segunda-feira, 14 de fevereiro de 2011
E isto para dous moxetes nas chuchas
Nin sei canto hai que volo veño avisando pero as esperas no médico xa non son o que eran. Ca! Esta tarde era a sala un quasi-deserto: unha muller sentada, eu no mostrador a entregar o papel e outra que se me chantou detrás, sem empurar nin nada. Total que digo para min sen mover os labios, non fose acabar na planta de Psiquiatría, velaquí un silencio ideal para ler tranquilamente, sen présas, o novelón que traio na mochila. E prometéndome unhas horas felices, alá estaba eu a gardar a tarxeta sanitaria na carteira, de pé aínda, o chuvasqueiro posto, cando se abre unha porta e chaman por min como só chaman por min no médico, co nome que me puxeron no carné de identidade. Fódase, estiven para dicir, pero non dixen, nin coller folgos. E que entre aí, íspase de cintura para arriba e pase cando estea. E eu obedezo, que a iso vin. Que me arrime á máquina, que frouxiña, sen facer forza, e van e machúcanme de arriba abaixo a teta dereita. Veña o mesmo conto coa outra, que non sei como aquilo non fai chof e acabou, todo espirrichado ―será que xa estou seca. E despois de lado, outra machucadiña en cada. E ala, que xa se pode vestir e cando estea, marche. E o tempo que me levou recompo-las mamas chafadas dentro do sostén. Nin cinco minutos. Tiña cita ás 16.30 e ás 16.43, aínda mirei para o reloxo do coche, estaba na saída de Vigo. Renégote pecado, esta sanidade pública xa non é o que era! Será que ven aí unha hecatombe.
Tanta presión non pode ser boa
Non hai moito lin na prensa que o tamaño do cranio humano diminuíu nestes últimos 30.000 anos, día máis día menos, nun dez por cento, o volume dunha pelota de hóquei. Disque isto non ten relación de proporcionalidade co cociente intelectual. Pola contra, parece que cada vez somos máis listos (uns máis ca outros, claro, a ver), até ao punto de conseguirmos o que ouvín hoxe nunha emisora seria de radio: que na Feira Mundial de Telefonía Móbil de Barcelona se anuncia un aparello sofisticadísimo que nos vai permitir coñecer até o noso estado de ánimo!!! (Case dou un pincho, non sei se tristeza se de alegría, que o móbil meu non é tan smart aínda para iluminarme ao respecto e eu... parva que sou.)
E digo eu que vale, que o tamaño tanto dará, pero non será que o cranio ao encoller nos oprime a miolada e nos impide pensar como é debido?
E digo eu que vale, que o tamaño tanto dará, pero non será que o cranio ao encoller nos oprime a miolada e nos impide pensar como é debido?
Simbiose
Antes que o día empezase, as previsións estaban anotadas na axenda. Só que as previsións nunca foron certeza. Por iso, se algunha parte do organismo sofre alteracións, os entes que o compoñen adáptanse, harmonizánse. Corpo e traballo actúan en simbiose obrigada. Unhas veces o traballo esixe un cambio de prazos. Outras, o propio corpo pídelle ao traballo demoras. Na tirapuxa acadan un compromiso.
Necesitámonos mutuamente. Ningún dos dous pode sobrevivir sen o parceiro. Se un de nós morre, haberá outros corpos, haberá outros traballos. Ningún deles será nós.
Necesitámonos mutuamente. Ningún dos dous pode sobrevivir sen o parceiro. Se un de nós morre, haberá outros corpos, haberá outros traballos. Ningún deles será nós.
domingo, 13 de fevereiro de 2011
Rutina
Pasou unha semana máis, e nesta tocoume rescatar do fondo do mar un tesouro da frota de Indias, desenmascarar unha rede de tráfico de drogas dirixida por militares estadounidenses no Panamá, asistir impotente á escena en que unha tarada, dunha puñalada polas costas, deixa un médico paralítico e a outra en que o machote do colega lle ve o cu á curuxa cando lle diagnostican un cancro de mama, acompañar un grupo de soldados españois durante un atentado en Iraq... O que mudou foi a temperatura, aí fóra, que arrefeceu.
Verdades coma templos
PANTALEÓN: Cando se che acaban os soños quédache a literatura.
Rubén Ruibal. Limpeza de Sangue. Xerais. 2006
sexta-feira, 11 de fevereiro de 2011
O meu rio
Isto aqui sou eu, meu, em versão intelectual. Se alguém se tivesse dignado a gravar-me num jogo de hóquei, como quem diz, enganchada pela roda dum patim a um arame que em forma de trampa de laço me prendeu e me fez cair, em consequência directa, de bruços ao chão e pernas ao ar, para susto dos meus colegas e desconcerto meu, então, meus queridos, é que iriam ver também a minha dentuça (intacta), os meus bíceps e mais os outros "eps" todos. Por enquanto, vejam lá ao fundo o meu rio, que é o único que merece a pena.
segunda-feira, 7 de fevereiro de 2011
Palavra poética
Cá está um besugo que diz que não gosta de poesia e eu só penso (se é "pensar" este fluir de ideias soltas que me acontece num lugar estranho dentro do corpo) que de três uma, ou duas, ou as três: ou ele nunca se lê, ou se se lê não gosta do que escreve (nada abonatório isto para os seus gostos, que já a tara pela bola prejudica bastante mas, enfim, ele é que vende o seu peixe), ou ignora o que é poesia, que nem precisa de ir em linhas quebradas para ser-se como nos seus esguichos é. E onde diz "ou", pode-se ler "e" sem que a ordem dos factores possa vir a alterar o produto nem a palavra poética. Ainda bem... também.
domingo, 6 de fevereiro de 2011
Zaragata matinal com nevoeiro ao fundo
É domingo de manhã (cedo) e, quando tudo prometia um pequeno-almoço tranquilo e triste, descubro que não há coisa melhor no mundo para bem acordar de repente do que partir em cacos de variado tamanho e grossura o jarrinho do leite...
quinta-feira, 3 de fevereiro de 2011
Autopsia
Cando o forense, para apurar as causas da morte, lle abriu as tripas a aquel monte de pel e ósos, encontroulle o estómago e os intestinos ateigados de recoñecementos enteiros, medallas trituradas, títulos de toda especie, varias palmadas no ombro, medios sorrisos e moitas, moitísimas boas palabras xa case ilexibles.
terça-feira, 1 de fevereiro de 2011
São úteis as mentiras piedosas? Artigo de Laura Ferreira dos Santos
“Venci o cancro!” O perigo das mentiras piedosas
O cancro é uma doença que se possa vencer, como uma gripe forte?
Público, 29 de janeiro de 2011
De vez em quando, em revistas da moda ou mesmo em jornais sérios, é dito que alguma personagem conhecida “venceu o cancro”, como se nunca mais se tivesse de preocupar com ele.
No entanto, a medicina sabe que só de pouquíssimos cancros se pode de facto dizer que estão curados. Quanto aos outros, está-se entregue à sorte ou ao que quer que seja. Daí a necessidade de exames de vigilância, pois ao cancro, de vez em quando, sabe-se lá porquê, apetece-lhe voltar. Uma das coisas que mais me impressionou nas leituras que fiz (e faço) sobre “morte assistida” (de que resultou o livro Ajudas-me a morrer?, 2009), foi (é) o facto de encontrar recorrentemente este facto: passados 7, 15, 20 ou 30 anos, o cancro voltou. Quando ainda não passara pela recidiva do cancro da mama, estremecia um pouco: será que...? Depois de ter passado pela recidiva, seis anos depois de o ter “vencido”, pergunto-me que mais mutilações estarão à minha espera e se estarei disposta a submeter-me a elas. Há pouco, uma óptima funcionária da minha Universidade disse-me que o cancro voltara a atingir a mãe, 26 anos depois. Mas, é claro, não estamos em tempos de lembrar a nossa mortalidade (e não é por causa da “crise”...) e temos de ficar pelas histórias cor-de-rosa. Mas serão úteis estas mentiras piedosas?
Para quem tem a sorte de nunca ter passado por um cancro, a ideia pode ser sedutora: “aquilo” é uma doença que se pode vencer, como uma gripe forte, e voltar-se à saúde anterior. Mas quem passou pela experiência do cancro e é metida num follow-up médico até ao fim da vida, ou até ele voltar de forma mais aguda e dar-lhe a morte, sente-se espantada e enraivecida, pois se essa vitória existe, porque é que vê os médicos assustados ou em pânico quando não faz exames regulares? E apetece então voltar ao poema do Messias de Händel e dizer, não O grave, where is thy victory?, mas O cancer, where is thy defeat?
Apetece-me mesmo falar das consequências políticas destas histórias cor-de-rosa, pois ajudam a construir uma sociedade dessolidária em relação a quem teve cancro ou ainda não morreu dele. Pior ainda se a “chaga” não se vê, se a pessoa, vestida, parece não ter qualquer deficiência e se move com aparente facilidade. Quem sabe então das dores que essa pessoa pode atravessar, quem se interessa por saber com que sequelas ficou, em que limbos físicos (para já não falar de outros) é que vive, apesar de o limbo ter sido abolido teologicamente pela Igreja Católica?
Há tempos, uma operária que também “venceu” o cancro da mama, falou-me em desespero da insensibilidade do patronato, que continua a colocá-la em serviços em que está constantemente a partir a prótese externa que usa (e que é cara!). Entendo que a minha jovem aluna me tenha admoestado quando comentei numa aula: “Como sabem, a prazo estamos todos mortos!” “Não diga isso, professora!”, disse ela. Chamada à realidade pelos colegas, o seu princípio de prazer ainda a fez defender-se: “Está bem, mas eu vou ficar para semente e desmentir essa frase!”. Mas deve a sociedade incentivar um tipo de pensamento semelhante?
Às 22h das sextas-feiras, quando uma colega minha que já teve cancro e recidiva sai dos complexos pedagógicos para lá voltar nas segundas, lembra-se sempre com ironia desta frase de “vitória”: como “venceu” o cancro por duas vezes, deve ser considerada mais forte do que qualquer outro colega. Por isso, deram-lhe o pior horário da semana, aquele que, em princípio, não consegue trocar com ninguém. O Victory, why is your taste so bitter?
O cancro é uma doença que se possa vencer, como uma gripe forte?
Público, 29 de janeiro de 2011
De vez em quando, em revistas da moda ou mesmo em jornais sérios, é dito que alguma personagem conhecida “venceu o cancro”, como se nunca mais se tivesse de preocupar com ele.
No entanto, a medicina sabe que só de pouquíssimos cancros se pode de facto dizer que estão curados. Quanto aos outros, está-se entregue à sorte ou ao que quer que seja. Daí a necessidade de exames de vigilância, pois ao cancro, de vez em quando, sabe-se lá porquê, apetece-lhe voltar. Uma das coisas que mais me impressionou nas leituras que fiz (e faço) sobre “morte assistida” (de que resultou o livro Ajudas-me a morrer?, 2009), foi (é) o facto de encontrar recorrentemente este facto: passados 7, 15, 20 ou 30 anos, o cancro voltou. Quando ainda não passara pela recidiva do cancro da mama, estremecia um pouco: será que...? Depois de ter passado pela recidiva, seis anos depois de o ter “vencido”, pergunto-me que mais mutilações estarão à minha espera e se estarei disposta a submeter-me a elas. Há pouco, uma óptima funcionária da minha Universidade disse-me que o cancro voltara a atingir a mãe, 26 anos depois. Mas, é claro, não estamos em tempos de lembrar a nossa mortalidade (e não é por causa da “crise”...) e temos de ficar pelas histórias cor-de-rosa. Mas serão úteis estas mentiras piedosas?
Para quem tem a sorte de nunca ter passado por um cancro, a ideia pode ser sedutora: “aquilo” é uma doença que se pode vencer, como uma gripe forte, e voltar-se à saúde anterior. Mas quem passou pela experiência do cancro e é metida num follow-up médico até ao fim da vida, ou até ele voltar de forma mais aguda e dar-lhe a morte, sente-se espantada e enraivecida, pois se essa vitória existe, porque é que vê os médicos assustados ou em pânico quando não faz exames regulares? E apetece então voltar ao poema do Messias de Händel e dizer, não O grave, where is thy victory?, mas O cancer, where is thy defeat?
Apetece-me mesmo falar das consequências políticas destas histórias cor-de-rosa, pois ajudam a construir uma sociedade dessolidária em relação a quem teve cancro ou ainda não morreu dele. Pior ainda se a “chaga” não se vê, se a pessoa, vestida, parece não ter qualquer deficiência e se move com aparente facilidade. Quem sabe então das dores que essa pessoa pode atravessar, quem se interessa por saber com que sequelas ficou, em que limbos físicos (para já não falar de outros) é que vive, apesar de o limbo ter sido abolido teologicamente pela Igreja Católica?
Há tempos, uma operária que também “venceu” o cancro da mama, falou-me em desespero da insensibilidade do patronato, que continua a colocá-la em serviços em que está constantemente a partir a prótese externa que usa (e que é cara!). Entendo que a minha jovem aluna me tenha admoestado quando comentei numa aula: “Como sabem, a prazo estamos todos mortos!” “Não diga isso, professora!”, disse ela. Chamada à realidade pelos colegas, o seu princípio de prazer ainda a fez defender-se: “Está bem, mas eu vou ficar para semente e desmentir essa frase!”. Mas deve a sociedade incentivar um tipo de pensamento semelhante?
Às 22h das sextas-feiras, quando uma colega minha que já teve cancro e recidiva sai dos complexos pedagógicos para lá voltar nas segundas, lembra-se sempre com ironia desta frase de “vitória”: como “venceu” o cancro por duas vezes, deve ser considerada mais forte do que qualquer outro colega. Por isso, deram-lhe o pior horário da semana, aquele que, em princípio, não consegue trocar com ninguém. O Victory, why is your taste so bitter?
Laura Ferreira dos Santos - Docente de Filosofia da Educação da Universidade do Minho e Membro da Comissão de Ética da ARSN (laura.laura@mail.telepac.pt)
segunda-feira, 31 de janeiro de 2011
Pecata minuta?
Eu pensei que iria ser triste coisa se um dia me tirassem o café. Digo, triste não, um drama, um drama trágico com assassínios não sei se em série se em massa e um suicídio, o meu, no fim, para burlar a efémera injustiça humana na estúpida esperança duma misericórdia divina eterna. Como em tudo o mais, enganei-me nos adjectivos.
Quase um ano depois que me fosse diagnosticada uma hipertensão assustadora (pena não vissem a expressão horrorizada do meu médico, que ia caindo fulminado perante a exorbitância das cifras com que me acusava o aparelho de pressão, porque a cena esteve a pique mesmo de ser engraçada), sobrevivemos todos os implicados na quase destruição do meu vício: o médico, que safou por um triz com um sorriso meigo de última hora; empregados de café que, nos primeiros dias da abstinência, traziam nos lábios a frase feita pelo costume ou até já no tabuleiro, ó torturante tentação impediosa!, a chávena pequenina sobre o pires, fumegante e aromática; a caixeira do supermercado que introduzia sem dó na máquina o código do sucedâneo desenxabido e a fila inteira de clientes desacautelados que nunca imaginaram o perto que estiveram de saírem do local sem pagar; eu própria e mais os meus cães, alminhas. Diga-se em honra da veracidade que, advertidos por diligência preventiva dos Serviços Sociais, já na mesma tarde da consulta passou um par da Guarda Civil na minha casa a requisitar as armas mortais todas, faquinhas de untar manteiga incluídas, e mais uns rebuçados suspeitosos de cor castanha que guardava numa gaveta com dobre fundo da secretária.
Com certeza, não renunciei ao da manhã. Reconheço para o meu desdouro, no entanto, que é esse apenas uma água chilra para iludir o olfacto, que me arranca dos lençóis e me conduz como autómato à cozinha numas horas em que ninguém suspeitaria que a alva, nem que seja toldada, possa vir a existir. Vedei-me, porém, os outros milhentos que ingeria ao longo do dia. Eis uma gaja com força de vontade, dirão vocês. E eu digo, não. Digo, eis uma senhora que deixou de ter umas dores de cabeça infames e sem causa até então explicável a acordarem-a mesmo nos dias santos.
Ora bem, isto aqui, o reino do meu corpo, não é fortaleza inexpugnável, antes tem na epiderme do desejo alguma fenda por que em noites extraordinárias, sem exageros, uma ou duas vezes por mês, como quem vai a um lupanar satisfazer os mais elevados instintos prévio pagamento, vence o pecado e peço, sem um tremor de mãos, um cafezinho, diminutivamente e em voz muito baixa, que me sabe à glória bendita. Eu aí fico embasbacada a sentir a fragrância entrar pelas narinas e atingir os capilares minúsculos que nem em dissecação ocular se vêem e noto os espinhos de dentro amolecerem e uma alegriazinha simples de viver mais um dia. E depois, a beberagem mágica enxota-me a soneira, como se tivesse no cérebro um anjo enjoado com o universo todo pelos esvoaçares monótonos que lhe calhou viver uma perpetuidade inteira, quer-se dizer a tempo completo, e consigo voltar a casa sem adormecer ao volante ou sobre o guidão da mota, facto que, julgo eu, contribui um bocado a amortecer a tragédia e à causa do mais um dia.
Quase um ano depois que me fosse diagnosticada uma hipertensão assustadora (pena não vissem a expressão horrorizada do meu médico, que ia caindo fulminado perante a exorbitância das cifras com que me acusava o aparelho de pressão, porque a cena esteve a pique mesmo de ser engraçada), sobrevivemos todos os implicados na quase destruição do meu vício: o médico, que safou por um triz com um sorriso meigo de última hora; empregados de café que, nos primeiros dias da abstinência, traziam nos lábios a frase feita pelo costume ou até já no tabuleiro, ó torturante tentação impediosa!, a chávena pequenina sobre o pires, fumegante e aromática; a caixeira do supermercado que introduzia sem dó na máquina o código do sucedâneo desenxabido e a fila inteira de clientes desacautelados que nunca imaginaram o perto que estiveram de saírem do local sem pagar; eu própria e mais os meus cães, alminhas. Diga-se em honra da veracidade que, advertidos por diligência preventiva dos Serviços Sociais, já na mesma tarde da consulta passou um par da Guarda Civil na minha casa a requisitar as armas mortais todas, faquinhas de untar manteiga incluídas, e mais uns rebuçados suspeitosos de cor castanha que guardava numa gaveta com dobre fundo da secretária.
Com certeza, não renunciei ao da manhã. Reconheço para o meu desdouro, no entanto, que é esse apenas uma água chilra para iludir o olfacto, que me arranca dos lençóis e me conduz como autómato à cozinha numas horas em que ninguém suspeitaria que a alva, nem que seja toldada, possa vir a existir. Vedei-me, porém, os outros milhentos que ingeria ao longo do dia. Eis uma gaja com força de vontade, dirão vocês. E eu digo, não. Digo, eis uma senhora que deixou de ter umas dores de cabeça infames e sem causa até então explicável a acordarem-a mesmo nos dias santos.
Ora bem, isto aqui, o reino do meu corpo, não é fortaleza inexpugnável, antes tem na epiderme do desejo alguma fenda por que em noites extraordinárias, sem exageros, uma ou duas vezes por mês, como quem vai a um lupanar satisfazer os mais elevados instintos prévio pagamento, vence o pecado e peço, sem um tremor de mãos, um cafezinho, diminutivamente e em voz muito baixa, que me sabe à glória bendita. Eu aí fico embasbacada a sentir a fragrância entrar pelas narinas e atingir os capilares minúsculos que nem em dissecação ocular se vêem e noto os espinhos de dentro amolecerem e uma alegriazinha simples de viver mais um dia. E depois, a beberagem mágica enxota-me a soneira, como se tivesse no cérebro um anjo enjoado com o universo todo pelos esvoaçares monótonos que lhe calhou viver uma perpetuidade inteira, quer-se dizer a tempo completo, e consigo voltar a casa sem adormecer ao volante ou sobre o guidão da mota, facto que, julgo eu, contribui um bocado a amortecer a tragédia e à causa do mais um dia.
sexta-feira, 28 de janeiro de 2011
Um porco e também pessoas
Na lagoa, a puxar pelos pés do porco de um lado para o outro, estavam dois putos caxineiros a nadar naquela porcaria como se fosse a piscina municipal. Boquiabertei total. Nadavam à pescador, de um modo desenrascado e trabalhador, capazes de ficarem com uma mão livre e pegarem em coisas na água atirando-as de um lado para o outro. Diziam: quando chegar aí acima vou-te matar.
valter hugo mãe. Excerto de "aprender com os animais". 27 janeiro de 2011. Texto escrito para a sessão Caxinas para Capital das Quintas de Leitura do Teatro do Campo Alegre
Era assim: como se estivéssemos no mar, vagas de luz numa tela inventada, e houvesse uma sereia que nos encantasse ao piano, a gente rastejava com a cabeça (cada pessoa a sua) bem levantada, cobras enfeitiçadas éramos, como quem fareja no sal do ar o cheiro da terra sem sucesso, como quem perscruta na espuma duma onda que rebentou areais de praia e palmeiras ou eucaliptos. Havia também sobre o quadrado azul de lagoa em calma ―porco nenhum à vista, menos morto― poltronas dum cinema-teatro antigo para os corpos magros dum tempo em que se distraía a fome adolescente em filmes de motoristas e senhoras insaciáveis. E havia mais, havia redes em que nos deixávamos pescar, como caranguejos tóxicos, simpáticos e inocentes, com um sorriso nas bocas desdentadas de que a natureza nos não dotou para modelarmos a irreverência das gargalhadas. Das poltronas nasciam vozes que desenhavam a nostalgia duma infância de medos assustadores em território ignoto, aquelas selvas de monstros (porcos ou gente) e a mais terrível puberdade de que um velhote perseguidor tinha saudades. Fartámo-nos de rir.
No intervalo saiu o pessoal à rua a apanhar fumo e frio e vistos de dentro através da vidraça, os braços bem colados ao abrigo, os pés saltitantes, eram peixes que abriam muito a boca à procura dum sonho ou de plâncton. Entre o interior e o exterior gerava-se, a despeito da temperatura, uma trasfega de copinhos com um líquido que pelo cheiro que ia semeando em volta e a cor de madeira nobilíssima e envernizada se diria o vinho que os ingleses chamam de port e bebem como se deles fosse.
Ainda mais tarde acabei por pensar que a felicidade (haja quem me gabe a paciência, que eu hei-de gabar a de vossas excelências) era ali, a ouvir um gajo de barbas em rosto de criança e olhos maduros, voz e piano fundidos como se ele e o instrumento fossem o mesmo animal vivo, que até me apeteceu chorar e só no chorei por não sorver forte e feio o ranho ou estragar a maquilhagem. Iludi as lágrimas com o mar azul sulcado de algas vermelhas que assomava à parede, também o calidoscópio camaleão, que me regressava a um estado de embriaguez sentimental e mansa em que a felicidade era mesmo ali, entre histórias de música, pedidos de casamento sem hora nem medida, cuspidelas (ou coisa pior) desde o poleiro e um porco morto, inchado e imperfurável de tão duro, a boiar na memória.
quinta-feira, 27 de janeiro de 2011
Meios de subsistência
Calhou-me uma semana poética. Terça foi na Fundacão Cupertino de Miranda em Famalicão com o Isaque Ferreira e a Ana Deus de dizentes. Esta noite há no Porto sessão das Quintas de Leitura com o valter hugo mãe. E ainda sábado, aqui/aí em Cerveira, na Porta Treze, um acto em volta do Eugênio de Andrade. Para equilibrar em prosa, fui agora às compras de víveres e investir na aposta semanal única de quinta e sábado da lotaria primitiva.
quarta-feira, 26 de janeiro de 2011
A rapaza pálida (divertimento)
A rapaza que pasa as páxinas da partitura ao pianista é pálida. Por veces, unhas poucas apenas, permítese un palpitar no peito, que pronto reprime, penso, por pudor, e pugna por imprimir ao rostro, héctico, unha actitude estática, estatuaria, de estética tan estrita canto críptica, inescrutable. Le nas lendas e logo, lánguida, louro o cabelo abala e se alza, leva lentamente a man alada, aloumiña o limbo foliar, tal que linda lencería lene e leve. Olla de esguello ao vello mestre e ao seu tácito explícito xesto, presta, pasa a páxina da partitura e recompón a pousada posición do corpo como pantasma a rapaza pálida.
terça-feira, 25 de janeiro de 2011
166 dias de ascensão gradual
Folgo imenso hoje em saber que ontem foi o dia mais deprimente do ano. Não fosse esta fortificante notícia a alegrar-me a manhã, tinha a cabeça enfurnada entre os lençóis e o travesseiro, o despertador emudecido em cacos no canto mais lúgubre do quarto, uma apatia de não levantar nem corpo nem ânimo, um desleixo agudo na higiene física e mental (escovam-se os dentinhos, lêem-se os jornais), talvez mesmo uma inapetência sólida contra o café único e pródigo do pequeno-almoço (e as suas torradinhas, os gomos carnudos da tangerina e a fragrância expansiva da casca nos dedos, a liquefeita laranja e os figos secos), nem escancarava as janelas (segundo e meio, que está frio polar lá fora) para arejar os ouvidos. Ainda bem, para o meu contento matinal, há quem empenhe os neurónios ou a falta deles em arquitectar a fórmula da infelicidade. Até ao 20 de junho depara-se-me um sorriso in crescendo e ramalhetes de sempre-vivas a desabrochar nas orelhas. Na altura tratar-se-á de arranjar para-quedas.
segunda-feira, 24 de janeiro de 2011
A culpa da morte do gato
Foi polos do coche, non teño dúbida. Un coche de tarde, no camiño apartado sen saída, en sombra, polo que adoito pasear, á beira do río, onde nunca me cruzo con ninguén. Entrevín através dos amieiros un coche ao fundo. Unha parelliña, pensei. E vou pasar eu a incomodalos? E para máis que teño forzosamente que regresar polo mesmo sitio? Déixaos estar felices. Asubiei para os cans, que deron volta, antes que lles fosen mexar nas rodas, e desandamos. Desviámonos á pista asfaltada ata os invernadoiros. Xa nin sei se era sábado de tarde, se domingo, porque non había xente a traballar. Logo fomos vindo de volta. Nisto que a cadela fuxiu, de golpe, para os ameais. Sentíaa ladrar xunto ao regueiro, case histérica. E eu enteira, histérica, cheirando a gatada. Había gato. Gato mesmo, con patas e bigodes e rabo. E vida. Nin me deu tempo a reaccionar. O can intuíu o mesmo ca min e saíu, toda a artrite esquecida, en dirección aos ladridos. Silencio. Mal asunto, souben. A cadela traía o gato afogado na boca, como un trofeo, o rabo a abanar, toda farruca. Pousouno no chan, deulle co fociño, un algo resentida de que non mexese, o xoguete roto, duráralle pouco. Regresamos presos os tres pola correa, para a casa, os cans e eu, as orellas gachas, o gato mollado, mortísimo, abandonado entre a millaxe seca, seca coma a miña gorxa, que rosmaba e renegaba a rabia de matacáns de palabra (mátovos, mátovos, un día destes mátovos, xuraba en falso). Até que logo dei para aliviar, largando remorsos fóra, a culpa toda dos do coche é que é. Debinlles foi chimpar o gato morto pola fiestra dentro, que fosen botar o canivete para un hotel, mecagoentodo, ou para o baño dun restaurante. Aínda me doe o animal e estas bestas miñas con esa cara de inocencia, de quen non partiu nunca un prato, digo, un gato.
domingo, 23 de janeiro de 2011
O alén no aquén
Cóntasenos unha historia con tres protagonistas cuxas vidas se cruzan nunha feira do libro.
A primeira é unha parisiense como os barquillos, bonita e rica, de vacacións nun hotel de luxo de coma quen di a Indonesia ou para esas partes, que se ergue da cama en que supostamente cohabitou co amante e se viste simple e monísima, a porcona, xa non sen dar unha ducha senón sen sequera lavar... os ollos con dous dedos. Só que axiña, en cuestión duns longuísimos segundos, se comprende a falta de hixiene: había ser moita auga para un só día. E no silencio da sala dous, os espectadores engolen cuspe coma quen fecha a boca en banda à forza da onda xigantesca, nin un disimulado triscar de pipocas ou sorbo de coca-cola que quebre o feitizo brutal da escena.
O segundo échevos un sanfranciscano de toda a vida que tenta fuxir dos poderes sobrenaturais que adquiriu de neno, tras estar cun pé aquí e outro alá por causa dun raio dunha encefalomielite. Os tales poderes permítenlle establecer contacto cos que morreron, polo que podía estar podre de cartos choiando de médium, pero el prefire durmir tranquilo arrolado nas audio-novelas de Dickens e gañar o pan con queixo dando paseos nunha carretilla elevadora por unha refinería de azucre. Até que un día, cousas da restruturación laboral, o poñen no ollo da rúa por non ter can que lle ladre, isto é, muller e prole que manter.
O terceiro é un raparigo de ascendencia irlandesa que vive en Londres, fillo de nai solteira amantísima (unha heroinómana que tamén anda algo metida no briol, á que unha parella dos Servizos Sociais acosa implacable para retirarlle a custodia), calado e serio, un punto túzaro, que asiste á retransmisión vía móbil da morte por atropelo do seu irmán xemelgo ou, o que é o mesmo, dunha parte fundamental de si. A busca teimosa dun elo co finado do seu outro eu acabará por desencadear unha conexión case eléctrica, faíscas e sacudida incluídas, entre vivos. E malia o final, que é deses previsibles e felices que tanto detesto, a película déixase ver ben a gusto.
A primeira é unha parisiense como os barquillos, bonita e rica, de vacacións nun hotel de luxo de coma quen di a Indonesia ou para esas partes, que se ergue da cama en que supostamente cohabitou co amante e se viste simple e monísima, a porcona, xa non sen dar unha ducha senón sen sequera lavar... os ollos con dous dedos. Só que axiña, en cuestión duns longuísimos segundos, se comprende a falta de hixiene: había ser moita auga para un só día. E no silencio da sala dous, os espectadores engolen cuspe coma quen fecha a boca en banda à forza da onda xigantesca, nin un disimulado triscar de pipocas ou sorbo de coca-cola que quebre o feitizo brutal da escena.
O segundo échevos un sanfranciscano de toda a vida que tenta fuxir dos poderes sobrenaturais que adquiriu de neno, tras estar cun pé aquí e outro alá por causa dun raio dunha encefalomielite. Os tales poderes permítenlle establecer contacto cos que morreron, polo que podía estar podre de cartos choiando de médium, pero el prefire durmir tranquilo arrolado nas audio-novelas de Dickens e gañar o pan con queixo dando paseos nunha carretilla elevadora por unha refinería de azucre. Até que un día, cousas da restruturación laboral, o poñen no ollo da rúa por non ter can que lle ladre, isto é, muller e prole que manter.
O terceiro é un raparigo de ascendencia irlandesa que vive en Londres, fillo de nai solteira amantísima (unha heroinómana que tamén anda algo metida no briol, á que unha parella dos Servizos Sociais acosa implacable para retirarlle a custodia), calado e serio, un punto túzaro, que asiste á retransmisión vía móbil da morte por atropelo do seu irmán xemelgo ou, o que é o mesmo, dunha parte fundamental de si. A busca teimosa dun elo co finado do seu outro eu acabará por desencadear unha conexión case eléctrica, faíscas e sacudida incluídas, entre vivos. E malia o final, que é deses previsibles e felices que tanto detesto, a película déixase ver ben a gusto.
E se somos todos fabuladores?
But what if we are all fictioneers, as you call Coetzee? What if we all continually make up the stories of our lives? Why should what I tell you about Coetzee be any worthier of credence than what he tells you himself.*
Sophie en Summertime de J. M. Coetzee.
A nada do que se diga sobre el, nin sequera ao que el diga de si, se deberá dar creto. Xa en Mocidade o advertía explicitamente nunhas palabras de que eu me apropiei e andan por aí, como aviso serio a navegantes sobre o que aquí se escribe ou cala, á vosa dereita.
Tomando como centro o período en que John Coetzee acada a idade adulta, Verán é o pretexto para retratar a sociedade branca da África do Sur da década de 1970. Un estudoso ficticio da vida de John Coetzee tenta elaborar unha biografía póstuma que non calla a partir de entrevistas a cinco persoas que o coñeceron nesa época e mais algunha papelada que deixou o escritor presuntamente xa falecido. O coro a seis voces fala da soidade, a morte, a vellez, a enfermidade, a eutanasia, a incapacidade de amar ou de expresar o amor, as relacións familiares e laborais, o apartheid, o compromiso político, o conflito da conciencia entre o sentimento de culpa e o apego a un territorio roubado. E tamén da música.
[Eu poida que perdese o sentido do humor, pero o único que me parece "funny" do libro son as apreciacións do crítico do Observer que colocaron na capa como reclamo. Ende ben, non o mercara precisamente por iso.]
_________________
* Pero e se somos todos fabuladores, como chama vostede a Coetzee? E se todos inventamos decontino as historias da nosa vida? Por que vai ser máis digno de creto o que eu lle conte sobre Coetzee ca o que lle conte el?
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quinta-feira, 20 de janeiro de 2011
quarta-feira, 19 de janeiro de 2011
Loito
Habitaba o último andar e tiña o home embalsamado na sala. Aos sábados, fundido nas tebras o luscofusco, revivía o velorio. Abría a casa de vagabán e ofrecía licores e pastas variados, de elaboración propia, aos veciños do edificio, que aliviaban a soidade en troca de catro bágoas escorrichadas polo tan bo que fora, as oracións murmuradas de cor e os contos de defuntos e aparecidos. Contra o abrente, despedíanse e baixaban as escaleiras para cadanseu tobo, o xesto digno a disimular sobre as pernas cambaleantes a lascarda de alcol e sono. Ela fungaba os mocos, tapaba o caixón, desentornaba as fiestras e puña baixiño un cedé de boleros.
terça-feira, 18 de janeiro de 2011
segunda-feira, 17 de janeiro de 2011
Às voltas com o testamento vital (ainda) IV. Entrevista a Laura Ferreira dos Santos. Antena 1
Em 17 de janeiro de 2011
domingo, 16 de janeiro de 2011
sábado, 15 de janeiro de 2011
A paixão de amar
"Eu já não temo a morte. Sou um homem livre".
Irmão Luc em Dos homens e os deuses.
Pedira um pingo ao balcão no café do hotel. Gosto de entrar ali. Tão asséptica a sala. Tanta luz. Quase ninguém ou ninguém. Ler qualquer coisa na espera. Se calhar até foi de aí que veio a boa disposição, do café, da espera, da luz. Sabia, aliás, que iria gostar do filme. O espírito. O canto-chão e a polifonia: sob um céu variável a estupidez assassina e o amor infindo a um não-ser que é todos os seres. Eu já pensei alguma vez, desta altura, que marchar era morrer, quando se habita na vida, mesmo que sejam de barbárie os sinais, tenebrosos, irracionais como o homem às vezes é mesmo no nome duma promessa talvez improvável. A insónia povoa a noite se o medo se instalou nas paredes internas do corpo e as rói, se a gente se fez rama para os pássaros pequeninos, cedro firme e sólido que aspira às alturas com as raízes em terra. Mas aprende-se a conjurar com a oração e o calor dum abraço colectivo o estrondo da águia impiedosa que paira e ameaça e defende o seu espaço próprio de terror... E na chuva, na paisagem, reconhece-se o caminho que se escolheu. Há uma derradeira ceia em que se partilha um vinho enquanto um cisne morre, o mais belo canto da paixão de amar, e transforma o sorriso em lágrimas.
Está no fim a neve, essa frialdade dos corações, essa beleza de postal em que se traça a esteira das mortes inúteis.
sexta-feira, 14 de janeiro de 2011
quinta-feira, 13 de janeiro de 2011
E na dúbida é onde está a incerteza
Ou senón como é que eu hoxe ―un día que na radio afirman despexado e que eu vexo espreguizar no tan prolongado ton cincento, logo aínda vou lavar outra vez as lagañas e os lentes non sexa iso― teño de resolver un dilema que me desasosega o sono desde hai unha semana: partido de hóquei na aldea ou Poemas com Cinema no Porto? E así dígome, argumentando, que sobran días para bater co estique na bóla (e, tamén, onde non se quixo, perdón, puxeras caneleiras, cun pouco de xeo pasa logo ou cunha saquiña de ervellas conxeladas, e salvácheste que foi en óso) e faltan momentos e ansias de ouvir, coma quen di, xente que fale. E retrúcome deseguida, ou rebátome, que estreo estique (os Reis Magos portáronse), que hai tres semanas que non xogo, que son douscentos quilómetros e a merda das portagens a cargar sobre a miña conta des-corrente e que a estas idades provectas a miña carreira deportiva é sempre a recú. Total, que nada, restan sete horas para a decisión definitiva e eu non sei se o bote a sortes ou a azares.
Apelo
Alguém me explica porque tenho de estragar o meu talento em filmes do Jackie Chan?*
Um dia destes saio à rua a manifestar-me... como avantesma.
*A poesia alimenta mas não engorda, será isso.
Um dia destes saio à rua a manifestar-me... como avantesma.
*A poesia alimenta mas não engorda, será isso.
quarta-feira, 12 de janeiro de 2011
O que se fai con palabras
...si he de morir quiero morirme vivo y no muerto de antemano...
Non dubido que quen lle roubou o bolso no tren sabía o que contiña. A ela nin lle importou a perda da carteira, cos cartos e a documentación, nin quedar sen lentes de sol, nin sen a muda que levaba para un imprevisto, agradable ou desagradable. Chegada ao destino, apeouse na brasa á procura dunha librería, rogando e renegando, que houbese, portódolosantos, un exemplar. Iso foi, máis ou menos, o que me contou cando lle comentei exultante que descubrira na biblioteca de miña nai unha novela que me tiña enganchada e apaixonada. Eu levaba anos contemplando o título no lombo sen que me seducise e era das escasas novelas que foron de miña nai que aínda non lera. Pero os meses de novembro e decembro foron de secura laboral e andaba a contar nos patacóns, que nunca se sabe o que o mañá non traerá. Así que dixen, en fin, a ver de que vai isto. E xa non o larguei. Sabedes esas historias que non queremos que terminen nunca, nas que o que menos importa é o final porque hai un mundo debuxado en cada frase, que avanzan e recúan, desenguedellándose as poucos, sen un gramo de palla que sobre e unha riqueza de vocabulario que mete gana de mastigar as palabras?
Yo escucho las palabras de Mágina, las de los hortelanos y los aceituneros, las que aprendí de mis padres, y me doy cuenta de que muy pronto desaparecerán porque ya casi no existen las cosas que nombraban, igual que han desaparecido los romances de saltar a la comba y las cantilenas amenazadoras de los juegos porque ya no quedan niños en el barrio de San Lorenzo que se asusten de la Tía Tragantía o de la momia de la Casa de las Torres: también en las palabras soy un extranjero y un advenedizo, he perdido las que me legaron y el acento con que me enseñaron a decirlas y no acabo de aceptar como mías las que aprendí después, vivo entre ellas y de ellas pero me son ajenas y no pueden explicarme que tal vez me rechazan igual que las miradas claras y frías de la gente que se cruza conmigo en las ciudades adonde quise huir cuando tenía quince años.
Antonio Muñoz Molina. El jinete polaco. 1991
Amarração
Sinto um fascínio um nada lógico pelas sugestões que, peneirados os textos das cartas, me oferece, de balde e em balde, o servidor do correio electrónico. Num dia destes calhou um que dizia (sic): "Trabalhos espirituais: Amarração, Afasta rival, Magias poderosas, traga o seu amor definitivo...". E não sei o que me chocou mais: se que os trabalhos fossem espirituais (seria também espiritual o pagamento, ou material, pecuniário ou pecuário, carnal...?), se a questão da "amarração", se a ausência de concordância na redacção, se as vírgulas, se as maiúsculas ora sim ora não. Só faltou lá o caldo de aranha. Mas, definitivamente, foi a amarração que me prendeu.
Vá lá, não neguem que ficaram curiosos por saber o que eu tratava nessa carta para receber tal sugestão. Lamento, é privado. Até aparecer uma mail-leaks qualquer, claro.
terça-feira, 11 de janeiro de 2011
Torradas de mel e azeite
A vida das abelhas é fascinante... para quem a estuda. Eu li na primeira adolescência um livro sobre elas (dá para um livro, pois, e não era magro, nem um tijolo, por isso), quando ainda me sonhava etologista. Acabei filóloga armada em tradutora, mas continuo a lembrar a dança das abelhas... ao pequeno-almoço.
segunda-feira, 10 de janeiro de 2011
Do meu ser não-ignorado e ignorante (e do Manuel Bandeira)
Arnaldo Saraiva, no interior da Porta Treze, debulha a "Poética" do Manuel Bandeira
Em convite a-solene animaram-me a entrar para a Porta Treze, mas quando fui tirar do armário o manto da invisibilidade para alindar-me num desaparecimento ténue, descobri que as traças deram (boa) conta dele e apenas uns fios, como raros cabelos de múmia pré-histórica e voraz, baloiçavam no cabide. E eu disse, ora, tem de ser. E foi. Fui, digo, como eu sou, de mínimo corpo inteiro. E já encontrei ali, na rua, afincado contra a parede dum treze inexistente que se fez real o Nuno Higino, apresentei-me, que eu sou quem sou e tal, e trocámos sorrisos, claro, claros. E logo a seguir estava o Antero, o professor que não me deixa chamá-lo de professor, ainda sendo ele professor mesmo, na mesma, e nem meio passo mais à frente as mãos fortes e os olhos luminosos do Luandino a acolher-me. Aí eu pensei, lúcida, será que as traças foram criadas há milénios para um fim concreto na minha vida?
Com certeza, eu estou a falar aqui de mim, este é o meu diário. Por isso irei também notar que permaneci quieta, a casa do cérebro este de portas e janelas escancaradas, a ouvir e ver como o Arnaldo Saraiva debruçava de palavra e gestos a sabedoria dele em volta do Manuel Bandeira sobre a minha ignorância, essa que quero conservar sempre para sempre e a cada pouco espantar-me na felicidade do muito que ainda, hoje e amanhã, tenho para aprender.
Poética
Estou farto do lirismo comedido
Do lirismo bem comportado
Do lirismo funcionário público com livro de ponto expediente
protocolo e manifestações de apreço ao Sr. Diretor.
Estou farto do lirismo que pára e vai averiguar no dicionário o
cunho vernáculo de um vocábulo.
Abaixo os puristas
Todas as palavras sobretudo os barbarismos universais
Todas as construções sobretudo as sintaxes de excepção
Todos os ritmos sobretudo os inumeráveis
Estou farto do lirismo namorador
Político
Raquítico
Sifilítico
De todo lirismo que capitula ao que quer que seja fora
de si mesmo
De resto não é lirismo
Será contabilidade tabela de co-senos secretário
do amante exemplar com cem modelos de cartas
e as diferentes maneiras de agradar às mulheres, etc.
Quero antes o lirismo dos loucos
O lirismo dos bêbados
O lirismo difícil e pungente dos bêbedos
O lirismo dos clowns de Shakespeare
―Não quero mais saber do lirismo que não é libertação.
Manuel Bandeira
domingo, 9 de janeiro de 2011
Às voltas com o testamento vital (ainda) III. O livro de Laura Ferreira dos Santos
Um testamento para o pluralismo moral
(Pré-publicação no Público de 8 de janeiro de 2011)
A investigadora Laura Ferreira dos Santos propõe em Testamento Vital – O que é? Como elaborá-lo?, da editora Sextante, uma reflexão prática sobre as questões ligadas ao final da vida. Dia 13 nas livrarias
Neste ano de 2010 transcorrem vinte anos sobre o famoso Patient Self-Determination Act, que, como se explicitará melhor mais adiante, obrigou todas as instituições de saúde americanas que recebem financiamentos públicos a informarem os utentes que os procuram da possibilidade de elaborarem uma Directiva Antecipada.
É também neste ano de 2010 que transcorrem vinte anos sobre a morte de Nancy Beth Cruzan, em estado vegetativo persistente durante quase oito anos, caso famoso e o único, neste âmbito, que chegou ao Supremo Tribunal dos Estados Unidos. Apenas tendo em atenção este estado clínico, refira-se ainda que, neste mesmo ano de 2010, transcorrem vinte e cinco anos sobre a morte de Karen Ann Quinlan, em estado vegetativo persistente durante dez anos (1975-1985), cinco anos sobre a morte de Terry Schiavo, em estado vegetativo persistente durante quinze anos (1990-2005), e quase dois anos sobre a morte de Eluana Englaro, em estado vegetativo persistente durante dezassete anos (1992-Fevereiro de 2009). Todos estes casos tristemente famosos de mulheres inicialmente muito jovens trouxeram, de uma forma ou outra, grandes problemas para os pais e para os tribunais. Quase com toda a certeza, estas jovens não teriam ficado todo este tempo nesta situação clínica de limbo se tivessem atempadamente elaborado um Testamento Vital (ou, sob outra designação, uma Directiva Antecipada).
Voltemo-nos agora para Portugal. Gradualmente ―e mesmo sem ter feito qualquer estudo estatístico a este respeito―, fui-me apercebendo do grande desconhecimento que a nossa população evidencia em relação ao que neste país se foi convencionando chamar Testamento Vital, mas que, mais propriamente, deveria ser designado como Directivas Antecipadas de Tratamento (opção deste livro, adiante explicitada), ou Directivas Antecipadas de Vontade. Bastava ler alguns artigos de jornal, participar em certos programas de televisão, dar uma ou outra entrevista sobre o assunto, para ver que, efectivamente, o desconhecimento era grande, ao ponto de se confundir a legalização destas Directivas Antecipadas com a despenalização da morte assistida (eutanásia e/ou suicídio medicamente assistido).
Depois de, em Julho de 2009, ter sido retirado o Projecto de Lei no 788/X que o grupo parlamentar do Partido Socialista apresentara ao Parlamento e que, numa das suas partes, contemplava estas Directivas, fiquei à espera que outro Projecto fosse apresentado no Parlamento, desta vez inteiramente voltado para elas, pela importância de que se revestem. Não tendo vislumbrado interesse, disponibilidade ou tempo por parte dos Partidos para retomarem o processo, senti que a existência de um livro que ajudasse os cidadãos e as cidadãs a tomarem consciência da importância deste assunto, ao mesmo tempo que lhes fornecia instrumentos práticos para, um dia, fazerem a sua própria Directiva Antecipada, era um contributo importante que podia dar à democracia portuguesa. De facto, a meu ver, tornar os cidadãos mais “reflexivos” (cf. Ulrich, 1999: 80) em relação às questões do morrer e da morte, tornando-os assim também mais conscientes dos direitos e das escolhas que podem ter em fim de vida, é uma forma de aumentar o seu empowerment ou “capacitação”. E uma democracia só pode ganhar em ter cidadãos conscientes das suas escolhas e que lutam por elas, escolhas que estejam de acordo com as suas agendas de valores, não permitindo que, ainda por cima em assuntos tão íntimos como são estes do morrer e da morte, agendas de valores estranhas às suas lhes sejam impostas.
Por mais que alguns e algumas não o queiram, o nosso mundo ocidental vive em sociedades seculares pluralistas. Quer isto dizer que as nossas sociedades não se encontram enfeudadas à defesa de uma qualquer ortodoxia religiosa, possibilitando a defesa de várias concepções de vida que não ponham em causa a liberdade de actuação dos outros. Em 11 de Fevereiro de 2007, o constitucionalista português Vital Moreira escrevia, de uma forma simultaneamente irónica e condensada, que “Laicidade… é quando o Código Penal deixa de imitar o Código de Direito Canónico” (Moreira, 2007).
Nos finais de 1979, esta ideia de termos entrado numa época muito diferente das anteriores apareceu traduzida no título de um livro de Jean-François Lyotard: La condition postmoderne. Segundo este autor, em virtude de razões várias, tinha já soado o toque a finados pelas grandes metanarrativas, pelos grandes sistemas de valores que até aí tinham confortado as pessoas na ideia de que viviam com segurança e sem sobressaltos dentro de uma visão do mundo sem brechas, quer se tratasse de metanarrativas religiosas, políticas ou filosóficas. O que se seguia daí? A hipótese de a actuação e o pensamento performativos ganharem a primazia, actuações e pensamentos apenas regidos pelo que Habermas designaria de razão instrumental, interessados apenas na melhor relação de eficácia entre os input e os output. Mas, por outro lado, não ficando nós abafados pela performatividade, seguir-se-ia a impossibilidade de um qualquer metadiscurso anular, traduzir ou subsumir nele as múltiplas pequenas narrativas que os seres humanos vão constituindo com as suas vidas. Haverá então heteromorfia entre os diversos jogos de linguagem utilizados, havendo também, por isso, ocasião para o aparecimento de diferendos. Neste contexto, a democracia terá obrigatoriamente de se abrir para a controvérsia e a incerteza, não como se esse fosse um destino trágico, mas reconhecendo que, de facto, só desse modo se cumpre como verdadeira democracia respeitadora das diversas diferenças razoáveis existentes dentro dela e, consequentemente, também das diversas narrativas pessoais razoáveis que as pessoas nela vão construindo. Neste sentido, afirma John Rawls que o facto de haver pluralismo razoável é a feliz realidade em que nos movemos, pois é assim que a razão prática funciona quando se move dentro de instituições tendencialmente livres (...).
Vivendo nós em sociedades seculares, o pluralismo moral é inevitável: não há uma única concepção de bem, ou do que deve ser uma vida “decente” ou moralmente correcta, não há uma única concepção do que os ingleses designam como uma good life, não há agora lugar para uma visão moral canónica, no sentido de ser indiscutível e de a todos dever abranger. Por isso, tão-pouco há lugar para a imposição pela força de uma qualquer moral, pois as concepções de bem divergem. Logo, também não há direito a impor pela força um qualquer estilo de vida e de morte, com óbvias repercussões no domínio do fim de vida, ou em situações graves de saúde. Já são muitos a pôr em causa a facilidade com que a classe médica se inclina a dizer que pretende sempre o melhor bem da pessoa doente, quando apenas conhece a sua história clínica, e desconhece completamente (e, por vezes, de forma sobranceira) a sua narrativa pessoal de valores.
Numa época de tanto desenvolvimento ao nível dos cuidados de saúde, nem sempre é fácil identificar o que é fazer bem ou mal à/ao doente. De uma forma notável e simples, o conhecido médico e filósofo H. Tristan Engelhardt, cristão ortodoxo convicto, mas que visa assumir até ao fim as consequências de um pluralismo moral inevitável vivido na contemporaneidade, escreve que a tradicional Regra de Ouro que nos vem do Cristianismo ―“Faz aos outros o que queres que te façam a ti”― não pode ser aplicada de modo cego a todos os seres humanos com quem convivemos, sob pena de se transformar numa regra de intolerância e desrespeito. Como as agendas de valores e expectativas diferem por vezes de modo radical, a Regra de Ouro da beneficência só pode ser: “Faz aos outros o que eles gostariam que lhes fizessem, mesmo que não concordes com as suas opções.” No fundo, dir-se-ia que só a ininteligibilidade absoluta desse “bem” que o outro pretende, ou, de forma diferente, a nossa impossibilidade radical de o ver como “bem” (um suicídio impulsivo, por exemplo), nos pode impedir de também querer o que o outro considera ser o “seu” bem. Como escreve Engelhardt, “Poderemos […] ser proibidos pelo princípio do consentimento de fazer aos outros o que consideramos o seu bem, mas que eles consideram prejudicial” (Engelhardt, 1998: 147).
É neste contexto amplo, ético-filosófico e político, que a temática das Directivas Antecipadas deve ser inserida, temática que já tem dado origem a muita literatura em países estrangeiros (...).
Como se dirá a seguir (...) cada concepção de Directiva Antecipada revelará as economias específicas de verdade, valor e poder de que deriva. Não se trata, pois, de uma mera questão “técnica” ―deixar antecipadamente por escrito as nossas disposições quanto a tratamentos, quando já não tivermos capacidade para o fazer, ou indicar e instruir um/a nosso/a representante ou procurador/a de cuidados de saúde que, nessas circunstâncias, fale em nosso nome, segundo as nossas opções. Não se trata tão-pouco de uma mera questão do chamado biodireito, embora ele tenha aqui um papel importante, tanto mais quanto revelará sempre enquadrar-se em determinada biofilosofia ou biopolítica, ou seja, numa determinada concepção do que é o “governo dos corpos”, dando respostas diferenciadas à pergunta sobre a quem pertence a nossa vida (...). Fundamentalmente, trata-se de, perante graves situações de saúde, respeitar a noção de dignidade que cada um tem, aceitar que, perante a doença grave ou a grave diminuição da qualidade de vida, tanto é legítima a esperança fundada da pessoa doente, como a sua desistência igualmente fundada. O que não é legítimo é tentar impor-lhe uma agenda de valores que não é a sua, mas dos seus familiares ou profissionais de saúde, ainda por cima aproveitando-se então da sua situação de vulnerabilidade. Por isso, como nos diz Lawrence P. Ulrich, “Minimizar ou não atender a um sistema de convicções considerando-o ‘inapropriado’ viola a dignidade da pessoa doente, pois ataca uma das forças centrais que permite aos indivíduos orientarem e administrarem as suas vidas” (Ulrich, 1999: 91).
Dentro deste enquadramento ético-filosófico e político (...) que pretende respeitar ao máximo a diversidade de agendas narrativas pessoais, procederei etsi Deus non daretur (como se Deus não existisse). Ao proceder deste modo não estou a limitar a liberdade das/os crentes, mas estaria a limitar a dos/as não-crentes se lhes apresentasse uma orientação de Directivas Antecipadas que apenas tivesse em causa ensinamentos de uma qualquer religião. Para mim, uma Directica Antecipada concreta, precisamente para respeitar a variedade de agendas valorativas pessoais, deve possibilitar que o cidadão, em situação de incapacidade, recuse o que já pode rejeitar quando capaz, e não estar dirigida apenas para situações próximas da morte. (...)
____________________________
Testamento Vital. O que é? Como
elaborá-lo?
Laura Ferreira dos Santos
Sextante Editora
240 págs., 15,90€
(Pré-publicação no Público de 8 de janeiro de 2011)
A investigadora Laura Ferreira dos Santos propõe em Testamento Vital – O que é? Como elaborá-lo?, da editora Sextante, uma reflexão prática sobre as questões ligadas ao final da vida. Dia 13 nas livrarias
Neste ano de 2010 transcorrem vinte anos sobre o famoso Patient Self-Determination Act, que, como se explicitará melhor mais adiante, obrigou todas as instituições de saúde americanas que recebem financiamentos públicos a informarem os utentes que os procuram da possibilidade de elaborarem uma Directiva Antecipada.
É também neste ano de 2010 que transcorrem vinte anos sobre a morte de Nancy Beth Cruzan, em estado vegetativo persistente durante quase oito anos, caso famoso e o único, neste âmbito, que chegou ao Supremo Tribunal dos Estados Unidos. Apenas tendo em atenção este estado clínico, refira-se ainda que, neste mesmo ano de 2010, transcorrem vinte e cinco anos sobre a morte de Karen Ann Quinlan, em estado vegetativo persistente durante dez anos (1975-1985), cinco anos sobre a morte de Terry Schiavo, em estado vegetativo persistente durante quinze anos (1990-2005), e quase dois anos sobre a morte de Eluana Englaro, em estado vegetativo persistente durante dezassete anos (1992-Fevereiro de 2009). Todos estes casos tristemente famosos de mulheres inicialmente muito jovens trouxeram, de uma forma ou outra, grandes problemas para os pais e para os tribunais. Quase com toda a certeza, estas jovens não teriam ficado todo este tempo nesta situação clínica de limbo se tivessem atempadamente elaborado um Testamento Vital (ou, sob outra designação, uma Directiva Antecipada).
Voltemo-nos agora para Portugal. Gradualmente ―e mesmo sem ter feito qualquer estudo estatístico a este respeito―, fui-me apercebendo do grande desconhecimento que a nossa população evidencia em relação ao que neste país se foi convencionando chamar Testamento Vital, mas que, mais propriamente, deveria ser designado como Directivas Antecipadas de Tratamento (opção deste livro, adiante explicitada), ou Directivas Antecipadas de Vontade. Bastava ler alguns artigos de jornal, participar em certos programas de televisão, dar uma ou outra entrevista sobre o assunto, para ver que, efectivamente, o desconhecimento era grande, ao ponto de se confundir a legalização destas Directivas Antecipadas com a despenalização da morte assistida (eutanásia e/ou suicídio medicamente assistido).
Depois de, em Julho de 2009, ter sido retirado o Projecto de Lei no 788/X que o grupo parlamentar do Partido Socialista apresentara ao Parlamento e que, numa das suas partes, contemplava estas Directivas, fiquei à espera que outro Projecto fosse apresentado no Parlamento, desta vez inteiramente voltado para elas, pela importância de que se revestem. Não tendo vislumbrado interesse, disponibilidade ou tempo por parte dos Partidos para retomarem o processo, senti que a existência de um livro que ajudasse os cidadãos e as cidadãs a tomarem consciência da importância deste assunto, ao mesmo tempo que lhes fornecia instrumentos práticos para, um dia, fazerem a sua própria Directiva Antecipada, era um contributo importante que podia dar à democracia portuguesa. De facto, a meu ver, tornar os cidadãos mais “reflexivos” (cf. Ulrich, 1999: 80) em relação às questões do morrer e da morte, tornando-os assim também mais conscientes dos direitos e das escolhas que podem ter em fim de vida, é uma forma de aumentar o seu empowerment ou “capacitação”. E uma democracia só pode ganhar em ter cidadãos conscientes das suas escolhas e que lutam por elas, escolhas que estejam de acordo com as suas agendas de valores, não permitindo que, ainda por cima em assuntos tão íntimos como são estes do morrer e da morte, agendas de valores estranhas às suas lhes sejam impostas.
Por mais que alguns e algumas não o queiram, o nosso mundo ocidental vive em sociedades seculares pluralistas. Quer isto dizer que as nossas sociedades não se encontram enfeudadas à defesa de uma qualquer ortodoxia religiosa, possibilitando a defesa de várias concepções de vida que não ponham em causa a liberdade de actuação dos outros. Em 11 de Fevereiro de 2007, o constitucionalista português Vital Moreira escrevia, de uma forma simultaneamente irónica e condensada, que “Laicidade… é quando o Código Penal deixa de imitar o Código de Direito Canónico” (Moreira, 2007).
Nos finais de 1979, esta ideia de termos entrado numa época muito diferente das anteriores apareceu traduzida no título de um livro de Jean-François Lyotard: La condition postmoderne. Segundo este autor, em virtude de razões várias, tinha já soado o toque a finados pelas grandes metanarrativas, pelos grandes sistemas de valores que até aí tinham confortado as pessoas na ideia de que viviam com segurança e sem sobressaltos dentro de uma visão do mundo sem brechas, quer se tratasse de metanarrativas religiosas, políticas ou filosóficas. O que se seguia daí? A hipótese de a actuação e o pensamento performativos ganharem a primazia, actuações e pensamentos apenas regidos pelo que Habermas designaria de razão instrumental, interessados apenas na melhor relação de eficácia entre os input e os output. Mas, por outro lado, não ficando nós abafados pela performatividade, seguir-se-ia a impossibilidade de um qualquer metadiscurso anular, traduzir ou subsumir nele as múltiplas pequenas narrativas que os seres humanos vão constituindo com as suas vidas. Haverá então heteromorfia entre os diversos jogos de linguagem utilizados, havendo também, por isso, ocasião para o aparecimento de diferendos. Neste contexto, a democracia terá obrigatoriamente de se abrir para a controvérsia e a incerteza, não como se esse fosse um destino trágico, mas reconhecendo que, de facto, só desse modo se cumpre como verdadeira democracia respeitadora das diversas diferenças razoáveis existentes dentro dela e, consequentemente, também das diversas narrativas pessoais razoáveis que as pessoas nela vão construindo. Neste sentido, afirma John Rawls que o facto de haver pluralismo razoável é a feliz realidade em que nos movemos, pois é assim que a razão prática funciona quando se move dentro de instituições tendencialmente livres (...).
Vivendo nós em sociedades seculares, o pluralismo moral é inevitável: não há uma única concepção de bem, ou do que deve ser uma vida “decente” ou moralmente correcta, não há uma única concepção do que os ingleses designam como uma good life, não há agora lugar para uma visão moral canónica, no sentido de ser indiscutível e de a todos dever abranger. Por isso, tão-pouco há lugar para a imposição pela força de uma qualquer moral, pois as concepções de bem divergem. Logo, também não há direito a impor pela força um qualquer estilo de vida e de morte, com óbvias repercussões no domínio do fim de vida, ou em situações graves de saúde. Já são muitos a pôr em causa a facilidade com que a classe médica se inclina a dizer que pretende sempre o melhor bem da pessoa doente, quando apenas conhece a sua história clínica, e desconhece completamente (e, por vezes, de forma sobranceira) a sua narrativa pessoal de valores.
Numa época de tanto desenvolvimento ao nível dos cuidados de saúde, nem sempre é fácil identificar o que é fazer bem ou mal à/ao doente. De uma forma notável e simples, o conhecido médico e filósofo H. Tristan Engelhardt, cristão ortodoxo convicto, mas que visa assumir até ao fim as consequências de um pluralismo moral inevitável vivido na contemporaneidade, escreve que a tradicional Regra de Ouro que nos vem do Cristianismo ―“Faz aos outros o que queres que te façam a ti”― não pode ser aplicada de modo cego a todos os seres humanos com quem convivemos, sob pena de se transformar numa regra de intolerância e desrespeito. Como as agendas de valores e expectativas diferem por vezes de modo radical, a Regra de Ouro da beneficência só pode ser: “Faz aos outros o que eles gostariam que lhes fizessem, mesmo que não concordes com as suas opções.” No fundo, dir-se-ia que só a ininteligibilidade absoluta desse “bem” que o outro pretende, ou, de forma diferente, a nossa impossibilidade radical de o ver como “bem” (um suicídio impulsivo, por exemplo), nos pode impedir de também querer o que o outro considera ser o “seu” bem. Como escreve Engelhardt, “Poderemos […] ser proibidos pelo princípio do consentimento de fazer aos outros o que consideramos o seu bem, mas que eles consideram prejudicial” (Engelhardt, 1998: 147).
É neste contexto amplo, ético-filosófico e político, que a temática das Directivas Antecipadas deve ser inserida, temática que já tem dado origem a muita literatura em países estrangeiros (...).
Como se dirá a seguir (...) cada concepção de Directiva Antecipada revelará as economias específicas de verdade, valor e poder de que deriva. Não se trata, pois, de uma mera questão “técnica” ―deixar antecipadamente por escrito as nossas disposições quanto a tratamentos, quando já não tivermos capacidade para o fazer, ou indicar e instruir um/a nosso/a representante ou procurador/a de cuidados de saúde que, nessas circunstâncias, fale em nosso nome, segundo as nossas opções. Não se trata tão-pouco de uma mera questão do chamado biodireito, embora ele tenha aqui um papel importante, tanto mais quanto revelará sempre enquadrar-se em determinada biofilosofia ou biopolítica, ou seja, numa determinada concepção do que é o “governo dos corpos”, dando respostas diferenciadas à pergunta sobre a quem pertence a nossa vida (...). Fundamentalmente, trata-se de, perante graves situações de saúde, respeitar a noção de dignidade que cada um tem, aceitar que, perante a doença grave ou a grave diminuição da qualidade de vida, tanto é legítima a esperança fundada da pessoa doente, como a sua desistência igualmente fundada. O que não é legítimo é tentar impor-lhe uma agenda de valores que não é a sua, mas dos seus familiares ou profissionais de saúde, ainda por cima aproveitando-se então da sua situação de vulnerabilidade. Por isso, como nos diz Lawrence P. Ulrich, “Minimizar ou não atender a um sistema de convicções considerando-o ‘inapropriado’ viola a dignidade da pessoa doente, pois ataca uma das forças centrais que permite aos indivíduos orientarem e administrarem as suas vidas” (Ulrich, 1999: 91).
Dentro deste enquadramento ético-filosófico e político (...) que pretende respeitar ao máximo a diversidade de agendas narrativas pessoais, procederei etsi Deus non daretur (como se Deus não existisse). Ao proceder deste modo não estou a limitar a liberdade das/os crentes, mas estaria a limitar a dos/as não-crentes se lhes apresentasse uma orientação de Directivas Antecipadas que apenas tivesse em causa ensinamentos de uma qualquer religião. Para mim, uma Directica Antecipada concreta, precisamente para respeitar a variedade de agendas valorativas pessoais, deve possibilitar que o cidadão, em situação de incapacidade, recuse o que já pode rejeitar quando capaz, e não estar dirigida apenas para situações próximas da morte. (...)
____________________________
Testamento Vital. O que é? Como
elaborá-lo?
Laura Ferreira dos Santos
Sextante Editora
240 págs., 15,90€
sábado, 8 de janeiro de 2011
Degradação do branco
Igreja de Santa Maria. Siza Vieira
Marco de CanavesesNão basta construir, é preciso conservar. Ou então aguardar até à ruína total, à passagem dos séculos: ser história... à passagem dos milénios: ser arqueologia.
Eu já resolvi, por exemplo, nunca mais lavar os dentes, visto que as placas de tártaro vão ser cruciais para os antropólogos consagrados ao estudo dos meus hábitos alimentares de aqui a 30.000 anos.
sexta-feira, 7 de janeiro de 2011
quarta-feira, 5 de janeiro de 2011
Plan da unesco versus plan de deus
Os bispos, se non existisen, habería que inventalos. Hai disfrace mellor para o carnaval que o de bispo? Non. Hai frases mellores para dar un titular que as que pronuncia desde un púlpito calquera nun momento de premeditada exaltación un bispo? Non. Estas declaracións até me lembraron aquela cantiga de berce tan clásica: "Duérmete, niño, duérmete ya, que viene el FMI y te comerá." Abofé, adormecidos é como estamos todos estupendamente. Conste, eu case estou desexando que o agoiro terrible se cumpra, porque pensaba, inocentona!, que o de ser homosexual ou heterosexual non era unha suposta opción imposta por perversos axentes exteriores como cando mercamos cousas que non necesitamos nin nos gustan só porque nolas meten polos ollos, senón unha característica intrínseca da persoa e digna de todo respecto. E agora resulta que estaba enganada, que grazas á conspiración mundial da UNESCO teño elevadísimas probabilidades de me converter, queira que non queira, ao lesbianismo de aquí ao 2020 (se vinte anos non son nada, que son dez menos uns días xa e contando, meus amigos?), e dado que hai máis mulleres desemparelladas (e nisto non fío en estatísticas, senón na pura observación empírica que practico cando ando por aí) ca homes, digo eu que malo será, malo será, que non poida acabar os meus días nun voraz e libertino desenfreo sexual ou até mesmo nunha soporífera relación estable e fidelísima de mesa braseira e punto de cruz a dúo coa que ha de ser a muller dos meus soños.
terça-feira, 4 de janeiro de 2011
Às voltas com o testamento vital (ainda) II. O artigo de Laura Ferreira dos Santos
Fracturas, compromissos e "sabotagens"
Por Laura Ferreira dos Santos
No Público. 3 de janeiro de 2011
Em 2009, o Conselho Nacional de Ética para as Ciências da Vida (CNECV) desaprovava o projecto de lei do PS que, entre outras coisas, versava sobre as Declarações Antecipadas de Vontade (DAV), construindo todo um parecer assente na desconfiança perante o princípio de autonomia. A este princípio opunha a "intimidade" moral e a confiança criada na relação médico-doente, a partilha da responsabilidade e o papel imprescindível da família na definição do que é melhor para a pessoa doente. A realidade que inspirara o projecto, dizia-se, fora a anglo-saxónica, com maior ênfase na autonomia, quando a nossa "realidade antropológica e cultural" é muito distante dela. Perante afirmações deste género, até apetecia perguntar aos relatores se, tendo sido a democracia uma "invenção" anglo-saxónica, seria também estranha à tradição do nosso país (para outros comentários, cf. Laura Santos, Testamento Vital, 2011).
Entretanto, muda a composição do CNECV, surgem novos projectos sobre as DAV e surge também um novo parecer do CNECV, discretamente, por entre os festejos natalícios. E, desta vez, o CNECV consegue transitar de uma ética sobretudo paternalista, inspirada no princípio hipocrático da beneficência e em certos preceitos cristãos camuflados - no fundo, o ser humano tem sempre a sua autonomia limitada por Deus e, aqui na terra, quem sabe o que é melhor para ele é o médico -, para uma ética secular não-canónica. Passagem pacífica? Quem ler os diversos textos agora disponíveis perceberá naquelas frases compactadas do Memorando (M), que começam de um modo e terminam estranhamente de outro, quantas fracturas e compromissos estão por trás do novo parecer. Seja como for, o novo parecer, e quem se bateu por ele, deve ser saudado pelo seu ênfase na liberdade e sentido de responsabilidade dos cidadãos. Rapidamente, e cingindo-me sobretudo ao parecer:
Autonomia. Apesar do que é dito no M, quando chegamos ao parecer o primado do princípio da autonomia resiste, embora se diga, compreensivelmente, que não pode ser de aplicação absoluta (pense-se, por ex., nas leis do país).
Importância. O parecer diz que as DAV são "um elemento de relevância máxima para o apuramento da vontade real da pessoa".
Narrativa biográfica. Para além das disposições escritas e/ou da designação de um procurador, o CNECV aconselha, na linha de bioeticistas recentes, a introduzir numa DAV uma "história de valores", que possibilite entender melhor as vontades dos incapazes, sobretudo quando as situações são complexas. Parabéns a quem pugnou por esta ideia.
O que se pode recusar? O M não limita as DAV às situações terminais, como o PSD ou o CDS. Há, dizem, o estado vegetativo persistente, as demências, as recusas das testemunhas de Jeová... Penso que, segundo o parecer, se pode recusar quase tudo, desde que não haja desconfianças do carácter genuíno da recusa (feita num exercício de autonomia prospectiva, claro).
Obstinação terapêutica. Depois de o M quase insinuar que as DAV são para resolver este problema, o parecer consegue "relembrar" que nem sequer é preciso uma DAV para recusar essa obstinação. Porém, na sua (só dele?) nota de imprensa, Miguel Oliveira da Silva diz que se pretende com as DAV "evitar a chamada obstinação terapêutica". Há aqui alguma tentativa de sabotagem?
Aconselhamento médico e carácter vinculativo. Estranhamente, o M, ao analisar os projectos, abstém-se de entrar neste ponto crucial - todos os partidos, com excepção do BE, faziam depender o carácter vinculativo de, pelo menos, haver aconselhamento médico forçado. No parecer, surge-nos algo que deve ter sido redigido com pinças: há o dever de os médicos informarem, "mas qualquer pessoa capaz pode optar por não querer ser informada", sem ser penalizada. O que se esperava que se dissesse é que as pessoas podem recolher informações junto de pessoas que não os médicos ou "equipas de saúde". Pois alguém entende que se faça uma DAV sem querer estar informado do que vai fazer e do que pretende? Quantos compromissos para chegar aqui? O que vão os partidos fazer com isto? Obrigar-nos a levar com a vinheta do médico em cima da nossa DAV, se a queremos vinculativa? O parecer não lhes parece dar razão.
Finalmente, apenas um pormenor humorístico: a conselheira Maria de Sousa deve andar tão impressionada com o fenómeno WikiLeaks que fez uma declaração a dizer que não podia aceitar a existência de um registo nacional de DAV em plataforma informática, pois nenhuma pode assegurar confidencialidade. Sugere que voltemos ao papel e lápis? Docente de Filosofia da Educação da Universidade do Minho e membro da Comissão de Ética da ARSN.
Por Laura Ferreira dos Santos
No Público. 3 de janeiro de 2011
O novo parecer do Conselho Nacional de Ética sobre o Testamento Vital
Em 2009, o Conselho Nacional de Ética para as Ciências da Vida (CNECV) desaprovava o projecto de lei do PS que, entre outras coisas, versava sobre as Declarações Antecipadas de Vontade (DAV), construindo todo um parecer assente na desconfiança perante o princípio de autonomia. A este princípio opunha a "intimidade" moral e a confiança criada na relação médico-doente, a partilha da responsabilidade e o papel imprescindível da família na definição do que é melhor para a pessoa doente. A realidade que inspirara o projecto, dizia-se, fora a anglo-saxónica, com maior ênfase na autonomia, quando a nossa "realidade antropológica e cultural" é muito distante dela. Perante afirmações deste género, até apetecia perguntar aos relatores se, tendo sido a democracia uma "invenção" anglo-saxónica, seria também estranha à tradição do nosso país (para outros comentários, cf. Laura Santos, Testamento Vital, 2011).
Entretanto, muda a composição do CNECV, surgem novos projectos sobre as DAV e surge também um novo parecer do CNECV, discretamente, por entre os festejos natalícios. E, desta vez, o CNECV consegue transitar de uma ética sobretudo paternalista, inspirada no princípio hipocrático da beneficência e em certos preceitos cristãos camuflados - no fundo, o ser humano tem sempre a sua autonomia limitada por Deus e, aqui na terra, quem sabe o que é melhor para ele é o médico -, para uma ética secular não-canónica. Passagem pacífica? Quem ler os diversos textos agora disponíveis perceberá naquelas frases compactadas do Memorando (M), que começam de um modo e terminam estranhamente de outro, quantas fracturas e compromissos estão por trás do novo parecer. Seja como for, o novo parecer, e quem se bateu por ele, deve ser saudado pelo seu ênfase na liberdade e sentido de responsabilidade dos cidadãos. Rapidamente, e cingindo-me sobretudo ao parecer:
Autonomia. Apesar do que é dito no M, quando chegamos ao parecer o primado do princípio da autonomia resiste, embora se diga, compreensivelmente, que não pode ser de aplicação absoluta (pense-se, por ex., nas leis do país).
Importância. O parecer diz que as DAV são "um elemento de relevância máxima para o apuramento da vontade real da pessoa".
Narrativa biográfica. Para além das disposições escritas e/ou da designação de um procurador, o CNECV aconselha, na linha de bioeticistas recentes, a introduzir numa DAV uma "história de valores", que possibilite entender melhor as vontades dos incapazes, sobretudo quando as situações são complexas. Parabéns a quem pugnou por esta ideia.
O que se pode recusar? O M não limita as DAV às situações terminais, como o PSD ou o CDS. Há, dizem, o estado vegetativo persistente, as demências, as recusas das testemunhas de Jeová... Penso que, segundo o parecer, se pode recusar quase tudo, desde que não haja desconfianças do carácter genuíno da recusa (feita num exercício de autonomia prospectiva, claro).
Obstinação terapêutica. Depois de o M quase insinuar que as DAV são para resolver este problema, o parecer consegue "relembrar" que nem sequer é preciso uma DAV para recusar essa obstinação. Porém, na sua (só dele?) nota de imprensa, Miguel Oliveira da Silva diz que se pretende com as DAV "evitar a chamada obstinação terapêutica". Há aqui alguma tentativa de sabotagem?
Aconselhamento médico e carácter vinculativo. Estranhamente, o M, ao analisar os projectos, abstém-se de entrar neste ponto crucial - todos os partidos, com excepção do BE, faziam depender o carácter vinculativo de, pelo menos, haver aconselhamento médico forçado. No parecer, surge-nos algo que deve ter sido redigido com pinças: há o dever de os médicos informarem, "mas qualquer pessoa capaz pode optar por não querer ser informada", sem ser penalizada. O que se esperava que se dissesse é que as pessoas podem recolher informações junto de pessoas que não os médicos ou "equipas de saúde". Pois alguém entende que se faça uma DAV sem querer estar informado do que vai fazer e do que pretende? Quantos compromissos para chegar aqui? O que vão os partidos fazer com isto? Obrigar-nos a levar com a vinheta do médico em cima da nossa DAV, se a queremos vinculativa? O parecer não lhes parece dar razão.
Finalmente, apenas um pormenor humorístico: a conselheira Maria de Sousa deve andar tão impressionada com o fenómeno WikiLeaks que fez uma declaração a dizer que não podia aceitar a existência de um registo nacional de DAV em plataforma informática, pois nenhuma pode assegurar confidencialidade. Sugere que voltemos ao papel e lápis? Docente de Filosofia da Educação da Universidade do Minho e membro da Comissão de Ética da ARSN.
segunda-feira, 3 de janeiro de 2011
Às voltas com o testamento vital (ainda)
Hoje no Público mais um artigo de opinião da Laura Ferreira dos Santos sobre o último e natalício parecer do Conselho Nacional de Ética para as Ciências da Vida relativamente ao projecto de Declaração Antecipada de Vontades.
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Eu sei: a ligação é só para assinantes. Amanhã ―passou o dia, passou a romaria― eu roubo legalmente o texto.
sexta-feira, 31 de dezembro de 2010
E non me fechedes os ollos
Como parece os deuses están tan distraídos nos seus incestos, orxías e bacanais que nin se lembram dos mortais contribuíntes que por aquí andamos, turrando contra todo e nada, facede o favor de esforzarvos (uffff!) en construir un 2011 mellor, porque o futuro, non che me vos enganedes, somos nós quen o diriximos a cada paso que damos (ou non damos).
P.S.: Se celebrades o rito da pasaxe ao Aninovo com uvas ou pasas, tentade non esganarvos, que a familia e os amigos non teñen culpa ningunha da vosa torpeza.
quinta-feira, 30 de dezembro de 2010
De sentenças de morte (e indultos)
Como propósito para o ano novo é mesmo nada disparatado. Vive-se tantas vezes, às vezes, sem dar por isso, pela vida, que incomoda. Sentir os dedos doer, por exemplo, e os olhos a perseguir sonhos é um exercício de concentração estrito. Não foi isso o que aconteceu ao touro. Quis não morrer na hora que lhe marcaram e fugiu. Mas assim morreram-o antes ainda, matado, a caminho do regresso ao matadouro, adormecendo-lhe o instinto, domesticando-o quimicamente para virar de ali a uns dias posta com arroz e salada, filet-mignon com batata a murro ou rabo estufado com ervilhas. Assim morremos antes da hora nós tantas vezes, às vezes, e no fim, miséria, só daremos boa janta aos vermes... ou nem, incineraditos, que é moda de poupar espaço, as cinzas a entrar por olhos e bocas e narinas alheios, raispartam o vento, rosmam os presentes cuspindo lixos do defunto.
Pois não indultaram o bicho depois de eu ter escrito esta porcaria? E agora faço o quê?! Mando o rascunho à lixeira? Vou ver eu se quando me chegar a hora me indultam também, e os vermes que se lixem.
Pois não indultaram o bicho depois de eu ter escrito esta porcaria? E agora faço o quê?! Mando o rascunho à lixeira? Vou ver eu se quando me chegar a hora me indultam também, e os vermes que se lixem.
quarta-feira, 29 de dezembro de 2010
Pestanejar na escuridão
A Poeta é incerteza, suma sacerdotisa do paradoxo ponto ela ou dúvida que arrasta à pesquisa dissecante pelo território trépido e fluido dos significados. Assim é que oscilando dissolve interrogações para atingir espaços acústicos que são ecos pelas margens dos ouvidos, espelhos nos horizontes dos olhos e no hálito pulsátil dos lábios, um tremor de oásis. A leitora segura-se nas velas páginas à distância pouca dos antebraços telescópios e enfuna em orgulho, vasto, a húmida estreiteza do peito (transido de nevoeiros) que estoira num foguetório sinfónico, por ser ali, numa página ímpar, nome que se escreveu em digressão e cursivo, por primeira vez, tinta em folha-papel de livro-poemas, sombra clara.
Obrigada, Suzana ―era sem tempo que eu dissesse.
: Descartes aconselhou-me a duvidar de tudo, mas duvido dele e apetece-me não questionar algumas vezes; e gosto desta dúvida ―dá-me uma espécie de asas; dói-me, contudo, aristocraticamente a cabeça e escuto zumbidos transversalmente ao silêncio e ao meu pestanejar na escuridão; pergunto-me, pergunto-me sempre: da própria incerteza. do sentido da dor. da subsconsciência dos sentidos, das ignorâncias, da ignorância da ignorância. do caminho da liberdade. da via do compromisso, dos trilhos do apego. dos desvarios do controle. dos sacrifícios dos orifícios. do que Deus estará a fazer. e fico incerta, insecta, zunindo em torno daquilo que julgo ser a minha cabeça
Suzana Guimaraens
"Dispersões insones" (excerto). Parodox.sou (2010)
terça-feira, 28 de dezembro de 2010
Durmir
Espertou na mesma postura en que se lembraba a fechar os ollos, con el a protexela do mundo, abrigándolle as costas e a desistencia. Nove horas. Seguidas. Sen unha miserable dor que a arrancase da cama no medio e medio da noite ou co sono tan profundo que os vidros ciscados polo sangue non deron quebrado a suspensión da consciencia. Nin un pesadelo de corredores en penumbra que se abrían a abismos, resplandores. Nin un soño en tons grises de conquistas compartidas. Falaba de si en terceira persoa, como se fose personaxe ficticio en filme alleo, porque cando prendeu o ordenador, no ceo da boca o amargor do café chirlo con que eludía a prescrición médica e a dozura pesada dos figos secos no centro da lingua sobrepostos á pasta de dentes, aquilo parecíalle mesmo sobrenatural. E nunca crera en nada que excedese a natureza simple do palpable. Nunca?
segunda-feira, 27 de dezembro de 2010
Os livros, sempre
BARRETO NUNES, Henrique. Amigos Maiores que o Pensamento. Associação dos Jornalistas e Homens de Letras do Porto. 2010
No passado 21 de dezembro, o Henrique Barreto Nunes lançou uma colectânea de artigos e textos em volta das suas lutas e dos seus livros e que dedica, parafraseando o Zeca Afonso, aos seus amigos.
O volume, publicado pela Associação dos Jornalistas e Homens de Letras do Porto, foi apresentado na sede desta pelo geógrafo Álvaro Domingues.
___________________
Improviso para saudar numa ca(u)sa um grande Amigo...
Para o Henrique Barreto Nunes
Deixa que nesta noite polar
a memória ocupe o pensamento todo
e não sobre lugar na mesa
para mais ninguém
foi aqui (lembras-te?)
que interrogámos o destino
e o ganhámos
talvez tudo o mais tenha sido em vão
menos aqui
nesta antiquíssima liberdade
que nenhuma ruína calou
nenhum esquecimento.
Ademar Ferreira dos Santos. Em Abnóxio
08.01.2010
domingo, 26 de dezembro de 2010
sábado, 25 de dezembro de 2010
quinta-feira, 23 de dezembro de 2010
Aparecem-me cadáveres
Pronto, para aqueles que não tiveram hipótese de iluminarem o seu desentendimento com a leitura em papel, já está disponível em versão pdf a história verídica que o pessoal de Novas da Galiza arriscou a publicar-me.
quarta-feira, 22 de dezembro de 2010
Regresso ao passado
Não, não ando com saudades doutros tempos. É só que ontem fixem um experimento científico: fui ao Porto pela EN13 desde Viana do Castelo: 70 quilómetros em duas horas e meia. Prodigioso. O total do percurso, 110 quilómetros em três horas.
Em 31 minutos fiz o trajecto que vai de minha casa a Viana do Castelo, pela A28 (incluídos aqui os caminhos da aldeia, a ponte e uma parte pela EN13 desde Cerveira até à entrada da A28 em Lanhelas, uns quarenta km). Depois, já no lusco-fusco (felizmente sem chuva), trás atravessar o Lima, saí em Darque, mas ao não encontrar indicações para seguir para o Porto (havia uma estrada cortada, talvez era esse o caminho?), voltei para a A28. Passei pelo primeiro arco a sorrir e penteadinha para a fotografia e abandonei a via CCUT na primeira saída. A partir de aí fui tentando não atropelar idosos com carros de mão ou de bicicleta, vestidos de preto rigoroso, quem sabe se prêt-a-porter para o seu futuro enterro, e parando nas passadeiras, tudo como é devido, sem livrar o Estado da carga onerosa dalguma (miserável) pensão de reforma. A velocidade nunca era muita: por três ou quatro segundos e só em duas oportunidades consegui colocar o carro a uns vertiginosos 70km/h, que quase me iam descolocando a queixada. Do resto a velocidade de cruzeiro era, aparentemente, de 50km/h, mas pelo troço que atravessa Póvoa de Varzim e Vila do Conde, sempre em primeira, em arranca-pára, até os sapos iam mais rápido. A última vez que olhei para a velocidade média TOTAL do percurso, pouco antes de passar às vias de acesso ao Porto, era de 50km/h, que com certeza deveu descer, pelo muito que demorei a entrar.
Para mim foi uma aventura que levei com muita paciência e música. Mas há quem tenha de fazer isso cada dia...
É lamentável não existirem comboios com mais frequência, porque visto isto, as duas horas que se demora da estação de Vila Nova de Cerveira à de Campanhã no Porto levam-se muito mais descansadamente.
(Não digam a ninguém, mas voltei pela A28: 1 hora e 10 minutos, desde que arranquei o carro no Porto até à minha casa.)
________
Depois de ouvir as notícias, quase é melhor assim: 50 km/h sempre.
Em 31 minutos fiz o trajecto que vai de minha casa a Viana do Castelo, pela A28 (incluídos aqui os caminhos da aldeia, a ponte e uma parte pela EN13 desde Cerveira até à entrada da A28 em Lanhelas, uns quarenta km). Depois, já no lusco-fusco (felizmente sem chuva), trás atravessar o Lima, saí em Darque, mas ao não encontrar indicações para seguir para o Porto (havia uma estrada cortada, talvez era esse o caminho?), voltei para a A28. Passei pelo primeiro arco a sorrir e penteadinha para a fotografia e abandonei a via CCUT na primeira saída. A partir de aí fui tentando não atropelar idosos com carros de mão ou de bicicleta, vestidos de preto rigoroso, quem sabe se prêt-a-porter para o seu futuro enterro, e parando nas passadeiras, tudo como é devido, sem livrar o Estado da carga onerosa dalguma (miserável) pensão de reforma. A velocidade nunca era muita: por três ou quatro segundos e só em duas oportunidades consegui colocar o carro a uns vertiginosos 70km/h, que quase me iam descolocando a queixada. Do resto a velocidade de cruzeiro era, aparentemente, de 50km/h, mas pelo troço que atravessa Póvoa de Varzim e Vila do Conde, sempre em primeira, em arranca-pára, até os sapos iam mais rápido. A última vez que olhei para a velocidade média TOTAL do percurso, pouco antes de passar às vias de acesso ao Porto, era de 50km/h, que com certeza deveu descer, pelo muito que demorei a entrar.
Para mim foi uma aventura que levei com muita paciência e música. Mas há quem tenha de fazer isso cada dia...
É lamentável não existirem comboios com mais frequência, porque visto isto, as duas horas que se demora da estação de Vila Nova de Cerveira à de Campanhã no Porto levam-se muito mais descansadamente.
(Não digam a ninguém, mas voltei pela A28: 1 hora e 10 minutos, desde que arranquei o carro no Porto até à minha casa.)
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Depois de ouvir as notícias, quase é melhor assim: 50 km/h sempre.
segunda-feira, 20 de dezembro de 2010
A preciosa inutilidade da poesia
A poesia não precisa de ser útil. É no valor imenso da sua inutilidade que se fixa a sua importância. As imagens que possa oferecer ―como quem diz, o dia que se inicia com jogos malabares de pedras, corações-calhaus a dançar no ar que a ninguém alcançam, a ninguém ferem, ninguém é ninguém que passa, o chão que os recebe, prontos para mais um amanhã: a circular persistência do sonho inatingível― podem ser uma verdade qualquer, e a verdade tem frases assim que tocam (música).
_____________
projecto de vida
de manhã
jogo calhaus ao ar e
faço o cômputo das pedras
que não ferem nenhum passante
os passantes não passam
as pedras estão no chão e
os calhaus cairam todos
novamente
Ana Saraiva. 19 de dezembro de 2010
(Versão para português de María Alonso Seisdedos)
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domingo, 19 de dezembro de 2010
sábado, 18 de dezembro de 2010
Alguén que poña orde nisto
Dígovos que no meu eido, a estas alturas de decembro, hai rosas. Rosas.
Flipo en cores, tons de rosa.
Flipo en cores, tons de rosa.
quinta-feira, 16 de dezembro de 2010
¡Felicidades, Profesor!
Sei que ele não vai ler isto, e com certeza (lá vão tantos anos) nem se lembrará de mim, mas eu cada vez que me cruza a palavra "professor" pela mente é este homem que lhe põe imagem e som.
Os outros mestres
Uma loja de ferragens decente é um naco de paraíso metalizado. (Fosse o mundo uma livraria, uma loja de ferragens e mais um rio de águas bravas, eu pedia para mim a eternidade no aquém.) Desde a porta até ao meio fundo há metros cúbicos de prateleiras que estreitam os corredores. Ainda não alcancei o balcão e já a menina me interpela intuindo a minha insegurança.
―Eu queria ―digo― uma coisa que não sei se têm aqui.
―Temos ―responde e, revelando o caminho à imensidade, manda-me descer as escadas.
Desço e peço pela minha boca o que o funcionário, sem hesitar no labirinto, mostra. Tomamos medidas e ele explica-me qual a maneira de montar a engenhoca, como quem dá uma aula à minha ignorância com a paciência e sabedoria duma escola antiga.
―Eu queria ―digo― uma coisa que não sei se têm aqui.
―Temos ―responde e, revelando o caminho à imensidade, manda-me descer as escadas.
Desço e peço pela minha boca o que o funcionário, sem hesitar no labirinto, mostra. Tomamos medidas e ele explica-me qual a maneira de montar a engenhoca, como quem dá uma aula à minha ignorância com a paciência e sabedoria duma escola antiga.
terça-feira, 14 de dezembro de 2010
A resolução do problema
―Já imaginou o que seria beijá-la?
O homem escancarou os olhos como quem abre os postigos da mente à luz. Cegou-se.
―Eu...
―Não, assim não. É ela o primeiro, o preâmbulo, o sonho. Só depois, e nem sempre, vem um, o próprio.
O homem calava, embaraçado, e a nuca carregava-se-lhe com o peso do mutismo, o olhar enterrava-se, as mãos contorciam-se, a vergonha crescia reconhecendo-se.
―Imagine então que ela entra na sala quando ninguém mais está, só o senhor e o luar que tudo invade ao abrir ela a porta.
O homem tem no peito bastantes cavalos que o destroçam e abafa um grito, a ansiedade.
―Só eu?
―E o luar, disse.
―Só eu e o luar.
―Isso. Mas o luar apaga-se logo, quando ela fecha, trás de si, a porta ao mundo. Aí é a escuridão.
―Não pode haver, que só seja, uma vela a arder, num canto, que ilumine o seu vulto, o dela, e o embale no seu oscilar?
―Pode.
―Então, sou eu, o luar que já não está e mais a vela prendida num canto ―sussurrou o homem, o hálito avivando a chama da fantasia no ventre, nos pulsos.
―E o vulto dela a flutuar, derramando um perfumo à fêmea intocável ―avançou a voz sobre o homem, que quase ia asfixiando no odor que o investe e o repele.
―Intocável? Intocável porquê?
―Não porquê, mas por quem, ou melhor, para quem. Para si. Repare: a covardia prendeu-lhe as mãos.
O homem tenta disfarçar a turbação engolindo o sapo, que por sua vez devora toda quanta réplica lhe acode ao estômago. Até que enfim o silêncio se estremunha na penumbra puxando o fio dum gemido da garganta sufocada do homem.
―A covardia aproveita a debilidade para tirar nenhum proveito. Não tem nada a fazer. As mãos nunca obedecerão um mandato frágil. Mas eu perguntei se já imaginou o que seria beijá-la e o senhor não respondeu.
―E como a havia de beijar se nem tocá-la posso?! Ah, pronto, perguntou se já imaginei...
Ao fundo, onde nenhum arquitecto pensou em traçar um vão, ardia uma vela de que escorriam lágrimas pela sua própria consumpção, enquanto o fume tingia de vermelho líquido os olhos do homem que estava no chão sentado. De repente, a porta abriu-se e no contraluz recortou-se uma figura cujo cheiro assaltou as narinas sôfregas pela espera. Reconheceu a fragrância que, claro, era inebriante e pungente. Ao fechar ela a porta expulsou o resplendor tíbio que o luar propiciara. À luz da vela a sombra da mulher adiantou o rosto, acordando ondas de desejo além daquelas paredes secas e desenhou no homem um reflexo canino: este arrancou com os dentes lábios e língua e cuspiu-os contra o sorriso trémulo da quimera.
O homem escancarou os olhos como quem abre os postigos da mente à luz. Cegou-se.
―Eu...
―Não, assim não. É ela o primeiro, o preâmbulo, o sonho. Só depois, e nem sempre, vem um, o próprio.
O homem calava, embaraçado, e a nuca carregava-se-lhe com o peso do mutismo, o olhar enterrava-se, as mãos contorciam-se, a vergonha crescia reconhecendo-se.
―Imagine então que ela entra na sala quando ninguém mais está, só o senhor e o luar que tudo invade ao abrir ela a porta.
O homem tem no peito bastantes cavalos que o destroçam e abafa um grito, a ansiedade.
―Só eu?
―E o luar, disse.
―Só eu e o luar.
―Isso. Mas o luar apaga-se logo, quando ela fecha, trás de si, a porta ao mundo. Aí é a escuridão.
―Não pode haver, que só seja, uma vela a arder, num canto, que ilumine o seu vulto, o dela, e o embale no seu oscilar?
―Pode.
―Então, sou eu, o luar que já não está e mais a vela prendida num canto ―sussurrou o homem, o hálito avivando a chama da fantasia no ventre, nos pulsos.
―E o vulto dela a flutuar, derramando um perfumo à fêmea intocável ―avançou a voz sobre o homem, que quase ia asfixiando no odor que o investe e o repele.
―Intocável? Intocável porquê?
―Não porquê, mas por quem, ou melhor, para quem. Para si. Repare: a covardia prendeu-lhe as mãos.
O homem tenta disfarçar a turbação engolindo o sapo, que por sua vez devora toda quanta réplica lhe acode ao estômago. Até que enfim o silêncio se estremunha na penumbra puxando o fio dum gemido da garganta sufocada do homem.
―A covardia aproveita a debilidade para tirar nenhum proveito. Não tem nada a fazer. As mãos nunca obedecerão um mandato frágil. Mas eu perguntei se já imaginou o que seria beijá-la e o senhor não respondeu.
―E como a havia de beijar se nem tocá-la posso?! Ah, pronto, perguntou se já imaginei...
Ao fundo, onde nenhum arquitecto pensou em traçar um vão, ardia uma vela de que escorriam lágrimas pela sua própria consumpção, enquanto o fume tingia de vermelho líquido os olhos do homem que estava no chão sentado. De repente, a porta abriu-se e no contraluz recortou-se uma figura cujo cheiro assaltou as narinas sôfregas pela espera. Reconheceu a fragrância que, claro, era inebriante e pungente. Ao fechar ela a porta expulsou o resplendor tíbio que o luar propiciara. À luz da vela a sombra da mulher adiantou o rosto, acordando ondas de desejo além daquelas paredes secas e desenhou no homem um reflexo canino: este arrancou com os dentes lábios e língua e cuspiu-os contra o sorriso trémulo da quimera.
De costas ao infinito
Talvez esa noite o tempo se detivo sobre o escritorio en que redactaba as súas memorias inventadas. Cando o día se espreguizou, non canxaba a luz de fóra coa das cifras que indicaba o espertador desconectado. Xa perdera a conta das horas que levaba morto... ou eran anos? Xoán Lobo Vieira achegouse á fiestra a descorrer as cortinas. Nin lle feriu a claridade nos ollos sen pálpebras, desasombrados. Que facer?, dixo en voz alta (e sooulle á pregunta mítica). Sobre a cama que xa non usaba estendíanse dezasete camisas lavadas, engurradas coma a súa pel antes do óbito. Pasar o ferro sempre lle parecera unha perda de tempo absurda. Por iso, foi ao cuarto dos trastes, colleu a táboa e o ferro, volveu ao dormitorio e de costas ao infinito, estirounas ben estiradiñas, unha tras outra, devagar e con esmero, coma se o mundo fose acabar.
segunda-feira, 13 de dezembro de 2010
Criatura
Nasceu um blogue que não é mais um, antes é UM muito especial para mim e que faz parte do melhor legado que nunca sonhei receber.
Chegou a hora de ouvir a voz que nasce do pensamento da Maria Garrido.
As marcas no rostro
Digo que na historia a violencia, a visual e a oculta, é brutal desde o primeiro instante, e por iso, tal como afirmei onte á noite, camiño do coche, pola húmida beira do río Miñor, esta mañá, que xa durmín desacougada por pesadelos de colleita propia, non entra nos meus cálculos repetir sesión. Digo, con todo, que é unha película imprescindible na memoria de calquera amante do cine. A interpretación extraordinaria do rapaz protagonista, o proceso de transformación interior que asoma ao seu rostro, merece, ao meu xuízo hoxe aínda estremecido, o bater de asas en aplauso de centos de paxaros liberados.
domingo, 12 de dezembro de 2010
Cadeiras, bonés, batatas... uma visão (pintura abstracta*)
Era essa a lista da compra para uma sexta-feira de dezembro. Tantos quilómetros para isto. Um chocolate quente em Verín, com churros: paragem tópica obrigada. Depois um troço pela A-75, recente o asfalto (só por vê-la, que a gente já sabe que leva ao casino e não íamos vestidos adhoc-uadamente) e retorno à estrada velha, à fronteira abandonada, Feces de Abaixo - Vila Verde da Raia. Até que enfim, Chaves. Estacionamos. Atravessamos o Tâmega, que nem repara em nós, no olhar de nosso a deslizar, céu contra água. Azul de inverno, está um dia bom, até que mesmo bom, de passeantes, ciosos, ociosos, flâneurs que contemplam nas montras nada de nada, ou aí que sim, chapéus, o capricho: dois bonés por un módico prezo... talvez, que a loja fecha já, nós depois voltamos, voltaremos após o almoço.
Ei-lo: presunto, sopa (de legumes), salada de bacalhau ou alheira com grelos, leite-creme, tinto e broa. Assim tudo, todos, tão nós de ementa turística, e o sotaque brasileiro do empregado, a música. O gajo, um dos gajos, que se levanta com a desculpa de ir mijar e paga a conta ―pouca finura para tanta gentileza.
O café num café que cheire ao café. Três. Um por cada. Chega e já foi de mais. Paga-se ao balcão.
Os bonês, então, foram dois e mais a conversa: total, meia hora e quase não nos deixávamos largar com a história do chapéu de pêlo de rato (!), em Lisboa, nessas lojas tão careiras cento e vinte euros, quando aqui... Aqui agora fiquem vocês com a curiosidade desconfortável, que eu não digo (mas a senhora disse, sou eu que não digo).
As cadeiras, seis, máximo de comensais admitidos em casa nova, fique assim claríssimo, depois não digam que também queriam. A mala e a estratégia da disposição. Uma cómoda que ficou atrás, que a carrinha é grande mas não é camião.
Passa-se a fronteira e agora é sim, desvio a Riós, a vez das batatas. Vermelhas. Reviravoltas da estradinha até Piornedo. No cu do mundo, num deles. E afinal, haviam-de lhas dar, as batatas, aos porcos, que eles, que as plantam, que as sacham (regar é que não, antes regavam, antes toda a gente regava as batatas, agora ninguém as rega), só comem das brancas, ou só come das brancas o homem, porque a mulher cozinha-as, não as quer (ou não as pode querer?), são para os porcos e para nós. E um saquinho de castanhas, de primeira. No Natal irão a Barcelona, a casa dos filhos, de autocarro.
E nós continuamos o regresso. E atravessámos a fronteira, mais uma vez, em Valença. E jantamos. Nem merece a pena dizer o quê. Excessos nem se contam em público. Ou não haveria caixilhos que chegassem para esta tela.
______________
* Não tenta aqui ser arte, é apenas a falta dela. Estou desinspirada.
quarta-feira, 8 de dezembro de 2010
Recado
E tu não escrevas, não! Aparece e desaparece conforme... conforme? Inconforme! Ou será desconforme? Perco-me nos prefixos enquanto tu ―tu, sim, não esquives o olhar, não me interrogues, mudo, é comigo? Há alguém mais aí por acaso? Deixa-me acabar uma frase ao menos! Dizia que estás guadiânico, mas é novidade isso? Pois, sempre estiveste num surjo-sumo e vocês (ou seja nós com o eu de mim dentro) fiquem aí com sede de beber, que esta água ninguém bebe a não ser que eu (eu de tu, tu a pensares, se pensares) diga bebam, me der a beber, bebam-me, ponham o gelo. Dizia que apareces e desapareces e não és lua nenhuma tu para ter a terra inteira à espreita dos teus movimentos elípticos, os teus claro-escuros de cara oculta e mostrada, nocturnos, iluminados, assombrados os lobos todos aqui a uivar a tua inexistência ausente, e tu aí, ali, não, no além duma nuvem, afundado, acenando, bezerro de ouro, digo de letras mentidas, ouropel nos mercados, pedraria esplendorosa e vadia pelos firmamentos, universos do nada. Dizia... dizia o quê? Ah, sim, não escrevas, não, digo, escreve-te, corpo devassado, deus que se cria do verbo, esculpe-te em barro-embuste e levanta paisagens, reinos animais e vegetais, apsicologias diversas, esfuzia gritos como metralha (e os seus silêncios fundos que estremecem os ninguéns que escutam), nunca cales tanto tempo que o tempo cale, ouviste? Pronto.
terça-feira, 7 de dezembro de 2010
49: o presente
Uma cifra qualquer é o que é, um dia em que sempre chove desde há tantos anos, anos que agora, vistos de aqui, parecem nada: nada não como no tango, apenas nada como nada: o passado é um invento, uma criação necessária para segurar os pés à beira do precipício que dizem futuro.
O presente, porém, existe mesmo: foi-me oferecido e está aqui.
O presente, porém, existe mesmo: foi-me oferecido e está aqui.
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segunda-feira, 6 de dezembro de 2010
O suicidio do periquito (conto de Nadal)
Espertaba así, con ansia de non espertar, a cama a termar dos membros grávidos, os ollos negándose á luz, unha lentitude de tempo que se descomprime, de baleiro inflado que a pouco máis estoupa. Sede. Azucre, os niveis de azucre subiran e rozaban, pérfidos, o límite. Un día destes diríanlle:
―Andas a comer o que? Acabou o azucre. Tes diabete.
Había unha lata cun anaco de turrón do duro aínda na cociña. E talvez fose iso o único que a empurrase a rebelarse, a abrir os ollos, por fin, calzar as pantuflas, agarrarse ás paredes, cambalear sobre o chan, vacilar sobre a vida, camiñar, descender polas escaleiras ben suxeita ao pasamáns para non caer, non tombar no absurdo, árbore fráxil que corta o paso no escuro. Na cociña arrímase á billa e o son da auga nin tintina no fondo do vaso. A avidez da secura que se suspende cando o ve: mergullada, bico abaixo, a cabeza no bebedeiro dos pardais, as asas estendidas contra a pedra do beiril nun voo raso truncado, o brillo das pingas a escorregar polas plumas, deitado, hirto, inerte, duro e lixeiro nunha consistencia de pedra pómez, como turrón... Lembrouse do turrón na lata e foi como se entre os dentes lle triscasen ósos, dentes de chacal quebrándoos.
―Andas a comer o que? Acabou o azucre. Tes diabete.
Había unha lata cun anaco de turrón do duro aínda na cociña. E talvez fose iso o único que a empurrase a rebelarse, a abrir os ollos, por fin, calzar as pantuflas, agarrarse ás paredes, cambalear sobre o chan, vacilar sobre a vida, camiñar, descender polas escaleiras ben suxeita ao pasamáns para non caer, non tombar no absurdo, árbore fráxil que corta o paso no escuro. Na cociña arrímase á billa e o son da auga nin tintina no fondo do vaso. A avidez da secura que se suspende cando o ve: mergullada, bico abaixo, a cabeza no bebedeiro dos pardais, as asas estendidas contra a pedra do beiril nun voo raso truncado, o brillo das pingas a escorregar polas plumas, deitado, hirto, inerte, duro e lixeiro nunha consistencia de pedra pómez, como turrón... Lembrouse do turrón na lata e foi como se entre os dentes lle triscasen ósos, dentes de chacal quebrándoos.
quarta-feira, 1 de dezembro de 2010
Estado: invísivel
A poeta futurista dum século passado atravessa com uma sombra ao lado o vestíbulo do teatro em direcção à sala onde se vai concelebrar um recital poético e um nu integral. No caminho, que nem é tal, antes passagem, um editor pedrês de abrigo azul, com um chocolate em cada mão, detém a poeta e oferece-lhe o chocolate da mão direita e um sorriso. A poeta, que nem gosta de chocolates, hesita, devolve o sorriso, toma o chocolate também na mão direita e dissimuladamente deita-o ao lixo, de onde a sombra com a mão esquerda, num gesto discreto, o resgata, o desembrulha e, antes de introduzi-lo na boca, diz:
―Gracias.
O editor, pedrês e de abrigo azul, a suster uma perna no ar e um chocolate na mão esquerda, lança um remoque à poeta, futurista e dum século passado, que leva uma sombra ao lado:
―E então? Agora falas castelhano?
Ninguém responde. Ensinaram-lhe a não falar de boca cheia e a não dar muito nas vistas.
―Gracias.
O editor, pedrês e de abrigo azul, a suster uma perna no ar e um chocolate na mão esquerda, lança um remoque à poeta, futurista e dum século passado, que leva uma sombra ao lado:
―E então? Agora falas castelhano?
Ninguém responde. Ensinaram-lhe a não falar de boca cheia e a não dar muito nas vistas.
terça-feira, 30 de novembro de 2010
Tétrico?
No vestíbulo do teatro, durante o intervalo, a poeta altíssima e futurista de princípios dum século passado olhou para mim, ho-rro-ri-zada:
―Mas que tétrico!
Eu, que estava em ângulo bastante obtuso relativamente aos meus poetas (como a traduzi-los na sombra), alcei a vista num esvoaçar de pálpebras para tropeçar no cenho dela franzido e franzidos a condizer os lábios num o diminuto, que é um u. Respondi de sobrancelhas, no entanto, em arco solene, tenso, dardos nos íris de fingida incompreensão. Depois, leve virar do pescoço, encontrei o olhar impávido do poeta vidente, mais baixito ele, quase do meu tamanho e antiguidade, que apenas uns segundos antes se aproximara saltitando com uma proposta oral cuspida sem preâmbulos ao meu corpo surpreso.
―No fim, iremos beber um coiso ao...
―Não posso eu ―interrompi interceptando o contacto―. Amanhã cedo deverei estar em plena posse das minhas faculdades mentais (e físicas, obviamente) ―E esclareci a seguir―: Vou assinar os meus testamentos, o vital e o mortal.
―Mas que tétrico!
―Não é nada tétrico ―argumentei―. Tétrico seria não poder assinar testamentos. Assinar testamentos é prerrogativa de vivos, de vivos com consciência de sê-lo até um dia, vivos lúcidos com as funções da mente, ainda, em activo.
Havia bem tempo que me rondava pela má consciência a ideia de dar destino final aos meus resíduos sólidos humanos. De aí, na segunda-feira anterior aos factos acima descritos, levantei-me com o pé direito e o firme propósito (sem emenda) de marcar hora no notário, como quem pede consulta no dentista para unha limpeza dental profiláctica. Já no local, agendaram a minha causa para a sexta seguinte, e pelo prezo dum dois por dois (negócios que não têm crise e, consequentemente, não têm saldos), vista a boa disposição com que iria defender a minha dignidade de moritura (que é latinório composto dos vernáculos "moribunda" e "futura") no testamento vital (ou, melhor dizendo, declaração de vontades antecipadas), persuadiram-me a assumir no momento sempre inoportuno a condição de morta pouco chata, escriturando a partilha do legado imenso dos meus bens e males, móveis e imóveis, aos meus ricos herdeiros num testamento por força mortal.
Tétrico? Tétrico seria para os vivos que me iriam chorar, se os houver, terem de lidar com estas burocracias maçantes no dia em que.
―Mas que tétrico!
Eu, que estava em ângulo bastante obtuso relativamente aos meus poetas (como a traduzi-los na sombra), alcei a vista num esvoaçar de pálpebras para tropeçar no cenho dela franzido e franzidos a condizer os lábios num o diminuto, que é um u. Respondi de sobrancelhas, no entanto, em arco solene, tenso, dardos nos íris de fingida incompreensão. Depois, leve virar do pescoço, encontrei o olhar impávido do poeta vidente, mais baixito ele, quase do meu tamanho e antiguidade, que apenas uns segundos antes se aproximara saltitando com uma proposta oral cuspida sem preâmbulos ao meu corpo surpreso.
―No fim, iremos beber um coiso ao...
―Não posso eu ―interrompi interceptando o contacto―. Amanhã cedo deverei estar em plena posse das minhas faculdades mentais (e físicas, obviamente) ―E esclareci a seguir―: Vou assinar os meus testamentos, o vital e o mortal.
―Mas que tétrico!
―Não é nada tétrico ―argumentei―. Tétrico seria não poder assinar testamentos. Assinar testamentos é prerrogativa de vivos, de vivos com consciência de sê-lo até um dia, vivos lúcidos com as funções da mente, ainda, em activo.
Havia bem tempo que me rondava pela má consciência a ideia de dar destino final aos meus resíduos sólidos humanos. De aí, na segunda-feira anterior aos factos acima descritos, levantei-me com o pé direito e o firme propósito (sem emenda) de marcar hora no notário, como quem pede consulta no dentista para unha limpeza dental profiláctica. Já no local, agendaram a minha causa para a sexta seguinte, e pelo prezo dum dois por dois (negócios que não têm crise e, consequentemente, não têm saldos), vista a boa disposição com que iria defender a minha dignidade de moritura (que é latinório composto dos vernáculos "moribunda" e "futura") no testamento vital (ou, melhor dizendo, declaração de vontades antecipadas), persuadiram-me a assumir no momento sempre inoportuno a condição de morta pouco chata, escriturando a partilha do legado imenso dos meus bens e males, móveis e imóveis, aos meus ricos herdeiros num testamento por força mortal.
Tétrico? Tétrico seria para os vivos que me iriam chorar, se os houver, terem de lidar com estas burocracias maçantes no dia em que.
_____________
Fora isto, acho que "tétrico" é um esdrúxulo sublime.
segunda-feira, 29 de novembro de 2010
O país que eu sou (e outrossim, o corvo)
No fim da tarde saí a ventilar os olhos na penumbra. De porta fora, rachando o silêncio em electrocução única, senti no quintal vizinho corvo doméstico um a gaguejar canto de galo, canto truncado como as suas asas, dele do corvo. Quiçá lhe ia faltando luz para experimentações mais próprias de amanhecida ou colorido nas penas. Quiçá.
Depois foi nada. O corvo prisioneiro desistiu de namorar com galinhas fátuas e juntou-se à afonia absoluta de grilos e melros no lapso quase-invernal do lusco-fusco. Portanto, aconselhei-me a dissimular a desocupação auditiva ligando-me via auscultadores a uma emissora de rádio, séria, culta. Não me largou o eco do corvo.
Pés no caminho cedi ao piano que tocava a direcção dos compassos até que a sonata se extinguiu e uma voz humana entremeou na minha vadiagem pelo assédio sexual do corvo maneta ao serralho desdenhoso do galinheiro. "Os países que falam português...". Abalou-me a sentença. Nem segui o rumo do razoamento possível, atendendo só ao meu espanto inquieto: sempre acreditara que eram as pessoas que falavam línguas, e agora? País eu?!
Era eu país mesmo?! Cachecol meu ao vento, bandeira? Gemido, hino? Lágrimas, marés? Cílios em ondulação, vendavais? País? Este corpo? E se era, era ilha, arquipélago, península, terra de interior que é dizer sem mar? País com deserto até desprovido de oásis real (miragem é que nunca, nunca!, gritei) para solaz de camelos e aventureiros de filme? País tropical, árido, polar? Era país-continente ou país-aldeia? E de ser, seria república, ditadura dura ou branda, monarquia ou reino de taifas? Era estado, se fosse, autonómico ou federal? Era país de povo soberano ou colónia? E já agora, o meu povo, quem era o meu povo? Olhei para os dedos das mãos, que acenaram lealdades mascaradas pelas luvas; e para os pés nos antípodas de mim, obedientes ainda ao roteiro marcado. Perscrutei na querença do coração e ele respondeu com palpitações rítmicas. Admoestei, fazendo-me forte, o fígado, que porfia em ocupar mais abdómen do que lhe pertence. Os rins, porém, nem cessaram de depurar imundices, fieis lacaios mudos. Enclaustrados, os pulmões, ora inchavam ora amarfanhavam como foles de saudades a infundirem-me roufenho ânimo pela traqueia e o nariz outeirinho. E o estômago, pois, digeriu este despautério todo, tão deliciado ainda no chocolate com que o presenteei de tarde que nem um resmungar insolente arrotou. Mamas, quase cordilheiras; veias e artérias, capilares, vasos linfáticos..., os rios e ribeiros! Como é bom este país que sou, concluí, tão despoticamente esclarecida.
(Até que o cérebro, na função de governo oligárquico legítimo e sorrateiro, insinuou se o corvo vizinho, com os seus ensaios na fala dos galos, não era o fervor das galinhas que procurava, antes ansiava também ter língua para ser país. Como eu. Foi aí que começaram as hostilidades no bairro perante a desídia espicaçante das galinhas.)
Depois foi nada. O corvo prisioneiro desistiu de namorar com galinhas fátuas e juntou-se à afonia absoluta de grilos e melros no lapso quase-invernal do lusco-fusco. Portanto, aconselhei-me a dissimular a desocupação auditiva ligando-me via auscultadores a uma emissora de rádio, séria, culta. Não me largou o eco do corvo.
Pés no caminho cedi ao piano que tocava a direcção dos compassos até que a sonata se extinguiu e uma voz humana entremeou na minha vadiagem pelo assédio sexual do corvo maneta ao serralho desdenhoso do galinheiro. "Os países que falam português...". Abalou-me a sentença. Nem segui o rumo do razoamento possível, atendendo só ao meu espanto inquieto: sempre acreditara que eram as pessoas que falavam línguas, e agora? País eu?!
Era eu país mesmo?! Cachecol meu ao vento, bandeira? Gemido, hino? Lágrimas, marés? Cílios em ondulação, vendavais? País? Este corpo? E se era, era ilha, arquipélago, península, terra de interior que é dizer sem mar? País com deserto até desprovido de oásis real (miragem é que nunca, nunca!, gritei) para solaz de camelos e aventureiros de filme? País tropical, árido, polar? Era país-continente ou país-aldeia? E de ser, seria república, ditadura dura ou branda, monarquia ou reino de taifas? Era estado, se fosse, autonómico ou federal? Era país de povo soberano ou colónia? E já agora, o meu povo, quem era o meu povo? Olhei para os dedos das mãos, que acenaram lealdades mascaradas pelas luvas; e para os pés nos antípodas de mim, obedientes ainda ao roteiro marcado. Perscrutei na querença do coração e ele respondeu com palpitações rítmicas. Admoestei, fazendo-me forte, o fígado, que porfia em ocupar mais abdómen do que lhe pertence. Os rins, porém, nem cessaram de depurar imundices, fieis lacaios mudos. Enclaustrados, os pulmões, ora inchavam ora amarfanhavam como foles de saudades a infundirem-me roufenho ânimo pela traqueia e o nariz outeirinho. E o estômago, pois, digeriu este despautério todo, tão deliciado ainda no chocolate com que o presenteei de tarde que nem um resmungar insolente arrotou. Mamas, quase cordilheiras; veias e artérias, capilares, vasos linfáticos..., os rios e ribeiros! Como é bom este país que sou, concluí, tão despoticamente esclarecida.
(Até que o cérebro, na função de governo oligárquico legítimo e sorrateiro, insinuou se o corvo vizinho, com os seus ensaios na fala dos galos, não era o fervor das galinhas que procurava, antes ansiava também ter língua para ser país. Como eu. Foi aí que começaram as hostilidades no bairro perante a desídia espicaçante das galinhas.)
domingo, 28 de novembro de 2010
As palavras não voaram
Ou de como uma conversa privada virou pública
Depois estava o Adolfo Luxúria Canibal, que disse quatro ou cinco (ele disse que diria quatro, mas eu contei cinco, só que não contei pelos dedos e eu na aritmética perco-me) estilhaços-poemas do Cesariny (Mário), com piano (que teclava o António Rafael) e contrabaixo (a dedilhar, acarinhar, pelo Henrique Fernandes), mas a música, que era para ser fundo, passou a primeiro plano, abafando a voz. Aliás, estava lá muito público, e a menina Sun Iou Miou, que é meio metro e uma polegada de gente, deixou-se ficar para atrás: gosta de se encostar numa parede, pelo menos uma zona do corpo protegida de alentos e contactos afísicos indesejados, península.
Mas finalmente estive a departir com um casal de amigos (de amigos meus, ambos, digo, que enquanto casal ela é a mulher dele e ele, o homem dela) e apresentaram-me inúmeras pessoas ―a que dei a mão ou beijei, consoante a nada―, que nem irei lembrar a próxima vez que as vir, nem elas, seguramente, a mim. E convidaram-me para ir a Braga, ao Museu de Arqueologia, que haverá lá um recital no sábado vindouro. E eu irei, mesmo que me pese na lembrança demasiado o café que bebi ali, no dia da consagração, quase a correr (acabaste?), porque não se podia fumar dentro.
E foi bom, contudo, com tudo. As palavras afinal ninguém as prende.
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Requiescat (así) o que?!
Escultura de Asorey. Cemiterio de Pereiró. Vigo
Róldame así tan descarnada e impúdica ultimamente que xa conto polos dedos nos dedos que me faltan as ausencias deste ano ou campas nas que non agroman flores bravas nin sequera unha pouca serradela para as vacas.
Hai sorrisos que quitan o alento.
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