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segunda-feira, 25 de abril de 2011
quinta-feira, 16 de dezembro de 2010
Os outros mestres
Uma loja de ferragens decente é um naco de paraíso metalizado. (Fosse o mundo uma livraria, uma loja de ferragens e mais um rio de águas bravas, eu pedia para mim a eternidade no aquém.) Desde a porta até ao meio fundo há metros cúbicos de prateleiras que estreitam os corredores. Ainda não alcancei o balcão e já a menina me interpela intuindo a minha insegurança.
―Eu queria ―digo― uma coisa que não sei se têm aqui.
―Temos ―responde e, revelando o caminho à imensidade, manda-me descer as escadas.
Desço e peço pela minha boca o que o funcionário, sem hesitar no labirinto, mostra. Tomamos medidas e ele explica-me qual a maneira de montar a engenhoca, como quem dá uma aula à minha ignorância com a paciência e sabedoria duma escola antiga.
―Eu queria ―digo― uma coisa que não sei se têm aqui.
―Temos ―responde e, revelando o caminho à imensidade, manda-me descer as escadas.
Desço e peço pela minha boca o que o funcionário, sem hesitar no labirinto, mostra. Tomamos medidas e ele explica-me qual a maneira de montar a engenhoca, como quem dá uma aula à minha ignorância com a paciência e sabedoria duma escola antiga.
terça-feira, 25 de maio de 2010
domingo, 18 de outubro de 2009
Elogio da ignorância (ou do comer mosca)
Foi assim, é. Começa-se o relato pelo final, estragando-o. Fiquem sabendo, pois, que não engoli a mosca.
Os olhares convergiram em mim todos: uns poucos, que me desconheciam, horrorizados pela blasfémia que saíra pela minha boca; os restantes, que eram os mais, admirados ante a grosseria, nada habitual em mim, no mínimo, em tão elevado tom de voz e lugar público. Arrependi-me no logo-logo, não porque me aflija obrar para não-seres em cuja existência desacredito, antes porque faltando-me escasos pontos para o ingresso na categoria dos desvariados, receei somar mais alguns. Não disse, mas estava num café, felizmente, na Aldeia —nem quero saber se isto me acontece num botequim qualquer de passagem. Pedira um pingo (ninguém me mandou!) e acheguei a chávena aos lábios, a tactear a temperatura. Ao primeiro e sempre breve golo, notei no centro da língua um lixo como de meio centímetro, que levei à ponta para examinar a consistência, entre mole e dura, seca, palhenta, descartando aí que fosse migalha de pão ou bolinho perdida e achada. Impunha-se uma análise visual. Em má hora. Quando percebi que aquilo era uma múmia, preta, mate, os brilhos só do líquido, sacudi a palma da mão como quem se escaldou e proferi as tais palavras podres que provocaram nos clientes sossegados de sábado e meia manhã, as cabeças debruçadas sobre o jornal, o sobressalto referido.
Todo o dia, no lugar exacto da língua onde premi contra a parte interior dos incisivos centrais superiores para melhor identificar o objecto estranho, conservei a sensação repugnante do díptero desalado, como a marca fóssil dum pé de dinossauro na pedra, e deplorei, deploro ainda, que a curiosidade me impedisse traga-lo, eu e o bicho dessabidos, sem considerações nem inquéritos.
Os olhares convergiram em mim todos: uns poucos, que me desconheciam, horrorizados pela blasfémia que saíra pela minha boca; os restantes, que eram os mais, admirados ante a grosseria, nada habitual em mim, no mínimo, em tão elevado tom de voz e lugar público. Arrependi-me no logo-logo, não porque me aflija obrar para não-seres em cuja existência desacredito, antes porque faltando-me escasos pontos para o ingresso na categoria dos desvariados, receei somar mais alguns. Não disse, mas estava num café, felizmente, na Aldeia —nem quero saber se isto me acontece num botequim qualquer de passagem. Pedira um pingo (ninguém me mandou!) e acheguei a chávena aos lábios, a tactear a temperatura. Ao primeiro e sempre breve golo, notei no centro da língua um lixo como de meio centímetro, que levei à ponta para examinar a consistência, entre mole e dura, seca, palhenta, descartando aí que fosse migalha de pão ou bolinho perdida e achada. Impunha-se uma análise visual. Em má hora. Quando percebi que aquilo era uma múmia, preta, mate, os brilhos só do líquido, sacudi a palma da mão como quem se escaldou e proferi as tais palavras podres que provocaram nos clientes sossegados de sábado e meia manhã, as cabeças debruçadas sobre o jornal, o sobressalto referido.
Todo o dia, no lugar exacto da língua onde premi contra a parte interior dos incisivos centrais superiores para melhor identificar o objecto estranho, conservei a sensação repugnante do díptero desalado, como a marca fóssil dum pé de dinossauro na pedra, e deplorei, deploro ainda, que a curiosidade me impedisse traga-lo, eu e o bicho dessabidos, sem considerações nem inquéritos.
sexta-feira, 11 de setembro de 2009
Desinfestando
Vanme desculpar os comentadores, pero é que hai un xaponés que porfía unha e outra vez en me ofrecer os seus servizos no Umbilicar cativo. Un día si e outro tamén, téñoo alá a me tentar co paraíso virtual. Francamente, non entendo que lle ve ao texto: se fose propaganda dunha funeraria, aínda aínda. En todo caso, como sei que a carne é fraca e igual sucumbo, vou pór remedio antes que sexa tarde, activando a verificación de palabras durante uns días. Teñan paciencia, que se logro escorrentalo así, de aquí a nada, retiro o funil.
domingo, 21 de junho de 2009
Así sen máis
As mañás de sábado e domingo foron de espertar cedo os veciños e aínda ben que o barullo da rozadora me evitou ouvir os improperios. Ás oito en punto, dixo un, con retranca, dos poucos aos que madrugar non lle é problema senón vantaxe. Dade grazas, respondín eu, que non empezara máis cedo, pois xa moito antes o sol e os pardellos teimaban en me devolver á vertical física. Nin sequera o medo a recibir un tiro de sal (con sorte, sal!) dalgún menos comprensivo impediu que pecase gravemente contra o terceiro sen sentir remorsos. Ao cabo, sempre queda a alternativa da confesión. Así.
Despois foi deixar unha asinatura na asemblea de montes en mancomún para lles dar quórum e trocar o resumo da acta anterior etcétera por un café, uma pedras e um bolinho á sombra dunha terraza na Nova, demorando o paso á última páxina do Jornal de Letras, na confianza de que nin pracer nin encanto me ía esquivar José Luís Peixoto ao me revelar (he!) que até no camiño ao supermercado hai unha historia: é só buscarlle as voltas e atoparllas. Sen máis.
sábado, 11 de abril de 2009
quarta-feira, 22 de outubro de 2008
domingo, 17 de fevereiro de 2008
A lamber paredes
En vista de que o dos microrrelatos non pretendía ser erótico senón case porno decidín experimentar e mandar outro texto. Non terei máis que facer?, dirán algúns. Pois teño. Pero un pouco tamén hai que enredar, cunha lingua ou coa outra: será que a teño bífida. Toda vosa.
Pé no conto
Ao primeiro fíxolle as beiras. Logo xa andaba coma un can tras ela, negro o día enteiro e a noite coma un burro, longa noite de pedra... mentres ela brincaba, amolecendo por dentro. El rozouna co trangallo, ela recuou a fumegar cara ao baño, entrou nun retrete e el atrás. Ela xemía baixo o son amortecido da música: férrama, chúzama, espétama. El debruzou a boca sobre a paxara papuda, lambeulla e ela gritou incontrolada. Cando a policía meteu pé no conto non lles quedou outra que mandar cadansúa gaiola no caldeiro para matar a fame.
Pé no conto
Ao primeiro fíxolle as beiras. Logo xa andaba coma un can tras ela, negro o día enteiro e a noite coma un burro, longa noite de pedra... mentres ela brincaba, amolecendo por dentro. El rozouna co trangallo, ela recuou a fumegar cara ao baño, entrou nun retrete e el atrás. Ela xemía baixo o son amortecido da música: férrama, chúzama, espétama. El debruzou a boca sobre a paxara papuda, lambeulla e ela gritou incontrolada. Cando a policía meteu pé no conto non lles quedou outra que mandar cadansúa gaiola no caldeiro para matar a fame.
domingo, 7 de outubro de 2007
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