domingo, 11 de outubro de 2009

Abraços e pedaços

Deixei-os com as malas na porta de partidas do Sá Carneiro e fui estacionar ao parque. Quando cheguei ao pé deles estavam já na fila de facturação, pacientemente à espera, diante dum cartaz em que se indicava que só se permitia um único volume de bagagem de cabina por passageiro, bebés excluídos. Nunca pensara nos bebés como simples volumes, mas imagino que a efeitos práticos é assim mesmo. Ainda bem, não trouxeram bebé. Isso, todavia, explicava que detrás deles, um yorkshire terrier adulto assomasse timidamente a cabeça pelo fecho semi-aberto da malinha da dona, numa tentativa inteligente de passar inadevertido. Volume eu?, pensaria o bicho, onde já se viu?!

Enquanto tomávamos o café de despedida, perguntaram-me pelo filme que ia ver eu, aproveitando o passeio à Invicta.

Abraços desfeitos —disse, citando a tradução do título ao português.

O Condado olhou para mim, perplexo.

—Desfeitos? Não me parece.
—Não vi o filme ainda. Não posso julgar, em princípio. Tudo depende do significado exacto que lhe quis dar o director a esse "rotos" em espanhol.

Desfazer pode significar partir, quebrar, romper, mas carece, ao meu entender, da conotação obrigada de truncar que contêm os últimos. Desfazer é ambíguo, pois se por um lado significa despedaçar, fragmentar; pelo outro pode-se insinuar macio, mais próximo do desmanchar, diluir. Visto o filme, agora sim com conhecimento, podo dizer que os abraços foram partidos (e prefiro o brasileiro quebrar, que parece sugerir mais agressividade no surdo fonema de início, como onomatopeia de rachar, estalar) e brutalmente, sem espaço para esvaecimentos nem dissipações. Os abraços não foram desfeitos nada, foram partidos abruptamente em pedacinhos pequenos, impossíveis de recompor.

Porém, a metade exacta da lua, que me mostra o firmamento ao leste no regresso, enquanto na memória persistem as imagens do acidente e do puzzle de fotografias, lembra-me um pedaço enorme de melancia, que me faz água na boca e me deixa com sede, como sede é a que tenho ainda dum outro abraço, não roto, nem partido, nem quebrado, antes aquele em que sonhei os ossos todos estalando, poderoso, eu a me partir, quebrar, romper nele, e que descreve no cabeçalho deste blogue o Jaime Gil de Biedma, eterno.

10 comentários:

La queue bleue disse...

:)
Sabes? Tivem que ler tipo 14 ou 15 posts todos seguidos que se me acumularom com o passo dos dias, já sabes, e o que ficou no ambiente foi um tom um tantinho nostálgico.
E sabes que mais? Um tom amarelo, como de campos de trigo, como o dos livros que lia de pequena.
Ah, é um gosto ler-te!

Sun Iou Miou disse...

E é um gosto ter-te cá outra vez, LQB, já sabes. E como parece que tens o das contas que não dão certo a monte, escreve e conta, um dia destes, se tiveres pachorra, se afinal estás na ilha dos piratas. (Olha que o Condado e a Condadesa Com-Sorte andam por lá estes dias.)

La queue bleue disse...

Pois estou! E eles tenhem sorte que polo visto imos ter bom tempo, quer dizer, a warm week. :)

Sun Iou Miou disse...

Muito me alegro, LQB, de que estejas aí e do tempo. ^_^

Teté disse...

Ainda não vi o filme do Almodôvar, mas penso ir ver ainda esta semana!

Essa dos bebés e dos animais serem volumes, não passa na cabeça de ninguém. Ou, pelo menos, pensava eu que não passava...

Antes quebrar os ossos num abraço, do que quebrar os laços que levam a esses abraços... (*_*)

Beijocas!

Sun Iou Miou disse...

Sabes o pior do filme, Teté? Que tem um filme dentro do filme puro Almodóvar que não... e a gente fica... Não vou dizer. Quando vires o filme, falamos. `_^

Euzita Verdita disse...

Melancia, fruta do verão, a polpa vermelha e suculenta, ela geladinha...huuuuummmm! ADORO!!!
Esbaldo-me de rir com essa associação que tu faz das coisas, essa da melancia foi ótima.
Beijoooos

Carlos Barbosa de Oliveira disse...

Ainda não tive oportunidade de ver, mas para mim basta Almodovar e Penelope Cruz, para ficar de imediato na agenda de filmes a não perder. Mesmo que não seja grande coisa, como já alguém me disse...

Sun Iou Miou disse...

Mas era mesmo um pedaço de melancia, Euzita. Só que estava longe de mais para experimentar o sabor. Eu não minto nunca, só deformo um pouquichinho a realidade, à minha desmedida.

Beijo para a minha baiana preferida!

Sun Iou Miou disse...

Carlos, talvez não é filme de sair a gente abalada e comovida, mas também não é tempo perdido. Eu gostei... sem exageros.