sexta-feira, 8 de abril de 2011
quinta-feira, 7 de abril de 2011
quarta-feira, 6 de abril de 2011
O sapo morto
Acho que matei eu o sapo e nem sequer fui consciente disso. Só reparei no seu corpo esmagado de ali a dois dias, quando levantei a porta da garagem. Apenas nesse momento é que vi o cadáver de sapo morto e esmagado e soube que só eu o podia ter morto e esmagado ali onde ele estava. Era tão triste ter um sapo morto e reparar nisso. Era tão triste ter morto um sapo sem sequer ter reparado nisso. Até porque de ter reparado em que o sapo, enquanto sapo vivo, estava ali onde estava, na mesma noite em que eu estivera com um outro sapo ―este vivo e inchado ainda, espero― a falarmos de coisas tristes, de coisas alegres, de crianças lindas que sorriam em fotografias com um mar de riscos de cores entre as mãos e o cabelo todo na cabeça, de coisas inevitáveis que puderam ser evitadas mais não foram, de amigos que iam embora fazer as Américas com tudo o que tinham ou sem nada do que tiveram... de ter reparado, digo, em que o sapo que eu já tratava por tu estava vivo à porta da garagem quando ia entrar com o carro, teria descido, ter-lhe-ia chegado o bico do pé delicadamente para ele apartar o seu corpo gordo e pesado de tantos anos a devorar bicharada ao luar e ter-lhe-ia dito, anda, sai de aí, sapinho, não vamos querer que sejas esmagado e morto a seguir ou no acto sendo eu consciente disso.
segunda-feira, 4 de abril de 2011
Cá está abril
Já chegou o cuco a apropriar-se de ninhos alheios desocupando-os dos legítimos inquilinos que esmorecem ao pé de coluna partida e bico aberto ou de fome, chegou a poupa a deixar uma esteira de cheiro à merda no seu esvoaçar triangularmente ondulado e faisões e faisoas andam por aí a namorar escandalosamente com o prazo de validade marcado para o primeiro dia de caça, quer de tiro, quer de enfarte.
De melgas falar-se-à noutra altura.
De melgas falar-se-à noutra altura.
domingo, 3 de abril de 2011
sexta-feira, 1 de abril de 2011
quinta-feira, 31 de março de 2011
segunda-feira, 28 de março de 2011
O ogro mascarado de plácida leitora de poesia (2)
Prova de que a poesia não me (nos) faz melhor(es) pessoa(s)
É, já foi dito, domingo de entrudo. Escolho o canto mais apartado, que tem por ali à solta duas crianças a engrinaldar tudo quanto é mundo com serpentinas ao tempo que a mamãe ralha nelas com inhóspita correnteza de voz e proveito zero (o pai, ao que parece, é felizmente surdo ou de espécie muda... e quase ainda bem). Porém (ei-lo, como previsto) terei azar. Chega agora a priminha com os pais ―beijos, alaridos e abraços― e os três putos resolvem deslocar a bagunça justamente (engulo cuspo, pigarreio para temperar a secura da garganta) por tris-trás de mim, para uma zona, sedutor o chão tapizado de seixinhos brancos, a que uma fita atravessada no vão sem porta supostamente veda passagem sob pena capital nenhuma (pena!, franzo o sobrolho, a alma encrespa-se-me...). O Huguinho e a Mariana, travestidos de punkie (com muletas) e ratinha Minnie (com orelhas), respectivamente, entretêm-se com a Fada (com chapéu) Cor-de-Rosa Helena a remexerem nas alvas pedras e procuram, sem pejo nem sigilo, tesouros!!! (vidralhada multicolorida, enferrujadas caricas finiseculares, alumínicos anéis de indegradáveis abrefáceis..), acompanhados pela gritaria já-se-sabe improfícua que a mãe arremessa por cima da minha paciência: que não fossem sujar as mãos, nem os vestidos, que era, aliás, aquilo em que o trio em venturosa impunidade se empenhava, aproveitando a parede que cega a materna pose vigilante. Entretanto, pugna o monstro em mim: sangue num ferve-não-ferve, blups-blups, babas que fermentam sob a língua, bafo a assomar pelas narinas fora, escamas que se excitam sobre a palidez verde da pele... Herodio-me.
quinta-feira, 24 de março de 2011
Fachada
00:11:29:12. Conxelo o seu rostro na pantalla. A cámara que mostra o que o espectador debe ver centrouse nela. A súa expresión denota desprezo, repugnancia, odio profundo no trazo levemente curvo dos labios finos. Unha carga de tristura inmensa na mirada e o cansazo das noites mal durmidas na pel, escepticismo e tensión nas ventas distendidas do nariz. A cabeza e as costas ergueitas, pescozo de garza que axexa, unha carpeta a amparar o peito, contempla a parella que se deixa fotografar. O espectador ve a través dela. Coñece a través dela os segredos máis ocultos. Sabe por ela que non cumprirá falsear a imaxe: os retratados parapétanse tras un perfil falso, a portada perfecta de revista.
quarta-feira, 23 de março de 2011
Ar iluminado
Para o besugo
Que eles e nós eramos feitos de ar ninguén dubidaba e quen dubidase, dentro das excepcións pertinentes, era apenas por ser feito duns outros gases raros e extravagantes. Sabíase isto a pesar de que nas horas de ceos moi toldados, en que as augas se espellan así mesmo toldadas, un manto de líquida cinza oculte as borbullas de peixes e algas que acolá nos medios fundos trocan os seus osíxenos e os seus hidróxenos en desproporcións dispares. Era tamén verdade científica comprobada até proba en contra que había ademais bastante carbono ao barullo, o que a todos nos daba a solidez táctil, pois un exceso de permeabilidade na esencia implicaba risco de fusións infindables. E en relativas porcentaxes de chisca e migalla, os corpos contiñan outros elementos tales coma o ouro dos dentes, o titanio das próteses internas e externas e os fósforos do cerebro, eses que resplandecen en noites desluadas e nalgúns casos notorios se localizan en cristais polas nádegas, distinguíndose así as especies que salpican a atmosfera a aboiar en dous grandes grupos indiverxentes de escaso peso, os poéticos vagalumes e os prosaicos lucecús, xente, ao final, sempre de palabra, ou como dicía, ar. Ar, con todo, iluminado.
terça-feira, 22 de março de 2011
Água!
Uma tarde levo com um stick na fuça e já na noite a seguir, bimba!, batem-me com uma música numas frases quebradas rascunhadas algures. De ambos acidentes, em aparência, a gente sai indemne. Só que aparências, já se sabe, enganam: o nariz ainda dói e os tímpanos vibram como se um manancial lhes falasse.
segunda-feira, 21 de março de 2011
Locuras (ou sons)
Não tarda em propalar-se aldeia fora o rumor. A mulher ―dirão num burburinho no segredo dos confessionários, comentarão em surdina na mercearia, vociferarão sem pejo nos cafés― endoideceu e vagueia ao lusco-fusco pela margem do rio... sozinha.
O problema não é as pessoas nos julgarem doidos, mas não sabermos nós que estamos. Talvez, afinal, endoideceu mesmo, mas os cães agradecem tanto...
Depois estão as perspectivas, porque a mulher não vagueia sozinha: acompanham-a o alento dos cães, os patos que regressam ao ninho apregoando-se, o gralhar duma garça indecisa, um coro estridulíssimo de grilos, o plof-plof dos sapos que lhe abrem passo não os pise, os remos duma barca de pesca a chapinhar sobre tanta calma...
O problema não é as pessoas nos julgarem doidos, mas não sabermos nós que estamos. Talvez, afinal, endoideceu mesmo, mas os cães agradecem tanto...
Depois estão as perspectivas, porque a mulher não vagueia sozinha: acompanham-a o alento dos cães, os patos que regressam ao ninho apregoando-se, o gralhar duma garça indecisa, um coro estridulíssimo de grilos, o plof-plof dos sapos que lhe abrem passo não os pise, os remos duma barca de pesca a chapinhar sobre tanta calma...
domingo, 20 de março de 2011
sábado, 19 de março de 2011
sexta-feira, 18 de março de 2011
O ogro mascarado de plácida leitora de poesia (1)
Prova de que a poesia não me (nos) faz melhor(es) pessoa(s)
É domingo de entrudo. Almocei já, cedo hoje, mais do que é costume, meu. Estaciono (um falar) a burra sob a janela fechada da Biblioteca fechada, talvez ainda elas venham a aprender alguma coisa por contágio. Olho em volta. Está o ambiente animado. Toca fugir, pois. Pois. Não fossem os "porens..." que virão mais tarde. É preciso ter (a gente, eu) muita calma. Entro na pastelaria e peço, sff, para me levarem um bolinho de maçã e um chá bastante preto à esplanada. A esplanada são três paredes e nenhum tecto dum prédio antigo, enfrente, com vistas ao edifício e o jardim da Biblioteca, belíssimos, estáticos, calados. É para o que der, e dá-me, o lugar idóneo, numa rua próxima ao terreiro e afastada do seu bulício, em que pouso o corpo dolorido e lanho das páginas dum livro irregular de capa roxa poemas, imatéria dum poeta excelente se fosse mais crítico consigo ou tivesse um bom amigo que às claras lhe dissesse: olha, que isto aqui é merda, mesmo.
quinta-feira, 17 de março de 2011
Mala baba
Na caixa do supermercado, cando me toca a vez, deixo de ter présa, a tensión reláxase e escoito as conversas que aboian arredor. A metro e medio de min unha muller di que non entende a xente que non quere revelar os anos que ten. Eu penso que alá cada un co seu corpo e os seus espellos. Non, non quero bolsas, grazas, repito en ton automático antes que me pregunten. Vou gardando no carro as cousas que antes tirei para colocar na cinta transportadora e que a caixeira foi pasando polo lector de códigos de barras, que emite un zunido de cada vez, zunido que se transforma en cifras. (De súpeto sinto nostalxia daquelas caixas que dicían money, pola estética clara da boca que se abre e canta o seu contento, sen enganos, transacción física de papel e moedas que manchan as mans... non que eu desexe de forma e en forma ningunha regresar á puta (avaliación adxectiva crítica e enfática sen connotación literal substantiva ningunha) da adolescencia, á merda (ídem de idem) toda da vida miña que felizmente foi quedando atrás. Ela, a outra, insiste en que non entende esa xente, que ela ten corenta e mal lle importa recoñecelo. Eu por fin acabei de gardar as cousas no carro, e pásolle a tarxeta e mais o dni á caixeira. Aproveito a pausa para pór corpo á voz da señora cunha leve ollada de esguello e penso que fai ben en confesar que ten corenta anos, porque non parece. Eu botáballe bastantes máis. Sen dó. Mala baba teño.
quarta-feira, 9 de março de 2011
domingo, 20 de fevereiro de 2011
Pas de quatre
O corpo da espectadora estremécese, ou antes... arrepíase todo na butaca. As imaxes son brutais. É violencia viva o que desde a pantalla se suxire, pesadelos, a crueldade dun cacho de espello roto cravado, encravado, no estómago, a mancha de sangue que devagar abrolla e revela a autodestrución. Non, non é o escenario un cuadrilátero sórdido onde os golpes mazan a cabeza, un, e o corpo, dous, a cabeza, un, e o corpo, dous, un-dous, un-dous, un-dous, un-dous... (un, dous, tres... dez, e o árbitro baixa o brazo), até o ko, o perdedor estendido no chan, a derrota, a humillación que sangra pola boca, a cella sempre partida, o nariz, outrosí, esmagado, o bazo que estoupa, o modelado, mazado torso descuberto e o cheiro ao suor, as manchas de suor na roupa, os puños do campión en alto, o público que vocifera, que xesticula, que insulta, que aclama, a estética cutre do ximnasio e do ambiente familiar, o fondo lúgubre dos rostros destruídos, os tópicos todos que rodean o boxeo, a delincuencia, a droga, o cárcere, a síndrome de abstinencia expresada en destellos, un home que pelexa contra si mesmo, luces e sombras sobre o catre dunha cela, a familia unida e o amor sobre todas as coisas..., os abrazos, os abrazos, a superación que vence a través do esforzo e o sufrimento. Non, o escenario é o palco dun teatro magnífico, pano de veludo, madeira nobre, cándidas criaturas delgadas que se desprazan leves nas puntas dos pés, odio e ambición nos corredores, tules, plumas, saltos harmónicos no ar, sincronía no pas de quatre, a estética límpida e sublime das artes, músculos que se estrican, osos que estalan, dor, sufrimento, o rancor das miradas de esguello, a princesiña destronada estendida no chan, tibias e peronés que escachan baixo as rodas dun automóbil, a elegancia no vestíbulo, abrigos de pel, vestidos de fantasía, a sobriedade do smoking, no-smoking, o brillo turbio das xoias e o carmín nos labios, o perfume, os perfumes, o rumor do diñeiro co que se vende a gloria e se compra a vangloria, as lámpadas penduradas de altísimos teitos, unha muller que loita contra si mesma, as ás negras que se espanden, o monstro negro que devora, a loucura, a violencia de quen procura a perfección, a violencia dun brinde pola beleza, pola beleza, pola beleza, un-deux, un-deux, un-deux, un-deux, o combate á morte entre bastidores e nas alucinacións da mente distorsionada, o estrondo contido do público que aplaude en pé, comodamente alleo ao significado real da perfección.
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