segunda-feira, 13 de outubro de 2008
A velha polaca VII
Lembrava com saudade os tempos em que na casa tinham um belo quintal onde passava horas esquecidas com o senhor, ambos num banco, protegidos do barulho exterior por um muro alto, alto. Era o paraíso privado deles. Naquele então o senhor brincava com ele, encorajava-o perseguir pássaros que nunca conseguia alcançar, lançava-lhe paus, que ele por comprazer lhe trazia de volta... era uma maneira de enganar o tempo. Logo aparecia a dona e chamava-os para beberem o chá, e o senhor olhava para ele, piscava-lhe um olho, entrava na casa e saía com a bandeja cheia de petiscos e aquele líquido quente infame do que tanto gostavam, e a ama vinha atrás dele a rir, e o senhor ria, e o Tisco, que não ria mas era como se risse, corria atrás deles a saltitar, a abanar a cauda, como agora, que finalmente iam ao jardim.
quarta-feira, 8 de outubro de 2008
A velha polaca VI
O telefone não parava de tocar. Desde que decidira acrescentar um complemento ao ordenado anunciando-se nas páginas de contactos para compensar a miséria que lhe pagavam no banco quase nem fazia mais nada. Às vezes, não negava, excitava-se, mas era um trabalho limpo —limpo, digo?, impoluto— e tentava não se implicar desnecessariamente com a clientela.
—Oláaaa...? —atendia, prolongando a vogal num decrescente interrogante de voz grave e cálida.
Do outro lado a variedade imperava. Também não impusera condições, tanto lhe fazia peixe como carne, enquanto a relação fosse meramente oral. O seu nome de guerra era Aser, que satisfazia todo o mundo, pois o mesmo evocava uma víbora de vertiginosos saltos e decote infinito, um magno general de armas rendido, um sedutor maduro delicado e afável, um tigre bengali de exotismo voraz.
Filho bravo dum banqueiro lisboeta, aproveitou a mensalidade generosa que este lhe depositava a fim de evitar um desagradável —em muitos sentidos— exame de ADN para sufragar os estudos de Económicas sem sobressaltos, e terminou o curso com um currículo nada desprezível. Depois, o próprio pai encarregou-se de lhe procurar o estágio pertinente na sucursal portuense na que despregava todos os seus encantos para seduzir num agora-cedo-agora-puxo deliberado o director, não só porque gozava com aquele lambe-cus tirânico dominado, mas porque era um passo crucial nas referências que lhe procurariam um contrato digno.
—Puta que pariu o cão! —abafou cobrindo por instinto o micro do telefone com os dedos, enquanto trocava um sorriso lúbrico com o doutor Segismundo, que já despossuído de mando mas crédulo convicto no seu papel de chefe e macho, o cominava a livrar o encerado mármore florentino do opróbrio.
quinta-feira, 25 de setembro de 2008
A velha polaca. Capítulo V
quarta-feira, 17 de setembro de 2008
A velha polaca. Capítulo IV
Mas correu a manhã e ela não lhe desvelou o seu segredo, aumentando a angústia que o roía com dentes de arminho. Ele também calava, não provocava respostas, não adiantava a morte, sem imaginar sequer a crueldade que a havia de acompanhar. E assim passou uma semana. Uma semana de olhar para o relógio quando ela se atrasava, uma semana de janelas escancaradas pelas que entrava radiante a primavera, sete dias, sete noites a sentir crescer o cancro, os ciúmes, e o pior: os remorsos de sentir ciúmes.
Quando no sétimo dia entraram as primeiras luzes da manhã no dormitório sem persiana nem cortinados filtradas pelas folhas da faia, soube que o mundo estava para afundar à sua volta.
—Papai —disse sem preâmbulos, e nunca até então o magoara aquela palavra, que foi a primeira nos seus lábios de criança e seria a derradeira que lhe ouviria na voz de mulher a se afastar para sempre.
Ele alçou a vista do jornal no que dissimulava a pena, no que lia o seu necrológio, perdido entre tantos, tanta gente morre cada dia. Não falou, aguardava —ainda ninguém inventara as palavras que disfarçassem a tristeza de alegria.
—Queria-lhe apresentar um amigo. Se lhe parece bem, esta tarde, depois do almoço, há de vir para o café.
E continuou a falar, enquanto cada som, cada nota que entoava, eram mil agulhas de aço que o furavam, milhões de lascas de vidro a se lhe pintar de vermelho no peito, nas pontas dos dedos, nas coxas, na língua, na menina dos seus olhos que se cegavam, ela sem perceber que falava com um morto, ele ignorando que já secara, que não lhe restava uma gota de seiva nas veias.
Dez mil e oitenta minutos depois despedia-a, a sacudir no ar um pano que parecia branco e era a sua alma de luto que estremecia em estertores; ela a agitar pela janela o ramo que desprendia pétalas de flor de laranjeira, flocos de neve resplandecentes como o sorriso que se lhe abria ao gritar, "Adeus, papai!". Ao longe ia se apagando a placa de letras brancas sobre fundo preto, preto, preto, enquanto esvaecia o P preto, preto, preto, emoldurado por uma elipse branca, no desportivo vermelho que o fulminou na calçada ante a casa virada para o Báltico na que nasceram e morreram inumeráveis gerações de Bukovskis.
segunda-feira, 8 de setembro de 2008
A velha polaca. Capítulo III
A mulher ao lado ressoava, impertérrita, talvez até demais. A um observador alheio ao filme dar-lhe-ia a sensação de que era uma treta. E ele aceitava pois também não tinha interesse em iniciar uma troca de palavras insubstancial que nesta altura do matrimónio a nada conduzia. Na casa de banho tentou fazer o mínimo barulho, lavou-se pouco e mal. Debruçado sobre o lavatório, deu uma ensaboadura nos sovacos e no pirilau, salpicando um bocado no chão, não fosse a Jennifer pedir guerra e o apanhasse desacautelado. Espremeu gozoso uma espinha que lhe desluzia o nariz com o rosto a dois centímetros do azougue e eliminou os restos com uma ponta da toalha. Depois passou gel pelo cabelo, medido, sem o estragar, molhando-o bastante para que aguentasse sem descolar até ao fim do dia. Tirou do cabide o blazer azul de botões doirados e logo de fechar a porta do dormitório, contemplou-se no espelho do hall enquanto o vestia pelo corredor adiante.
Na cozinha pegou no frasco do café instantâneo, aqueceu água no microondas e fora, tragou-o dum golo. Então sim, pôs o abrigo e saiu desferindo golpe tal na porta, que abalou o edifício. Que acordasse agora se queria a pandorga. O que acordou foi o vizinho a xingar-lhe os mortos.
Quando chegou à sucursal já tinha a Jennifer e mais o Eustáquio à espera, enregelados. Vendo-os, aguardou pelo saúdo de ambos a coro, como era o costume ditado pelas jerarquias. Antes de lhes franquear o passo e dissimulando ás costas do subordinado piscou-lhe o olho à bolseira. Ela correspondeu semiocultando com os dedos os dentes branquíssimos e com um falso rubor que sabia que lhe dava tesão.
Cada manhã era o mesmo. Entrava no gabinete, conectava o computador, lia o correio electrónico, examinava na imprensa local as necrologias e ligava à central caso houvesse alguma incidência. Depois fechava a porta, como se guardasse ali coisas importantes que não deviam ver olhos profanos, e acenando à moça com o indicador da mão direita a apontar para o tecto, dizia:
—Pst! Saio um segundo ao pequeno-almoço, menina Jennifer. Se perguntarem por mim, que estou numa reunião.
—Vá tranquilo, xôtor Segismundo —respondia ela invariavelmente. E arrebentava-lhe no rosto o balão do chicle.
Quando se dirigia à porta, viu-a vir ao longe. Acanhou instintivamente. Toda aquela arrogância que exibia ante os empregados desmanchou sem metáforas. Correu a abrir, com os pés e a dignidade a rasto.
Atrás do vidro blindado, o Eustáquio contorcia a fuça a estalar a língua, enquanto tentava extrair de entre os dentes unha migalha de bolacha que o enfadava. A Jennifer, que também reparara na dona Ludmila, debatia-se entre permanecer no posto ou ir retirar num pulo o ficus. A indecisão perdeu-a.
quarta-feira, 6 de agosto de 2008
A velha polaca. Capítulo II
Estava era feliz aquela manhã. Acho que já alguém o tinha dito. Um dia espantoso pressentia. O pequeno-almoço fora bom: restos de havia uns dias que lhe arrecadara a cozinheira -que bela mulher!-, com o seu toque bolorento. Vejamos se não desandava, que essa era outra, que se lhe criara o estômago delicado de tanto o alimentarem a poder de calhaus insulsos. E agora o passeio, xiça! Pode-se pedir mais no mundo? Logo que a viu com os sapatos de salto alto e o casaco de meia-estação, desatou a pular da alegria. Além disso, a olhada dela não o confundia, como absorta, os movimentos mecânicos, guardava o telemóvel e as chaves na bolsa. Era rua, rua, rua! E até talvez se achegassem ao jardim. Farejava que sim, hoje era mesmo, que o senhor levava dias sem dar sinal de si, e isso era visita certa à Cordô. Praia esperava que não, que o mar, às vezes, quando se punha bravo, ó caraças, era de respeito. E depois as danadas das areias, a se lhe ficarem nos olhos, nas orelhas... Sempre acabava a pedir colo. Uma poça de lama isso era diferente. Mas não estava com ar de querer chover. Então? Sai a gente ou não sai?
Ao dobrar a esquina levou com a rajada nas ventas. Glória bendita! Como ele gostaria de ficar a morar lá. Invejava aqueles gatos sempre em volta das lixeiras. Tomara ele essa vida... Não se lamentava, atenção, que não era mal-agradecido, que a jaça dele não era coisa de menosprezar -todavia, não lhe agradava aquela teima em lhe mudarem tanto o cobertor, com aquele fedor a química que lhe provocava espirros de contínuo- e a janta não lhe faltava. Mas, olha, ainda havia de imitar o senhor, sumir para aí uns diítas e fazer a corte a uma cadela que lhe enchia o olho, de ali da vizinhança, que já quase lhe tinha esquecido a última queca que dera, com aquela do pedigri, que porfiou a ama e teve de cumprir pelo que-não-seja. E logo como quer que os gatos sempre arrebentam as sacas (que a criada põe-se é levada da breca quando vê a ciscalhada e roga praga para eles uma semana), até podia lamber uma espinha e ir arranjando. E que viessem na procura dele, como faziam com o senhor, tudo beijinhos e afagos, vá, Tisco, malandrecas, para a casa, ai criatura, coisinhamailinda. E daí? Não tem a gente direito?
Ah, não, de jardim nada. Pópilas! Ião à do xôtor Segismundo. Que louvaminheiro o gajo, sempre com a cabeça ao rés do chão, que deve ter a coluna feita um sete. E mesmo assim, no outro dia quase o esborracha, que se não lhe joga a boca à canela, a esta altura via-se empalhado em cima do televisor, como a raposa; ou ao pescoço como o furão que leva no inverno a ama de passeio, que chama de estola de visão, e não é nada, acham que não sabe a gente distinguir um bicho do outro? Lá vinha a abrir a porta, nem que levasse um foguete no cu. Se calhar nem sabe que abre só, mil vezes tinha entrado ele ali: toca-se na campainha e abre-se, como a da casa, aos domingos, quando não está o Arturo, e puxa o fio desde o sótão o melindroso do Paulinho. Podiam era terminar logo, que não percebia o que viam nesse lugar... fora o fícus aquele. Olha, foi pensar na planta e veio a vontade a apertar.
segunda-feira, 4 de agosto de 2008
Experimentação... em português?
duma estória em clave
que nunca deveu ser imaginada
escrita em compasso de duas em duas mãos
A senhora Bukovski saiu cedo aquela manhã. Estava preocupada. Não devera, era sempre o mesmo, mas não podia evitar o desassossego. Três dias passaram já, com as suas noites, e as temperaturas desceram muito. Abanou a cabeça ao de leve e olhou para o Tisco, o Yorkshire anão, que caminhava feliz ao seu lado.
—Primeiro vamos ao banco —disse— e depois damos é uma volta, vemos de o encontrarmos.
Ao cão pareceu-lhe bem.
A sucursal não ficava longe. Era na mesma rua, um bocadinho mais adiante. Nem lhe fez falta tocar na campainha, que já o director a viu desde dentro e acudiu, todo feito reverências, a abrir.
—Lambecricas —fungou ela, surpreendida ao se ouvir pronunciar aquela palavra que pouco condizia com a distinção que emanava o seu aspecto. E sorriu.
Eram muitos anos no país já, desde que aos vinte e tal, durante uma excursão a Polónia, a namorara aquele português paroleiro, podre de grana e bastante mais velho do que ela, apesar do seu empenho em parecer mais novo. Casou aos seis meses, após lidar contra a desconfiança do pai, e nunca se arrependeu, pois tratara-a como uma rainha até que deu em desvairar, coitado. Porém, na memória das suas raízes não renunciara ao apelido e ele, gozão, sempre a chamara "minha velha polaca", enquanto ela lhe correspondia com um risonho "meu rapaz".
(Continuará...)
__________________
Assim percebe-se alguma coisa ou tambén não? Digam-lá, não vou ficar traumatizada. Já estou.