro, não estamos em tempos de lembrar a nossa mortalidade (e não é por causa da “crise”...) e temos de ficar pelas histórias cor-de-rosa. Mas serão úteis estas mentiras piedosas?
Para quem tem a sorte de nunca ter passado por um cancro, a ideia pode ser sedutora: “aquilo” é uma doença que se pode vencer, como uma gripe forte, e voltar-se à saúde anterior. Mas quem passou pela experiência do cancro e é metida num follow-up médico até ao fim da vida, ou até ele voltar de forma mais aguda e dar-lhe a morte, sente-se espantada e enraivecida, pois se essa vitória existe, porque é que vê os médicos assustados ou em pânico quando não faz exames regulares? E apetece então voltar ao poema do Messias de Händel e dizer, não O grave, where is thy victory?, mas O cancer, where is thy defeat?
Apetece-me mesmo falar das consequências políticas destas histórias cor-de-rosa, pois ajudam a construir uma sociedade dessolidária em relação a quem teve cancro ou ainda não morreu dele. Pior ainda se a “chaga” não se vê, se a pessoa, vestida, parece não ter qualquer deficiência e se move com aparente facilidade. Quem sabe então das dores que essa pessoa pode atravessar, quem se interessa por saber com que sequelas ficou, em que limbos físicos (para já não falar de outros) é que vive, apesar de o limbo ter sido abolido teologicamente pela Igreja Católica?
Há tempos, uma operária que também “venceu” o cancro da mama, falou-me em desespero da insensibilidade do patronato, que continua a colocá-la em serviços em que está constantemente a partir a prótese externa que usa (e que é cara!). Entendo que a minha jovem aluna me tenha admoestado quando comentei numa aula: “Como sabem, a prazo estamos todos mortos!” “Não diga isso, professora!”, disse ela. Chamada à realidade pelos colegas, o seu princípio de prazer ainda a fez defender-se: “Está bem, mas eu vou ficar para semente e desmentir essa frase!”. Mas deve a sociedade incentivar um tipo de pensamento semelhante?
Às 22h das sextas-feiras, quando uma colega minha que já teve cancro e recidiva sai dos complexos pedagógicos para lá voltar nas segundas, lembra-se sempre com ironia desta frase de “vitória”: como “venceu” o cancro por duas vezes, deve ser considerada mais forte do que qualquer outro colega. Por isso, deram-lhe o pior horário da semana, aquele que, em princípio, não consegue trocar com ninguém. O Victory, why is your taste so bitter?
Laura Ferreira dos Santos - Docente de Filosofia da Educação da Universidade do Minho e Membro da Comissão de Ética da ARSN (laura.laura@mail.telepac.pt)
segunda-feira, 31 de janeiro de 2011
Pecata minuta?
Eu pensei que iria ser triste coisa se um dia me tirassem o café. Digo, triste não, um drama, um drama trágico com assassínios não sei se em série se em massa e um suicídio, o meu, no fim, para burlar a efémera injustiça humana na estúpida esperança duma misericórdia divina eterna. Como em tudo o mais, enganei-me nos adjectivos.
Quase um ano depois que me fosse diagnosticada uma hipertensão assustadora (pena não vissem a expressão horrorizada do meu médico, que ia caindo fulminado perante a exorbitância das cifras com que me acusava o aparelho de pressão, porque a cena esteve a pique mesmo de ser engraçada), sobrevivemos todos os implicados na quase destruição do meu vício: o médico, que safou por um triz com um sorriso meigo de última hora; empregados de café que, nos primeiros dias da abstinência, traziam nos lábios a frase feita pelo costume ou até já no tabuleiro, ó torturante tentação impediosa!, a chávena pequenina sobre o pires, fumegante e aromática; a caixeira do supermercado que introduzia sem dó na máquina o código do sucedâneo desenxabido e a fila inteira de clientes desacautelados que nunca imaginaram o perto que estiveram de saírem do local sem pagar; eu própria e mais os meus cães, alminhas. Diga-se em honra da veracidade que, advertidos por diligência preventiva dos Serviços Sociais, já na mesma tarde da consulta passou um par da Guarda Civil na minha casa a requisitar as armas mortais todas, faquinhas de untar manteiga incluídas, e mais uns rebuçados suspeitosos de cor castanha que guardava numa gaveta com dobre fundo da secretária.
Com certeza, não renunciei ao da manhã. Reconheço para o meu desdouro, no entanto, que é esse apenas uma água chilra para iludir o olfacto, que me arranca dos lençóis e me conduz como autómato à cozinha numas horas em que ninguém suspeitaria que a alva, nem que seja toldada, possa vir a existir. Vedei-me, porém, os outros milhentos que ingeria ao longo do dia. Eis uma gaja com força de vontade, dirão vocês. E eu digo, não. Digo, eis uma senhora que deixou de ter umas dores de cabeça infames e sem causa até então explicável a acordarem-a mesmo nos dias santos.
Ora bem, isto aqui, o reino do meu corpo, não é fortaleza inexpugnável, antes tem na epiderme do desejo alguma fenda por que em noites extraordinárias, sem exageros, uma ou duas vezes por mês, como quem vai a um lupanar satisfazer os mais elevados instintos prévio pagamento, vence o pecado e peço, sem um tremor de mãos, um cafezinho, diminutivamente e em voz muito baixa, que me sabe à glória bendita. Eu aí fico embasbacada a sentir a fragrância entrar pelas narinas e atingir os capilares minúsculos que nem em dissecação ocular se vêem e noto os espinhos de dentro amolecerem e uma alegriazinha simples de viver mais um dia. E depois, a beberagem mágica enxota-me a soneira, como se tivesse no cérebro um anjo enjoado com o universo todo pelos esvoaçares monótonos que lhe calhou viver uma perpetuidade inteira, quer-se dizer a tempo completo, e consigo voltar a casa sem adormecer ao volante ou sobre o guidão da mota, facto que, julgo eu, contribui um bocado a amortecer a tragédia e à causa do mais um dia.
Quase um ano depois que me fosse diagnosticada uma hipertensão assustadora (pena não vissem a expressão horrorizada do meu médico, que ia caindo fulminado perante a exorbitância das cifras com que me acusava o aparelho de pressão, porque a cena esteve a pique mesmo de ser engraçada), sobrevivemos todos os implicados na quase destruição do meu vício: o médico, que safou por um triz com um sorriso meigo de última hora; empregados de café que, nos primeiros dias da abstinência, traziam nos lábios a frase feita pelo costume ou até já no tabuleiro, ó torturante tentação impediosa!, a chávena pequenina sobre o pires, fumegante e aromática; a caixeira do supermercado que introduzia sem dó na máquina o código do sucedâneo desenxabido e a fila inteira de clientes desacautelados que nunca imaginaram o perto que estiveram de saírem do local sem pagar; eu própria e mais os meus cães, alminhas. Diga-se em honra da veracidade que, advertidos por diligência preventiva dos Serviços Sociais, já na mesma tarde da consulta passou um par da Guarda Civil na minha casa a requisitar as armas mortais todas, faquinhas de untar manteiga incluídas, e mais uns rebuçados suspeitosos de cor castanha que guardava numa gaveta com dobre fundo da secretária.
Com certeza, não renunciei ao da manhã. Reconheço para o meu desdouro, no entanto, que é esse apenas uma água chilra para iludir o olfacto, que me arranca dos lençóis e me conduz como autómato à cozinha numas horas em que ninguém suspeitaria que a alva, nem que seja toldada, possa vir a existir. Vedei-me, porém, os outros milhentos que ingeria ao longo do dia. Eis uma gaja com força de vontade, dirão vocês. E eu digo, não. Digo, eis uma senhora que deixou de ter umas dores de cabeça infames e sem causa até então explicável a acordarem-a mesmo nos dias santos.
Ora bem, isto aqui, o reino do meu corpo, não é fortaleza inexpugnável, antes tem na epiderme do desejo alguma fenda por que em noites extraordinárias, sem exageros, uma ou duas vezes por mês, como quem vai a um lupanar satisfazer os mais elevados instintos prévio pagamento, vence o pecado e peço, sem um tremor de mãos, um cafezinho, diminutivamente e em voz muito baixa, que me sabe à glória bendita. Eu aí fico embasbacada a sentir a fragrância entrar pelas narinas e atingir os capilares minúsculos que nem em dissecação ocular se vêem e noto os espinhos de dentro amolecerem e uma alegriazinha simples de viver mais um dia. E depois, a beberagem mágica enxota-me a soneira, como se tivesse no cérebro um anjo enjoado com o universo todo pelos esvoaçares monótonos que lhe calhou viver uma perpetuidade inteira, quer-se dizer a tempo completo, e consigo voltar a casa sem adormecer ao volante ou sobre o guidão da mota, facto que, julgo eu, contribui um bocado a amortecer a tragédia e à causa do mais um dia.
sexta-feira, 28 de janeiro de 2011
Um porco e também pessoas
Na lagoa, a puxar pelos pés do porco de um lado para o outro, estavam dois putos caxineiros a nadar naquela porcaria como se fosse a piscina municipal. Boquiabertei total. Nadavam à pescador, de um modo desenrascado e trabalhador, capazes de ficarem com uma mão livre e pegarem em coisas na água atirando-as de um lado para o outro. Diziam: quando chegar aí acima vou-te matar.
valter hugo mãe. Excerto de "aprender com os animais". 27 janeiro de 2011. Texto escrito para a sessão Caxinas para Capital das Quintas de Leitura do Teatro do Campo Alegre
Era assim: como se estivéssemos no mar, vagas de luz numa tela inventada, e houvesse uma sereia que nos encantasse ao piano, a gente rastejava com a cabeça (cada pessoa a sua) bem levantada, cobras enfeitiçadas éramos, como quem fareja no sal do ar o cheiro da terra sem sucesso, como quem perscruta na espuma duma onda que rebentou areais de praia e palmeiras ou eucaliptos. Havia também sobre o quadrado azul de lagoa em calma ―porco nenhum à vista, menos morto― poltronas dum cinema-teatro antigo para os corpos magros dum tempo em que se distraía a fome adolescente em filmes de motoristas e senhoras insaciáveis. E havia mais, havia redes em que nos deixávamos pescar, como caranguejos tóxicos, simpáticos e inocentes, com um sorriso nas bocas desdentadas de que a natureza nos não dotou para modelarmos a irreverência das gargalhadas. Das poltronas nasciam vozes que desenhavam a nostalgia duma infância de medos assustadores em território ignoto, aquelas selvas de monstros (porcos ou gente) e a mais terrível puberdade de que um velhote perseguidor tinha saudades. Fartámo-nos de rir.
No intervalo saiu o pessoal à rua a apanhar fumo e frio e vistos de dentro através da vidraça, os braços bem colados ao abrigo, os pés saltitantes, eram peixes que abriam muito a boca à procura dum sonho ou de plâncton. Entre o interior e o exterior gerava-se, a despeito da temperatura, uma trasfega de copinhos com um líquido que pelo cheiro que ia semeando em volta e a cor de madeira nobilíssima e envernizada se diria o vinho que os ingleses chamam de port e bebem como se deles fosse.
Ainda mais tarde acabei por pensar que a felicidade (haja quem me gabe a paciência, que eu hei-de gabar a de vossas excelências) era ali, a ouvir um gajo de barbas em rosto de criança e olhos maduros, voz e piano fundidos como se ele e o instrumento fossem o mesmo animal vivo, que até me apeteceu chorar e só no chorei por não sorver forte e feio o ranho ou estragar a maquilhagem. Iludi as lágrimas com o mar azul sulcado de algas vermelhas que assomava à parede, também o calidoscópio camaleão, que me regressava a um estado de embriaguez sentimental e mansa em que a felicidade era mesmo ali, entre histórias de música, pedidos de casamento sem hora nem medida, cuspidelas (ou coisa pior) desde o poleiro e um porco morto, inchado e imperfurável de tão duro, a boiar na memória.
quinta-feira, 27 de janeiro de 2011
Meios de subsistência
Calhou-me uma semana poética. Terça foi na Fundacão Cupertino de Miranda em Famalicão com o Isaque Ferreira e a Ana Deus de dizentes. Esta noite há no Porto sessão das Quintas de Leitura com o valter hugo mãe. E ainda sábado, aqui/aí em Cerveira, na Porta Treze, um acto em volta do Eugênio de Andrade. Para equilibrar em prosa, fui agora às compras de víveres e investir na aposta semanal única de quinta e sábado da lotaria primitiva.
quarta-feira, 26 de janeiro de 2011
A rapaza pálida (divertimento)
A rapaza que pasa as páxinas da partitura ao pianista é pálida. Por veces, unhas poucas apenas, permítese un palpitar no peito, que pronto reprime, penso, por pudor, e pugna por imprimir ao rostro, héctico, unha actitude estática, estatuaria, de estética tan estrita canto críptica, inescrutable. Le nas lendas e logo, lánguida, louro o cabelo abala e se alza, leva lentamente a man alada, aloumiña o limbo foliar, tal que linda lencería lene e leve. Olla de esguello ao vello mestre e ao seu tácito explícito xesto, presta, pasa a páxina da partitura e recompón a pousada posición do corpo como pantasma a rapaza pálida.
terça-feira, 25 de janeiro de 2011
166 dias de ascensão gradual
Folgo imenso hoje em saber que ontem foi o dia mais deprimente do ano. Não fosse esta fortificante notícia a alegrar-me a manhã, tinha a cabeça enfurnada entre os lençóis e o travesseiro, o despertador emudecido em cacos no canto mais lúgubre do quarto, uma apatia de não levantar nem corpo nem ânimo, um desleixo agudo na higiene física e mental (escovam-se os dentinhos, lêem-se os jornais), talvez mesmo uma inapetência sólida contra o café único e pródigo do pequeno-almoço (e as suas torradinhas, os gomos carnudos da tangerina e a fragrância expansiva da casca nos dedos, a liquefeita laranja e os figos secos), nem escancarava as janelas (segundo e meio, que está frio polar lá fora) para arejar os ouvidos. Ainda bem, para o meu contento matinal, há quem empenhe os neurónios ou a falta deles em arquitectar a fórmula da infelicidade. Até ao 20 de junho depara-se-me um sorriso in crescendo e ramalhetes de sempre-vivas a desabrochar nas orelhas. Na altura tratar-se-á de arranjar para-quedas.
segunda-feira, 24 de janeiro de 2011
A culpa da morte do gato
Foi polos do coche, non teño dúbida. Un coche de tarde, no camiño apartado sen saída, en sombra, polo que adoito pasear, á beira do río, onde nunca me cruzo con ninguén. Entrevín através dos amieiros un coche ao fundo. Unha parelliña, pensei. E vou pasar eu a incomodalos? E para máis que teño forzosamente que regresar polo mesmo sitio? Déixaos estar felices. Asubiei para os cans, que deron volta, antes que lles fosen mexar nas rodas, e desandamos. Desviámonos á pista asfaltada ata os invernadoiros. Xa nin sei se era sábado de tarde, se domingo, porque non había xente a traballar. Logo fomos vindo de volta. Nisto que a cadela fuxiu, de golpe, para os ameais. Sentíaa ladrar xunto ao regueiro, case histérica. E eu enteira, histérica, cheirando a gatada. Había gato. Gato mesmo, con patas e bigodes e rabo. E vida. Nin me deu tempo a reaccionar. O can intuíu o mesmo ca min e saíu, toda a artrite esquecida, en dirección aos ladridos. Silencio. Mal asunto, souben. A cadela traía o gato afogado na boca, como un trofeo, o rabo a abanar, toda farruca. Pousouno no chan, deulle co fociño, un algo resentida de que non mexese, o xoguete roto, duráralle pouco. Regresamos presos os tres pola correa, para a casa, os cans e eu, as orellas gachas, o gato mollado, mortísimo, abandonado entre a millaxe seca, seca coma a miña gorxa, que rosmaba e renegaba a rabia de matacáns de palabra (mátovos, mátovos, un día destes mátovos, xuraba en falso). Até que logo dei para aliviar, largando remorsos fóra, a culpa toda dos do coche é que é. Debinlles foi chimpar o gato morto pola fiestra dentro, que fosen botar o canivete para un hotel, mecagoentodo, ou para o baño dun restaurante. Aínda me doe o animal e estas bestas miñas con esa cara de inocencia, de quen non partiu nunca un prato, digo, un gato.
domingo, 23 de janeiro de 2011
O alén no aquén
Cóntasenos unha historia con tres protagonistas cuxas vidas se cruzan nunha feira do libro.
A primeira é unha parisiense como os barquillos, bonita e rica, de vacacións nun hotel de luxo de coma quen di a Indonesia ou para esas partes, que se ergue da cama en que supostamente cohabitou co amante e se viste simple e monísima, a porcona, xa non sen dar unha ducha senón sen sequera lavar... os ollos con dous dedos. Só que axiña, en cuestión duns longuísimos segundos, se comprende a falta de hixiene: había ser moita auga para un só día. E no silencio da sala dous, os espectadores engolen cuspe coma quen fecha a boca en banda à forza da onda xigantesca, nin un disimulado triscar de pipocas ou sorbo de coca-cola que quebre o feitizo brutal da escena.
O segundo échevos un sanfranciscano de toda a vida que tenta fuxir dos poderes sobrenaturais que adquiriu de neno, tras estar cun pé aquí e outro alá por causa dun raio dunha encefalomielite. Os tales poderes permítenlle establecer contacto cos que morreron, polo que podía estar podre de cartos choiando de médium, pero el prefire durmir tranquilo arrolado nas audio-novelas de Dickens e gañar o pan con queixo dando paseos nunha carretilla elevadora por unha refinería de azucre. Até que un día, cousas da restruturación laboral, o poñen no ollo da rúa por non ter can que lle ladre, isto é, muller e prole que manter.
O terceiro é un raparigo de ascendencia irlandesa que vive en Londres, fillo de nai solteira amantísima (unha heroinómana que tamén anda algo metida no briol, á que unha parella dos Servizos Sociais acosa implacable para retirarlle a custodia), calado e serio, un punto túzaro, que asiste á retransmisión vía móbil da morte por atropelo do seu irmán xemelgo ou, o que é o mesmo, dunha parte fundamental de si. A busca teimosa dun elo co finado do seu outro eu acabará por desencadear unha conexión case eléctrica, faíscas e sacudida incluídas, entre vivos. E malia o final, que é deses previsibles e felices que tanto detesto, a película déixase ver ben a gusto.
A primeira é unha parisiense como os barquillos, bonita e rica, de vacacións nun hotel de luxo de coma quen di a Indonesia ou para esas partes, que se ergue da cama en que supostamente cohabitou co amante e se viste simple e monísima, a porcona, xa non sen dar unha ducha senón sen sequera lavar... os ollos con dous dedos. Só que axiña, en cuestión duns longuísimos segundos, se comprende a falta de hixiene: había ser moita auga para un só día. E no silencio da sala dous, os espectadores engolen cuspe coma quen fecha a boca en banda à forza da onda xigantesca, nin un disimulado triscar de pipocas ou sorbo de coca-cola que quebre o feitizo brutal da escena.
O segundo échevos un sanfranciscano de toda a vida que tenta fuxir dos poderes sobrenaturais que adquiriu de neno, tras estar cun pé aquí e outro alá por causa dun raio dunha encefalomielite. Os tales poderes permítenlle establecer contacto cos que morreron, polo que podía estar podre de cartos choiando de médium, pero el prefire durmir tranquilo arrolado nas audio-novelas de Dickens e gañar o pan con queixo dando paseos nunha carretilla elevadora por unha refinería de azucre. Até que un día, cousas da restruturación laboral, o poñen no ollo da rúa por non ter can que lle ladre, isto é, muller e prole que manter.
O terceiro é un raparigo de ascendencia irlandesa que vive en Londres, fillo de nai solteira amantísima (unha heroinómana que tamén anda algo metida no briol, á que unha parella dos Servizos Sociais acosa implacable para retirarlle a custodia), calado e serio, un punto túzaro, que asiste á retransmisión vía móbil da morte por atropelo do seu irmán xemelgo ou, o que é o mesmo, dunha parte fundamental de si. A busca teimosa dun elo co finado do seu outro eu acabará por desencadear unha conexión case eléctrica, faíscas e sacudida incluídas, entre vivos. E malia o final, que é deses previsibles e felices que tanto detesto, a película déixase ver ben a gusto.
E se somos todos fabuladores?
But what if we are all fictioneers, as you call Coetzee? What if we all continually make up the stories of our lives? Why should what I tell you about Coetzee be any worthier of credence than what he tells you himself.*
Sophie en Summertime de J. M. Coetzee.
A nada do que se diga sobre el, nin sequera ao que el diga de si, se deberá dar creto. Xa en Mocidade o advertía explicitamente nunhas palabras de que eu me apropiei e andan por aí, como aviso serio a navegantes sobre o que aquí se escribe ou cala, á vosa dereita.
Tomando como centro o período en que John Coetzee acada a idade adulta, Verán é o pretexto para retratar a sociedade branca da África do Sur da década de 1970. Un estudoso ficticio da vida de John Coetzee tenta elaborar unha biografía póstuma que non calla a partir de entrevistas a cinco persoas que o coñeceron nesa época e mais algunha papelada que deixou o escritor presuntamente xa falecido. O coro a seis voces fala da soidade, a morte, a vellez, a enfermidade, a eutanasia, a incapacidade de amar ou de expresar o amor, as relacións familiares e laborais, o apartheid, o compromiso político, o conflito da conciencia entre o sentimento de culpa e o apego a un territorio roubado. E tamén da música.
[Eu poida que perdese o sentido do humor, pero o único que me parece "funny" do libro son as apreciacións do crítico do Observer que colocaron na capa como reclamo. Ende ben, non o mercara precisamente por iso.]
_________________
* Pero e se somos todos fabuladores, como chama vostede a Coetzee? E se todos inventamos decontino as historias da nosa vida? Por que vai ser máis digno de creto o que eu lle conte sobre Coetzee ca o que lle conte el?
Etiquetas:
literatura,
opinión críptica,
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quinta-feira, 20 de janeiro de 2011
quarta-feira, 19 de janeiro de 2011
Loito
Habitaba o último andar e tiña o home embalsamado na sala. Aos sábados, fundido nas tebras o luscofusco, revivía o velorio. Abría a casa de vagabán e ofrecía licores e pastas variados, de elaboración propia, aos veciños do edificio, que aliviaban a soidade en troca de catro bágoas escorrichadas polo tan bo que fora, as oracións murmuradas de cor e os contos de defuntos e aparecidos. Contra o abrente, despedíanse e baixaban as escaleiras para cadanseu tobo, o xesto digno a disimular sobre as pernas cambaleantes a lascarda de alcol e sono. Ela fungaba os mocos, tapaba o caixón, desentornaba as fiestras e puña baixiño un cedé de boleros.
terça-feira, 18 de janeiro de 2011
segunda-feira, 17 de janeiro de 2011
Às voltas com o testamento vital (ainda) IV. Entrevista a Laura Ferreira dos Santos. Antena 1
Em 17 de janeiro de 2011
domingo, 16 de janeiro de 2011
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