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sexta-feira, 29 de abril de 2011

Disse

Que a gente não diga nada não quer dizer que não tenha nada a dizer.
(Talvez é só que não é o momento ou talvez é mesmo que nada tem a dizer.)

quarta-feira, 20 de abril de 2011

Sobre isso que já não sei o que era... (e talvez sobre mim)

De repente, sem mais nem mais, ao meio da tarde, absolutamente concentrada numa tradução, lembrei que esta manhã, enquanto falávamos ao telefone, eu disse uma coisa a que achámos piada. Que eu acrescentei depois que iria escrever alguma coisa sobre isso... se não esquecia de ali a cinco minutos, que era o mais provável. E tu riste. E eu ri mas menos. Esqueci-a ―seguramente ainda antes de desligar. Eu pergunto-me agora por que lembro o acessório e não o essencial? Será que um dia esqueço também quem eu sou? Serei assim tão acessória mesmo para mim que apenas lembre que sou quem irá esquecer tudo aquilo com que se importa?

segunda-feira, 18 de abril de 2011

Fóra do pozo

Ás veces basta parar un momento, pousar as mans no teclado, sen tocar tecla ningunha. Despois estrícanse un chisco os dedos, devagar, como temendo que vaian escochar no esforzo, e vírase a cabeza... ―está tan sucio o raio do velux, tereino que limpar un día destes ou pensarei que aínda non levantou o neboeiro aí fóra, como aquí― e séntese entón, por primeira vez no día, o reloxo da sala que dá as horas, seis badaladas, e un refoleo de vento que zoa e a pardellada toda a chiar nos bordos xaponeses, que de súpeto e sen saber por que calou e calou tamén o vento, deixando paso a un coro de grilos e o asubío fugaz dun melro. Esgurricho a caneca do té, que xa arrefeceu, e noto tamén agora, só agora, o resaibo amargo. E regreso ao pozo*.

*E isto non é senón un pozo ficticio, en canto pozo descrito dunha novela que ando a traducir, pero real, en canto pozo que me absorbe.

segunda-feira, 14 de fevereiro de 2011

Simbiose

Antes que o día empezase, as previsións estaban anotadas na axenda. Só que as previsións nunca foron certeza. Por iso, se algunha parte do organismo sofre alteracións, os entes que o compoñen adáptanse, harmonizánse. Corpo e traballo actúan en simbiose obrigada. Unhas veces o traballo esixe un cambio de prazos. Outras, o propio corpo pídelle ao traballo demoras. Na tirapuxa acadan un compromiso.

Necesitámonos mutuamente. Ningún dos dous pode sobrevivir sen o parceiro. Se un de nós morre, haberá outros corpos, haberá outros traballos. Ningún deles será nós.

segunda-feira, 7 de fevereiro de 2011

Palavra poética

Cá está um besugo que diz que não gosta de poesia e eu só penso (se é "pensar" este fluir de ideias soltas que me acontece num lugar estranho dentro do corpo) que de três uma, ou duas, ou as três: ou ele nunca se lê, ou se se lê não gosta do que escreve (nada abonatório isto para os seus gostos, que já a tara pela bola prejudica bastante mas, enfim, ele é que vende o seu peixe), ou ignora o que é poesia, que nem precisa de ir em linhas quebradas para ser-se como nos seus esguichos é. E onde diz "ou", pode-se ler "e" sem que a ordem dos factores possa vir a alterar o produto nem a palavra poética. Ainda bem... também.

quinta-feira, 13 de janeiro de 2011

E na dúbida é onde está a incerteza

Ou senón como é que eu hoxe ―un día que na radio afirman despexado e que eu vexo espreguizar no tan prolongado ton cincento, logo aínda vou lavar outra vez as lagañas e os lentes non sexa iso― teño de resolver un dilema que me desasosega o sono desde hai unha semana: partido de hóquei na aldea ou Poemas com Cinema no Porto? E así dígome, argumentando, que sobran días para bater co estique na bóla (e, tamén, onde non se quixo, perdón, puxeras caneleiras, cun pouco de xeo pasa logo ou cunha saquiña de ervellas conxeladas, e salvácheste que foi en óso) e faltan momentos e ansias de ouvir, coma quen di, xente que fale. E retrúcome deseguida, ou rebátome, que estreo estique (os Reis Magos portáronse), que hai tres semanas que non xogo, que son douscentos quilómetros e a merda das portagens a cargar sobre a miña conta des-corrente e que a estas idades provectas a miña carreira deportiva é sempre a recú. Total, que nada, restan sete horas para a decisión definitiva e eu non sei se o bote a sortes ou a azares.

terça-feira, 28 de dezembro de 2010

Durmir













Espertou na mesma postura en que se lembraba a fechar os ollos, con el a protexela do mundo, abrigándolle as costas e a desistencia. Nove horas. Seguidas. Sen unha miserable dor que a arrancase da cama no medio e medio da noite ou co sono tan profundo que os vidros ciscados polo sangue non deron quebrado a suspensión da consciencia. Nin un pesadelo de corredores en penumbra que se abrían a abismos, resplandores. Nin un soño en tons grises de conquistas compartidas. Falaba de si en terceira persoa, como se fose personaxe ficticio en filme alleo, porque cando prendeu o ordenador, no ceo da boca o amargor do café chirlo con que eludía a prescrición médica e a dozura pesada dos figos secos no centro da lingua sobrepostos á pasta de dentes, aquilo parecíalle mesmo sobrenatural. E nunca crera en nada que excedese a natureza simple do palpable. Nunca?

terça-feira, 30 de novembro de 2010

Tétrico?

No vestíbulo do teatro, durante o intervalo, a poeta altíssima e futurista de princípios dum século passado olhou para mim, ho-rro-ri-zada:

―Mas que tétrico!

Eu, que estava em ângulo bastante obtuso relativamente aos meus poetas (como a traduzi-los na sombra), alcei a vista num esvoaçar de pálpebras para tropeçar no cenho dela franzido e franzidos a condizer os lábios num o diminuto, que é um u. Respondi de sobrancelhas, no entanto, em arco solene, tenso, dardos nos íris de fingida incompreensão. Depois, leve virar do pescoço, encontrei o olhar impávido do poeta vidente, mais baixito ele, quase do meu tamanho e antiguidade, que apenas uns segundos antes se aproximara saltitando com uma proposta oral cuspida sem preâmbulos ao meu corpo surpreso.

―No fim, iremos beber um coiso ao...
―Não posso eu ―interrompi interceptando o contacto―. Amanhã cedo deverei estar em plena posse das minhas faculdades mentais (e físicas, obviamente) ―E esclareci a seguir―: Vou assinar os meus testamentos, o vital e o mortal.
―Mas que tétrico!
―Não é nada tétrico ―argumentei―. Tétrico seria não poder assinar testamentos. Assinar testamentos é prerrogativa de vivos, de vivos com consciência de sê-lo até um dia, vivos lúcidos com as funções da mente, ainda, em activo.

Havia bem tempo que me rondava pela má consciência a ideia de dar destino final aos meus resíduos sólidos humanos. De aí, na segunda-feira anterior aos factos acima descritos, levantei-me com o pé direito e o firme propósito (sem emenda) de marcar hora no notário, como quem pede consulta no dentista para unha limpeza dental profiláctica. Já no local, agendaram a minha causa para a sexta seguinte, e pelo prezo dum dois por dois (negócios que não têm crise e, consequentemente, não têm saldos), vista a boa disposição com que iria defender a minha dignidade de moritura (que é latinório composto dos vernáculos "moribunda" e "futura") no testamento vital (ou, melhor dizendo, declaração de vontades antecipadas), persuadiram-me a assumir no momento sempre inoportuno a condição de morta pouco chata, escriturando a partilha do legado imenso dos meus bens e males, móveis e imóveis, aos meus ricos herdeiros num testamento por força mortal.

Tétrico? Tétrico seria para os vivos que me iriam chorar, se os houver, terem de lidar com estas burocracias maçantes no dia em que.
_____________
Fora isto, acho que "tétrico" é um esdrúxulo sublime.

segunda-feira, 29 de novembro de 2010

O país que eu sou (e outrossim, o corvo)

No fim da tarde saí a ventilar os olhos na penumbra. De porta fora, rachando o silêncio em electrocução única, senti no quintal vizinho corvo doméstico um a gaguejar canto de galo, canto truncado como as suas asas, dele do corvo. Quiçá lhe ia faltando luz para experimentações mais próprias de amanhecida ou colorido nas penas. Quiçá.

Depois foi nada. O corvo prisioneiro desistiu de namorar com galinhas fátuas e juntou-se à afonia absoluta de grilos e melros no lapso quase-invernal do lusco-fusco. Portanto, aconselhei-me a dissimular a desocupação auditiva ligando-me via auscultadores a uma emissora de rádio, séria, culta. Não me largou o eco do corvo.

Pés no caminho cedi ao piano que tocava a direcção dos compassos até que a sonata se extinguiu e uma voz humana entremeou na minha vadiagem pelo assédio sexual do corvo maneta ao serralho desdenhoso do galinheiro. "Os países que falam português...". Abalou-me a sentença. Nem segui o rumo do razoamento possível, atendendo só ao meu espanto inquieto: sempre acreditara que eram as pessoas que falavam línguas, e agora? País eu?!

Era eu país mesmo?! Cachecol meu ao vento, bandeira? Gemido, hino? Lágrimas, marés? Cílios em ondulação, vendavais? País? Este corpo? E se era, era ilha, arquipélago, península, terra de interior que é dizer sem mar? País com deserto até desprovido de oásis real (miragem é que nunca, nunca!, gritei) para solaz de camelos e aventureiros de filme? País tropical, árido, polar? Era país-continente ou país-aldeia? E de ser, seria república, ditadura dura ou branda, monarquia ou reino de taifas? Era estado, se fosse, autonómico ou federal? Era país de povo soberano ou colónia? E já agora, o meu povo, quem era o meu povo? Olhei para os dedos das mãos, que acenaram lealdades mascaradas pelas luvas; e para os pés nos antípodas de mim, obedientes ainda ao roteiro marcado. Perscrutei na querença do coração e ele respondeu com palpitações rítmicas. Admoestei, fazendo-me forte, o fígado, que porfia em ocupar mais abdómen do que lhe pertence. Os rins, porém, nem cessaram de depurar imundices, fieis lacaios mudos. Enclaustrados, os pulmões, ora inchavam ora amarfanhavam como foles de saudades a infundirem-me roufenho ânimo pela traqueia e o nariz outeirinho. E o estômago, pois, digeriu este despautério todo, tão deliciado ainda no chocolate com que o presenteei de tarde que nem um resmungar insolente arrotou. Mamas, quase cordilheiras; veias e artérias, capilares, vasos linfáticos..., os rios e ribeiros! Como é bom este país que sou, concluí, tão despoticamente esclarecida.

(Até que o cérebro, na função de governo oligárquico legítimo e sorrateiro, insinuou se o corvo vizinho, com os seus ensaios na fala dos galos, não era o fervor das galinhas que procurava, antes ansiava também ter língua para ser país. Como eu. Foi aí que começaram as hostilidades no bairro perante a desídia espicaçante das galinhas.)

domingo, 28 de novembro de 2010

Requiescat (así) o que?!








Escultura de Asorey. Cemiterio de Pereiró. Vigo



Róldame así tan descarnada e impúdica ultimamente que xa conto polos dedos nos dedos que me faltan as ausencias deste ano ou campas nas que non agroman flores bravas nin sequera unha pouca serradela para as vacas.

Hai sorrisos que quitan o alento.

sábado, 27 de novembro de 2010

Cardialxias imaxinarias

Resumiulle a aflición que a envolvía: a dor elíptica, radial, torácica, a falta de ar que os tentáculos da ausencia inzaban ásperos, o dominio infrutuoso do tremor na voz que se quebraba case. Só entón el apartou a mirada do ordenador para a pousar clara nos ollos do obxecto-suxeito de estudo. Un instante longo, permeable. E acenou para a padiola. Deitou o corpo ela ás indicacións da auxiliar, espido de cintura para arriba (sendo máis sucinto indicar topless, a intención significativa viraría outra), pinceladas de xel, refucidas as perneiras do pantalón para as ventosas dos tornecelos. ECG en repouso. HTA. O estetoscopio frío sobre as costelas que o lenzo da pel ampara, sen sopros, sen sopros, e no espazo da consulta un silencio estrito de avenidas antes das badaladas aos domingos. E así, o magro posuídor da bata branca de nove a tres marca a ergometría (vulgo, proba de esforzo), cables polo peito en conexión wifi, de pés descalzos, os calcañares a bater doridos na cinta mecánica nun paseo de dimensión única ―temporal―, con destino resultados, aceleración en aumento, paulatino, aumento: rego sanguíneo regular e... Non arritmias, non arritmias, dise sobre a paciente: non datos de cardiopatías. Tamén non consta no informe pericial que haxa corazón vivo alí dentro ou necrótica carne no lugar en que o mar se soña, asinou o doutor, a tantos dun novembro frío.

quinta-feira, 18 de novembro de 2010

Equilíbrio


Com certeza perdi faculdades se já não me espatifo como antes. Na primeira aula de hóquei desta temporada não afocinhei uma única vez.

Isso na pista, é claro. Fora custa bem aguentar-se nas curvas e nem sempre se consegue travar a tempo.



[Nada diria se assim fosse preciso. Felizmente aqui não se diz, antes (ou depois) escreve-se, e a escrever(-se) bem se pode alinhavar quaisquer nadas com algumas substâncias ou that's alls que só são recomeços algures.

Ora pensar niente é que não: quem dizer que pensa niente, mente. Nem que esses pensares depois nada sejam, ou ar, até-ar monóxido de carbono, adormecer. Pirar(-se) nem malagradecendo.

Ando a fazer uns belos manguitos à velhice: segunda aula de hóquei de estique nos dentes depois do intervalíssimo verão. Só isto já merece um regresso à vida. E gostar muito do que não se vê.]

quinta-feira, 11 de novembro de 2010

A dessemelhança da imagem




Ponte Internacional da Amizade
Goián - Vila Nova de Cerveira




Varreu o vento a chuva e as folhas mortas. Sobrou só o silêncio. E uma réplica do real, irreal, fora do alcance das mãos.

Pontes de água que ruem quando a gente as afaga com um sopro, alento último dos pés descalços.

sábado, 30 de outubro de 2010

Afinal era só para dizer que hoje me trataram por...

As folhas nas vinhas estavam vermelhas, ainda não ocras. Viam-se bem da auto-estrada e sugeriam outonos que nunca viriam como eu gostaria que viessem. Tive vontade de encostar para tirar umas fotografias, retê-las num rectângulo como se fossem ramos de camélia apanhados um por um, os mais verdes, a enfeitar a pedra, escura ―nada se quer saber daqueles outros amarelinhos, carentes de magnésio ou ferro, como a gente, às vezes, de afecto. Mas ninguém que tenha juízo pára na berma da auto-estrada a tirar fotografias de vinhas vermelhas, nem verdes, nem sequer de vinhas sem folhas.

Por isso continuei caminho, desatenta já ao chamado da paisagem, centrados os olhos nas linhas brancas que delimitam, centrado o pensamento entre a memória e o nunca, assim também delimitado. Estreito. Até que saí.

Numa dada altura sai-se sempre. Até porque é preciso sair para entrar num mundo diferente ou no anterior que já não será o mesmo. Paguei a portagem, claro. Ninguém atravessa a fronteira do esquecimento se não levar a moeda na boca para o barqueiro. E então aconteceu o que ninguém esperava. Foi na rotunda. Mandaram parar e encostei, desliguei o aparelho de música onde tocavam cravos talvez de Bach e abri a janela ao guardinha:

―Bom dia. Tem os documentos, faz favor, os pessoais e os do carro?
―Tenho. Muito bom dia. Um momento. Ora, a carta de condução está aqui. Faz favor. E os documentos do carro...
―Mas afinal a menina é portuguesa ou é espanhola?

Diga-se de passagem que sorri e nem me pareceu a partir de aí que o céu fosse tão cinzento. Digo mais, abriu-se um clarão que durou até o início do regresso.

sexta-feira, 29 de outubro de 2010

Caravel negro

Para o Marcelino Camacho










Sabes? Eu, que non entendo nada de economía, nin sequer da miña (tento apenas non escribir por riba da miñas posibilidades), creo, estou convencida, de que isto que agora nos acontece é unha confabulación perversa dos amos do diñeiro, paranoias miñas. Crise. Hai crise. Pero a crise non a provocaron os que nos vendían (ou deberei dicir antes “nos compraban con”?) unha ilusoria felicidade a prazos, un ídolo-boi de ouropel a prezo de ouro? Crise. Hai crise. Daquela imos todos facer o gran sacrificio do boi: choiar máis, gañar menos e repetir unha e outra vez a cantilena: aínda ben, aínda ben, aínda ben... Ollamos arredor: longas filas de persoas sen emprego, filas longas de persoas con fame. Aínda ben, eu teño aínda un salario que rebaixar, horas de traballo que aumentar, repetimos, obedientemente. É a crise.

E entón, imos recuar e perder dereitos laborais, eses que tanto sacrificio (e privación de liberdade) a ti e a túa familia custou ―e a tantos, a tantos sen nome.

Imos recuar, que hai crise e é preciso encher máis e máis os petos dos poderosos, en tanto o caravel vermelho se tinxe de breu.

Morrer será regresar ao punto de partida?

terça-feira, 26 de outubro de 2010

Eu vinha (mais uma vez) falar da morte

Fiquei perplexa, indignada, irritada. Eu nem deveria falar nisto, mas é Portugal o primeiro que vejo cada manhã quando abro os olhos, o último que vejo à noite antes de os fechar. Dói, dói. Até parece que, desde Lisboa, Portugal é só Lisboa e, mercê que desde ali fazem, um pouquichinho do Porto, esse lugar ao norte, que não é norte, onde nem falar, ao que parece, se sabe. E falando em norte, eu vinha falar da morte. Norte foi o que faltou, no programa do Prós e Contras sobre o testamento vital. Sobre o testamento vital?!, disse. Não. Falou-se de muitas coisas, falou-se de morte ―alguns até de boca pequena, que dizia minha mãe, quer-se dizer de costas―, de testamento vital quase nada. E até as tentativas da Laura Santos, que desesperava na cadeira e nos gestos, em reencaminhar o debate encontraram a oposição da moderadora que achou, sem pudor, que o povinho não iria compreender pormenores. E eu que nem sou muito de defender povinhos porque sempre tive pânico de massas, tenho capacidade de discernir entre povinho e Zé Manel, o vizinho com nome, corpo e alma, que compreende, minha senhora, porque nunca viveu de costas à morte e tem medo não de morrer, mas de morrer como um cão, como morreram sempre os pobres (não tanto os cães...). Estamos a misturar alhos com cebolas, pois não? Cuidados paliativos com testamento vital?

O testamento vital é um acto de amor. De amor pelas pessoas que deveriam tomar decisões duríssimas por nós quando chegar o momento, se nós não as tomarmos antes por nós, previdentemente até quando estamos saudáveis, mens sana in corpore sano, não por força só quando estamos a ver-lhe o cu a coruja! E digo sempre "quando", não "se", reparem. O matiz é importante. Porque se eu, em plenas faculdades mentais (e não por força doente, muito menos terminal) tenho o direito e a possibilidade de decidir o tipo de tratamento que quero ou não quero que se me aplique quando chegar o momento da agonia (e eu, aqui, onde moro, albíssaras!, tenho essa possibilidade e esse direito) libero as pessoas que me querem (algumas há para aí, eu sei, acreditem) de tomá-la por mim.

Assinar um testamento vital, senhor jornalista da plateia, não é desistir de lutar quando o prognóstico me diz que posso lutar e até quando eu quero lutar mesmo que não mo diga, que a Medicina não é uma ciência adivinhatória, embora os avanços permitam, fora milagres, cálculos mais ou menos certos (e eu sei do que falo, quem me conhece sabe que sei). É antes deixar a morte entrar em mim em silêncio quando chegar o momento. É evitar sofrimento não só em quem assina mas também nas pessoas que nos querem e queremos, nos médicos que nos acompanharam (e enfermeiros, auxiliares, pessoal da limpeza e do serviço de comidas...)... e aqui é onde entra a necessidade dos cuidados paliativos, só aqui, e não tem tantos por centos.

Eu, digo-vos, isto é mesmo milagre, até tenho dias em que vou para a cama com respeito por algum padre.

E agora vou trabalhar, me desculpam, eu por mim ainda falava muito e mais nisto, mas não tenho pensado morrer ainda e é preciso fazer pela vidinha e por levantar o país, um país qualquer.

(O desabafo contra os salteadores de caminhos fica para outra hora.)

segunda-feira, 25 de outubro de 2010

Um minuto de silêncio

Vinte e cinco anos sobre o mármore estendidos, nenhum tapete a absorver o impacto do corpo que desmaia. Ferraram-lhe um tiro no pescoço, que sangra, esguicho vermelho, fonte de morte. E são oito e meia da manhã apenas. Os olhos mais fechados do que a ferida, talvez ainda encravada na pele a saudade dos lençóis, talvez o sabor do café com muito açúcar ou pão com tomate, azeitonas e sumo de laranja. O derradeiro pequeno-almoço sem apóstolos em volta. Morte em horário laboral. Um minuto institucional de silêncio. Luto doméstico sem horas certas.

domingo, 24 de outubro de 2010

Onde o mar começa



Começo onde acaba a tranquilidade
e termino onde o mar começa

Ademar Santos. Descansando do Futuro



Sei lá, talvez, era mesmo, afinal, de emoção que eu tremia e por isso não senti o frio a agarrar-me nos ossos.

E na sexta levarei contigo os ramos verdes de camélia ao breve território da espuma. Nenhuma flor.

sexta-feira, 22 de outubro de 2010

Sobre a ignorância constroem-se poemas


Depois há quem diga, ai, e que tal, a doença fez-me melhor. Não, digo, a doença não fez nada ou faz, faz a gente mais lúcida, mais atenta ao espaço, às horas, aos gestos. A doença faz crescer dentes na alma e papilas gustativas nas plantas desarraigadas dos pés (também, por acaso, muitas nano-línguas nas retinas).



Nisto haverá discrepâncias. E eu talvez esteja errada, com certeza, não tenho dúvidas. Tenho é dias (e as suas noites, como se verá), mas bondades nenhumas. Ainda não compreendi porquê aprecio o olhar fundo dos meus cães e o pêlo, diferentes em cada um deles. De maneira simples, é só que...

Ando de coração quebrando-se-zinho, o peito em labaredas, as noites mal-dormidas (pois, nada novo). De aí. E receio ainda dos exames médicos. Se disserem, quando tiverem de dizer de aqui a uns tempos, minha senhora, isto afinal são gases, lá vai o lirismo (e a tragédia) por água abaixo.

quarta-feira, 20 de outubro de 2010

Razões










E um livro na mochila.