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quarta-feira, 23 de março de 2011

Ar iluminado

Para o besugo

Que eles e nós eramos feitos de ar ninguén dubidaba e quen dubidase, dentro das excepcións pertinentes, era apenas por ser feito duns outros gases raros e extravagantes. Sabíase isto a pesar de que nas horas de ceos moi toldados, en que as augas se espellan así mesmo toldadas, un manto de líquida cinza oculte as borbullas de peixes e algas que acolá nos medios fundos trocan os seus osíxenos e os seus hidróxenos en desproporcións dispares. Era tamén verdade científica comprobada até proba en contra que había ademais bastante carbono ao barullo, o que a todos nos daba a solidez táctil, pois un exceso de permeabilidade na esencia implicaba risco de fusións infindables. E en relativas porcentaxes de chisca e migalla, os corpos contiñan outros elementos tales coma o ouro dos dentes, o titanio das próteses internas e externas e os fósforos do cerebro, eses que resplandecen en noites desluadas e nalgúns casos notorios se localizan en cristais polas nádegas, distinguíndose así as especies que salpican a atmosfera a aboiar en dous grandes grupos indiverxentes de escaso peso, os poéticos vagalumes e os prosaicos lucecús, xente, ao final, sempre de palabra, ou como dicía, ar. Ar, con todo, iluminado.

terça-feira, 22 de março de 2011

Água!

Uma tarde levo com um stick na fuça e já na noite a seguir, bimba!, batem-me com uma música numas frases quebradas rascunhadas algures. De ambos acidentes, em aparência, a gente sai indemne. Só que aparências, já se sabe, enganam: o nariz ainda dói e os tímpanos vibram como se um manancial lhes falasse.

segunda-feira, 7 de fevereiro de 2011

Palavra poética

Cá está um besugo que diz que não gosta de poesia e eu só penso (se é "pensar" este fluir de ideias soltas que me acontece num lugar estranho dentro do corpo) que de três uma, ou duas, ou as três: ou ele nunca se lê, ou se se lê não gosta do que escreve (nada abonatório isto para os seus gostos, que já a tara pela bola prejudica bastante mas, enfim, ele é que vende o seu peixe), ou ignora o que é poesia, que nem precisa de ir em linhas quebradas para ser-se como nos seus esguichos é. E onde diz "ou", pode-se ler "e" sem que a ordem dos factores possa vir a alterar o produto nem a palavra poética. Ainda bem... também.

segunda-feira, 20 de dezembro de 2010

A preciosa inutilidade da poesia










A poesia não precisa de ser útil. É no valor imenso da sua inutilidade que se fixa a sua importância. As imagens que possa oferecer ―como quem diz, o dia que se inicia com jogos malabares de pedras, corações-calhaus a dançar no ar que a ninguém alcançam, a ninguém ferem, ninguém é ninguém que passa, o chão que os recebe, prontos para mais um amanhã: a circular persistência do sonho inatingível― podem ser uma verdade qualquer, e a verdade tem frases assim que tocam (música).

_____________
projecto de vida

de manhã
jogo calhaus ao ar e
faço o cômputo das pedras
que não ferem nenhum passante
os passantes não passam
as pedras estão no chão e
os calhaus cairam todos
novamente

Ana Saraiva. 19 de dezembro de 2010
(Versão para português de María Alonso Seisdedos)

segunda-feira, 13 de dezembro de 2010

Criatura











Nasceu um blogue que não é mais um, antes é UM muito especial para mim e que faz parte do melhor legado que nunca sonhei receber.

Chegou a hora de ouvir a voz que nasce do pensamento da Maria Garrido.

quarta-feira, 8 de dezembro de 2010

Recado

E tu não escrevas, não! Aparece e desaparece conforme... conforme? Inconforme! Ou será desconforme? Perco-me nos prefixos enquanto tu ―tu, sim, não esquives o olhar, não me interrogues, mudo, é comigo? Há alguém mais aí por acaso? Deixa-me acabar uma frase ao menos! Dizia que estás guadiânico, mas é novidade isso? Pois, sempre estiveste num surjo-sumo e vocês (ou seja nós com o eu de mim dentro) fiquem aí com sede de beber, que esta água ninguém bebe a não ser que eu (eu de tu, tu a pensares, se pensares) diga bebam, me der a beber, bebam-me, ponham o gelo. Dizia que apareces e desapareces e não és lua nenhuma tu para ter a terra inteira à espreita dos teus movimentos elípticos, os teus claro-escuros de cara oculta e mostrada, nocturnos, iluminados, assombrados os lobos todos aqui a uivar a tua inexistência ausente, e tu aí, ali, não, no além duma nuvem, afundado, acenando, bezerro de ouro, digo de letras mentidas, ouropel nos mercados, pedraria esplendorosa e vadia pelos firmamentos, universos do nada. Dizia... dizia o quê? Ah, sim, não escrevas, não, digo, escreve-te, corpo devassado, deus que se cria do verbo, esculpe-te em barro-embuste e levanta paisagens, reinos animais e vegetais, apsicologias diversas, esfuzia gritos como metralha (e os seus silêncios fundos que estremecem os ninguéns que escutam), nunca cales tanto tempo que o tempo cale, ouviste? Pronto.

terça-feira, 7 de dezembro de 2010

49: o presente

Uma cifra qualquer é o que é, um dia em que sempre chove desde há tantos anos, anos que agora, vistos de aqui, parecem nada: nada não como no tango, apenas nada como nada: o passado é um invento, uma criação necessária para segurar os pés à beira do precipício que dizem futuro.

O presente, porém, existe mesmo: foi-me oferecido e está aqui.

domingo, 28 de novembro de 2010

As palavras não voaram

Ou de como uma conversa privada virou pública

Era sábado de tarde, ontem, e fui a um encontro de que regressei de certa maneira desiludida. Ou não. Em qualquer caso, culpa minha, que decidi não renunciar ao passeio diário com os cães monte acima, monte abaixo e (uma) margem do rio e monte acima de novo: encostas. Perdi a melhor parte, que era o "Poetas na rua", com o Isaque Ferreira de coordenador, a quem já vi/ouvi várias vezes nas Quintas e (julgo eu que) é um excelente dizedor de poemas, o melhor que eu conheço, ai, isso é: não que o meu universo de dizedores de poemas seja amplíssimo, mas um número nem bom nem mau deles já ouvi. Cheguei, pois, só(-zinha), ao que supostamente era um lançamento de livros, mas foi apenas um desventramento (as palavras, dentro dos respectivos livros, não voaram), lições de teóricos do acto de poemar, estudiosos de vidas e obras, leitores-inquisidores de cartas alheias, já se sabe, e eu sem espingarda nem faca de matar porcos à faca (agora matam-se com pistola e, diz-que ―aos porcos ninguém perguntou nem depois de mortos―, é indolor). Não se assustem: são alergias minhas a aulas de literatura. Nada de grave para o mundo.

Depois estava o Adolfo Luxúria Canibal, que disse quatro ou cinco (ele disse que diria quatro, mas eu contei cinco, só que não contei pelos dedos e eu na aritmética perco-me) estilhaços-poemas do Cesariny (Mário), com piano (que teclava o António Rafael) e contrabaixo (a dedilhar, acarinhar, pelo Henrique Fernandes), mas a música, que era para ser fundo, passou a primeiro plano, abafando a voz. Aliás, estava lá muito público, e a menina Sun Iou Miou, que é meio metro e uma polegada de gente, deixou-se ficar para atrás: gosta de se encostar numa parede, pelo menos uma zona do corpo protegida de alentos e contactos afísicos indesejados, península.

Mas finalmente estive a departir com um casal de amigos (de amigos meus, ambos, digo, que enquanto casal ela é a mulher dele e ele, o homem dela) e apresentaram-me inúmeras pessoas ―a que dei a mão ou beijei, consoante a nada―, que nem irei lembrar a próxima vez que as vir, nem elas, seguramente, a mim. E convidaram-me para ir a Braga, ao Museu de Arqueologia, que haverá lá um recital no sábado vindouro. E eu irei, mesmo que me pese na lembrança demasiado o café que bebi ali, no dia da consagração, quase a correr (acabaste?), porque não se podia fumar dentro.

E foi bom, contudo, com tudo. As palavras afinal ninguém as prende.

quarta-feira, 24 de novembro de 2010

De dúas cores e tantos tons...

Gustaranlle as cores e a ausencia delas, que é como dicir, gustaralle todo o que lle guste e punto. Le, ouve e dá(se) a ler, baixo un título de dúas cores, que me lembrou que aínda non lin a Stendhal. Ou talvez lin, que eu ando nunha de desmemorias tal que un día redescubro un blogue e logo esquezo que xa o redescubrira había nada. Por sorte, ainda son capaz de relembrar o que esquecera, cando o vermello e o negro, está só a unha carreiriña dun can (ou dun galgo).

Digo, grazas!

domingo, 29 de agosto de 2010

Éramos poucos...










Sexta-feira passada, depois de matutar até o ponto de quase fundir o cérebro, achei que não devia limitar-me a espreitar e clicar em "gosto" pelo feisebuque fora. As palavras do Vítor Oliveira Jorge que entre delicados dardos contra os voyeurs (ai!) aludiam às revoluções internas, animando a rebentar esquemas, remoíam em mim num fervo não fervo quase incandescente que me queimava nos dedos. O que é que eu podia fazer nessa imensa montra de egos? Como quer que a ideia de entregar esforços a alimentar vaquinhas que nem se deixam comer não me enchia, optei por fazer o único que sei... mais ou menos: traduzir. Assim, criei nas "notas" um compromisso comigo para ir passando poemas de autores de que gosto (uns de sobra conhecidos, outros nem por isso) de português para espanhol e mesmo, vez por outra, com muito atrevimento, ao contrário.

Mais tarde ocorreu-me que bem podia expor esse trabalho (porque é um trabalho mesmo, ou pensam que enfio os poemas no tradutor-bimby do google, hein?!) além do círculo reduzido e selecto de amiguíssimos feseibuqueanos, criando mais um blogue com idêntico esquema, aberto ao planeta Terra e parte de Vénus, por enquanto. De certa maneira, uma ponte que se juntava ao que esta tem chegado a ser pouco e pouco.

E como se tratava de partilhar e havia um apartado do Abnóxio de Ademar Ferreira dos Santos de cujo contido e epígrafe sempre gostei... à maneira nasceu o título:


No blogue irei colocando os poemas que escolher para o féisebuque. Como quer que alguns já saíram lá desde Sexta-feira, aparecem agora n'O poema... com essas mesmas datas. Só a partir de hoje é que começarão, notas e blogue, a estar sincronizados.

Eu sei que há por aí algum amigalhaço que não aprecia poesia (e ainda bem, porque então, olhem que nojo, ele seria perfeito!), mas eu também te digo, meu caro, não lerás meia palavra a gabar bola neste tasco. Porém, isto será mote para outra postagem...

quinta-feira, 26 de agosto de 2010

Garrafas com mensagem (1)

Em tempos tive um amigo catalão cuja mãe, ainda solteira, face à inchação crescente da barriga, num outro milénio em que a prenhez fora dos limites do matrimónio era, além de opróbrio, pecado (ou viceversa), defendeuse da ira paterna e a vergonha materna alegando que aquilo vinha dependido de se ter banhado repetidas vezes (reparem na reincidência a lata da pecadora, se não é isto tentar o demo...) na praia da Barceloneta. Hoje, oito anos depois do lavado de cara das Olimpíadas, presumo aquelas águas tão limpas que a gente pode afogar nelas sem qualquer risco para a saúde, mas naquele então os argumentos da futura mãe do meu amigo eram de peso e evidente gravidez.

Primeira garrafa com mensagem
Lembrei isso há dias, ao deparar no Alpendre da Lua com uma notícia, em cujo final, aliás, o administrador do coiso citava, muito amavelmente, um texto deste blogue (estamos aqui num puxa-saquismo quase patético). Vejam.

Um executivo com ar de não ter pisado nunca fora do rego (talvez não é muito feliz a escolha da expressão) colocou repetidas vezes sémen próprio na garrafa de água duma colega de trabalho. Até aqui tudo bem: uma ideia perfeita para a mente dum tarado conceber. Mas há algumas incógnitas de índole para-científica não esclarecidas no jornal que me têm desde a data numa de insónias inquietantes.

Como é que fez o Michael Kevin (este pessoal tem mesmo nomes de telenovela) para enfiar o esperma pela boca (quase ia utilizando à galega "bico" para dar nisto um toque etno-medieval, mas depois ficam-me todos nervosos) da garrafa? Eu só imagino aquilo tudo esporrado por fora, visto que a maioria dos homens nem para mijar, com a pila bem segurada e fixa, acertam no wc, que tem um diâmetro consideravelmente maior, quanto mais...

Ora, a água é, como bem aprendemos na escola, um líquido incolor, inodoro e insípido. A mim não me digam que uma gota de esperma que seja não dá nas vistas por ali a aboiar com aquela corzinha esbranquiçada? Quanto ao sabor, ainda levou três meses a gramar água choca antes de notar qualquer coisa de estranho?! Se calhar, a papalva ia pensando, "Olha que isto que estou a beber é bom como a água, tem um gosto que me traz belas recordações mas não identifico" e tal. Acontece muito nos cursos de cata entre pessoas inexperientes. Já relativamente ao odor, aí pronto, concede-se-lhe o benefício da dúvida, pois nem toda a gente consegue farejar que um colega de trabalho possa trazer água no bico ou que essa água não fosse flor que se cheirasse.

Porém, um dos poucos pormenores que levou a vítima a desconfiar foi o facto de ela ficar indisposta depois do acto, vamos denomina-lo assim, de libidinagem. Esta também não percebi. Eu já fiz inquéritos para me documentar seriamente e das 1637 mulheres entrevistadas, 78% afirmou que jamais se sentiram indispostas por ingerirem esperma pela boca, muito ao contrário, algumas (67'9% destas) sentiram-se muito bem dispostas; houve 12% que alegou preferirem água com gás; 7% declararam-se lésbicas; e o 3% restante não souberam barra não responderam (aqui incluo uma senhora que me bateu impiedosamente com a mala).

É por isso que, ao meu parecer, este insólito episódio só se explica através das subtis apreciações feitas no Alpendre, o que me leva a animar os governos das sociedades mais avançadas a proverem de fundos à comunidade científica para investigar na linha aventada com tão pouco êxito pelo Michael Kevin.

domingo, 16 de maio de 2010

Em conjunção

Improviso sobre uma tela desta noite...*















Lua e Vénus



*Poema de Ademar Santos.

sexta-feira, 14 de maio de 2010

Ela está farta!








24horas, 09.05.2010



Valha-me deus! Sim, porque uma coisa são sextas, todas, vá lá, todas as sextas. E sábados, pois, sexta e sábado, afinal, escrevem-se com "s" de sexo. Mas ainda nos domingos por vezes?! (Já não há nada sagrado?) Dois dias de sexo na semana e por vezes três! E se calhar é capaz de empregar até três minutos em cada. Não, não posso deixar de me solidarizar com a senhora. Experimente com um caldinho de aranha, e se não der, sempre tem o veneno das formigas. É lento mas seguro. Morte ao insaciável!

___________
Não me digam que não há cá argumento para a inspiração duma bela melodia pimba? Eu ofereço o refrão.*

Ela está farta
de que não farte.
Sofra um enfarte,
que um raio o parta!

'Tá aborrecida
de tanta queca
que grande seca
virou a vida!

'Tá a Antónia cheia,
não mais atura
'tar volta e meia
na tal tesura.

Venha uma droga
p'ró maridão,
que o mande, roga,
já p'ró caixão!

Venha um remédio,
morra a tesão!
Parem o assédio,
por compaixão!


*Eu podia morrer milionária com isto.

domingo, 9 de maio de 2010

O parvo, se é anónimo, passa igualmente por parvo









A propósito desta embaraçosa questão, encontrei na casota do Rafeiro Perfumado um comentário que me permiti roubar e cujo autor ou autora não cito simplesmente porque aquilo é obra! (força de expressão) dum ser que se ampara na modéstia pudibunda do anonimato. É assim que nos mostra a luz no fim do túnel a mente privilegiada e esclarecedora:

Depende. Há casos provados em laboratórios de biologia de que a própria mulher pode ter um filho seu sem haver fecundação por parte de um espermatozóide. É um caso em cada mil milhões (óbvio que aproximado e exagerado) mas ocorre. Há uma interacção neurológica e a mulher quando está em ovulação, esse óvulo (oócito II) começa a desenvolver-se sem haver penetração e fecundação. Origina um ser humano (óbvio que cheio de problemas* genéticos pois contém um cariótipo reduzido e nem chega a sobreviver. Há casos que sobreviveu.

Perante tamanha evidência científica e pomposo domínio da gíria, impõe-se a interrogação retórica: o tal anónimo assinante não será fruto sobrevivente (óbvio que cheio de problemas genéticos e interacções neurológicas) duma dessas fecundações sem penetração nem espermatozóide que nos valha? Há casos, há, um cada dois mil dez anos, mais ou menos.

_______________
* Ignorava que ser preto pudesse ser entendido como problema, mas pronto, se a ciência o diz quem sou eu ―que deixei o curso de Biologia ao meio e nas aulas de Genética só fiz experimentos com moscas― para rebater nada?

terça-feira, 4 de maio de 2010

À sobrevivência pela abstinência

Andava com um espaço enorme em branco no devenir e na cabeça que não sabia como havia de encher. Isto preocupa-me especialmente porque consequência dessa lagoa mental e vital é a falta de textos, de que o blogue e a minha concentração no trabalho se ressentem... muito. Até que esta manhã caí no tasco do Marreta e fui espreitar à ligação com que ele nos ilumina no caminho à superação da crise. Estes indianos têm uns mistérios paradoxais que abalam com a incredulidade convicta de qualquer um. Há quem tem sede depois de morto e há quem viva sem comer e sem beber (sen comer e sen beber, toda cheíña de frío, toda chea de dolor, diz a cantiga popular galega, aprendam alguma coisa de passagem). A mim, como a todos, assaltou-me a curiosidade. Será que também não...? De qualquer maneira, não adianta escarafunchar: já nunca o saberemos. Reparem que a investigação científica tem o gajo "em observação permanente, sob o olhar atento de 30 médicos", com câmaras a segui-lo dia e noite, do que se deduz que nem na casa de banho pode estar sozinho. E quem é o bonito que consegue meditar assim, hein?! (já não digo mijar ou cagar, que disso se calhar nem precisa), com sessenta olhos ―presumindo, no pior dos casos, a ausência de zarolhos no grupo de investigadores― ferrados nas intimidades duma pessoa?!

Ah, talvez pensaram que a minha dúvida existencial era se a abstinência em comidas e bebidas do abençoado pela deusa abrangia as fodas? Pois, também.

__________
O fulano, digo-vos, nesse regime não dura três telejornais.

quarta-feira, 28 de abril de 2010

Com um sentido ou dois a menos

Imaginem só que há bocado, enquanto tentava escrever um comentário, esqueci um dos cinco sentidos. Pus mentalmente as mãos nos ouvidos, nos olhos, na língua; juntei fisicamente uns dedos aos outros dedos. Faltava um e eu sabia (ainda bem!) que eram cinco: um sentido por cada dedo. Nem o sexto (o dedo, o sentido) me acudia. Tive-o de ir procurar ao espaço virtual: era o olfacto. Às vezes isto assusta-me, falo a sério, assusta-me ao ponto de perder o sentido... ou o rumo.

quinta-feira, 15 de abril de 2010

Manda truco! (por se houver, que haverá, senhoras diante)

Carta ao Pompílio
(que não é assim
que se chama)

É pequena mesmo a blogosfera. Esse vídeo que colocaste do comentarista brasileiro eu já vira noutra parte. Mas não é isso o curioso. O curioso é que remetes para um tal Manuel Azevedo. Nem parece um nome muito invulgar, quer-se dizer, não é, como tu, um Pompílio Levinski de Altares que se diga. Mas a mim fez-me clinc nalgum neurónio dos que me restam em actividade e fui ao Luís Pedro Azevedo indagar. O Luís Pedro Azevedo é um gajo que um dia me pediu no facebook para ser meu amigo. Naquele então, como costumo fazer, primeiro fui ao "perfil" (a página do facebook onde constam os dados que cada um decide colocar para toda a rede ver e que podem ser nenhuns) e ali vi que tinha um blogue. Fui espreitar e soube que era (isso dizia ao menos) advogado, que morava (declarado também por ele) em Évora. Não me pareceu mal, não fosse alguma ligação por ali colocada que me arrepiou, mas me propus despreconceituar-me e passar à segunda fase. Perguntei-lhe em mensagem interna porque é que queria ser meu amigo. E respondeu (já só por isso as minhas normas obrigam-me a aceita-lo... mas no intuito de me proteger redigi-me também uma norma que estabelece que se ao cabo dum tempo não gosto do "amigo", tenho direito a remove-lo impiedosamente com um simples e único dedo) que vira um comentário que eu fiz no mural do facebook dum poeta ―que não vou revelar que seja nem gordo nem careca porque assim, obviamente, já logo o pessoal sabe quem é―, que depois fora aos meus blogues (cujos endereços tenho colocados no perfil visível a todo o público do FB) e gostara. De maneira que o aceitei, porque a mim, que queres?, a vaidadezinha me pode quando os tugas reparam, talvez só pelo exotismo, que sei eu!, na minha escrita.

Toda esta léria para dizer que o Luís Pedro Azevedo tem as ligações dos blogues que visita classificados em grupos e num deles, com o epígrafe de "Parentela", está um dum tal João Azevedo em que encontrei vários comentários dum Manuel Azevedo que casualmente ou não é o mesmo que tu citas hoje. Caso este cujo relato um galego terminaria abanando como que pensativamente a cabeça e dizendo sem levantar muito a voz: "Manda caralho!" (ou "Manda truco!", se houvesse senhoras, roupa estendida, diante).

E sim, como lês/vês, estou melhor. Melhor ânimica do que fisicamente ou talvez ao contrário, mas por momentos. Ou seja, um farrapo. Levantei-me há uma hora da cama para fazer um caldo (almoço tenho ainda do de ontem, que fiz uma carne e estava bem boa, ó incrédulo). E agora, uma vez escrita esta carta, vou inventar qualquer outra coisa para fazer.

E não, o sol hoje não assomou por aqui. Chove e a deus da-la. Mas mesmo assim, repara

beijo
te

terça-feira, 30 de março de 2010

Un sur para cadaquén (e para min, o vento)






Foto: Mario López Alonso

Canto desencontro xunto, sintetizou tras os aplausos o Tronkimazín, técnico de cabeceira nas psiquiatrías miñas, e eu concordei nun pois. Pero antes foron os encontros, isto é, os prolegómenos, saúdos sobre alfombra vermella imaxinaria, co vestíbulo ateigado polo dobre de pernas ca de caras coñecidas. En resumo, frenesí de bicos que soslaiei nun serpear polas esquinas, avara até dos sorrisos que a presión me raciona no cálculo multiplicado a ollo polo da tal falta de folgos que me entra: sumiume a tensión á sola das botas.

Apagáronse, por fin, as luces do patio de butacas e acendeuse unha expectación directamente proporcional ao alento contido. E... Hm? Hors d'ouvre? "Gato Negro Productions presenta"? Coma no cine de verdade un avance da curta-metraxe La Familia Pomodoro, auga na boca e bágoas nos ollos... das gargalladas. Apetitosas, preséntense, entre outras, as interpretacións da avoa e a bisavoa. Que sexa, pois, en breve.

Aí veu o prato principal, receita e elaboración do Condado (sen hipervínculo, que anda de blogosfera restrita):

Historias de blog... I, II e III, á distancia de cadanseu clic.

E de sobremesa, como galegos que somos (no sentido galego do termo) fomos comer e beber: unha farta de lacón con grelos, tinto e licorK, que case me manda ao coma colesterólico tensísimo profundo, non fose porque desbravei disertando durante horas sobre as coordenadas exactas do sur nun testa a testa psicanalítico co Tronkimazín, que non me explico de onde quitei a leria. Aínda hoxe desconfío se non me botou droga na bebida.

Pero só cando saín á rúa e o vento me limpou os ollos enxerguei o sur, ao lonxe, onde sempre estivo, na fábrica do ar que trae a chuvia e as palabras.

sexta-feira, 19 de março de 2010

É ele!









O Condado* estreia curta-metragem e eu, artista na família. :)

*Não o posso linkar porque anda de portas quase fechadas. :( Manias!

sexta-feira, 26 de fevereiro de 2010

Quinta das quintas, segunda parte

Ontem lembrei-me muito de ti, Oscar.

Não de tarde, repara, quando caí em câmara lenta no jogo de hóquei, a mão esquerda aguentando a massa pouca e o muito peso, que eu queria falar e não conseguia, os colegas à minha volta assustados porque eu não ria como sempre, todavia com vontade de rir e dizer não foi nada, estava sem ar para distribuir tranquilidades até que enfim, o peito se abriu e abri a boca como um peixe (imagino), ah! Não, não foi aí que eu me lembrei de ti.

Também não foi mais tarde que me lembrei de ti, quando ia de carro para o Porto e davam o jogo do Sporting na rádio, que fiquei a ouvir segundos demais para quem não gosta mesmo de ouvir nem ver bola, a desejar que ganhasse só pela felicidade desse meu amigo que guarda os pedacinhos dos seus sonhos partidos como cristais na boca do estômago, que estava tanto a precisar duma vitória assim.

Não, Oscar, lembrei-me de ti quando na plateia se apagou a luz e se iluminou o palco. Lembrei-me de ti nos poemas, na dança, nas vozes, nos vídeos e nas fotografias, nas músicas, nos silêncios e nos sorrisos, até nas gargalhadas, porque sei que nesse mais longe em que habitas agora, tens entremeado o amor de saudades. Lembrei-me de ti por aquele dia, ou foi noite?, em que eu queria afogar para sempre a escrita e o blogue e me ralhaste, ofendido quase, e então tantas pessoas lindas que eu conhecera e ainda havia de encontrar nesta terceira margem? Lembrei-me porque assim conheci a Alma, com quem me encontrei ontem, e porque sei que ias gostar dela e ela de ti, como eu gosto de vocês. E das Quintas, claro.