Ou de como uma conversa privada virou pública
Era sábado de tarde, ontem, e fui a um encontro de que regressei de certa maneira desiludida. Ou não. Em qualquer caso, culpa minha, que decidi não renunciar ao passeio diário com os cães monte acima, monte abaixo e (uma) margem do rio e monte acima de novo: encostas. Perdi a melhor parte, que era o "Poetas na rua", com o Isaque Ferreira de coordenador, a quem já vi/ouvi várias vezes nas
Quintas e (julgo eu que) é um excelente dizedor de poemas, o melhor que eu conheço, ai, isso é: não que o meu universo de dizedores de poemas seja amplíssimo, mas um número nem bom nem mau deles já ouvi. Cheguei, pois, só(-zinha), ao que supostamente era um lançamento de livros, mas foi apenas
um desventramento (as palavras, dentro dos respectivos livros, não voaram), lições de teóricos do acto de poemar, estudiosos de vidas e obras, leitores-inquisidores de cartas alheias, já se sabe, e eu sem espingarda nem faca de matar porcos à faca (agora matam-se com pistola e, diz-que ―aos porcos ninguém perguntou nem depois de mortos―, é indolor). Não se assustem: são alergias minhas a aulas de literatura. Nada de grave para o mundo.
Depois estava o Adolfo Luxúria Canibal, que disse quatro ou cinco (ele disse que diria quatro, mas eu contei cinco, só que não contei pelos dedos e eu na aritmética perco-me) estilhaços-poemas do Cesariny (Mário), com piano (que teclava o António Rafael) e contrabaixo (a dedilhar, acarinhar, pelo Henrique Fernandes), mas a música, que era para ser fundo, passou a primeiro plano, abafando a voz. Aliás, estava lá muito público, e a menina Sun Iou Miou, que é meio metro e uma polegada de gente, deixou-se ficar para atrás: gosta de se encostar numa parede, pelo menos uma zona do corpo protegida de alentos e contactos afísicos indesejados, península.
Mas finalmente estive a departir com um casal de amigos (de amigos meus, ambos, digo, que enquanto casal ela é a mulher dele e ele, o homem dela) e apresentaram-me inúmeras pessoas ―a que dei a mão ou beijei, consoante a nada―, que nem irei lembrar a próxima vez que as vir, nem elas, seguramente, a mim. E convidaram-me para ir a Braga, ao Museu de Arqueologia, que haverá lá um recital no sábado vindouro. E eu irei, mesmo que me pese na lembrança demasiado o café que bebi ali, no dia da consagração, quase a correr (acabaste?), porque não se podia fumar dentro.
E foi bom, contudo, com tudo. As palavras afinal ninguém as prende.