sábado, 8 de janeiro de 2011

Degradação do branco





Marco de Canaveses



Não basta construir, é preciso conservar. Ou então aguardar até à ruína total, à passagem dos séculos: ser história... à passagem dos milénios: ser arqueologia.

Eu já resolvi, por exemplo, nunca mais lavar os dentes, visto que as placas de tártaro vão ser cruciais para os antropólogos consagrados ao estudo dos meus hábitos alimentares de aqui a 30.000 anos.

sexta-feira, 7 de janeiro de 2011

quarta-feira, 5 de janeiro de 2011

Plan da unesco versus plan de deus

Os bispos, se non existisen, habería que inventalos. Hai disfrace mellor para o carnaval que o de bispo? Non. Hai frases mellores para dar un titular que as que pronuncia desde un púlpito calquera nun momento de premeditada exaltación un bispo? Non. Estas declaracións até me lembraron aquela cantiga de berce tan clásica: "Duérmete, niño, duérmete ya, que viene el FMI y te comerá." Abofé, adormecidos é como estamos todos estupendamente. Conste, eu case estou desexando que o agoiro terrible se cumpra, porque pensaba, inocentona!, que o de ser homosexual ou heterosexual non era unha suposta opción imposta por perversos axentes exteriores como cando mercamos cousas que non necesitamos nin nos gustan só porque nolas meten polos ollos, senón unha característica intrínseca da persoa e digna de todo respecto. E agora resulta que estaba enganada, que grazas á conspiración mundial da UNESCO teño elevadísimas probabilidades de me converter, queira que non queira, ao lesbianismo de aquí ao 2020 (se vinte anos non son nada, que son dez menos uns días xa e contando, meus amigos?), e dado que hai máis mulleres desemparelladas (e nisto non fío en estatísticas, senón na pura observación empírica que practico cando ando por aí) ca homes, digo eu que malo será, malo será, que non poida acabar os meus días nun voraz e libertino desenfreo sexual ou até mesmo nunha soporífera relación estable e fidelísima de mesa braseira e punto de cruz a dúo coa que ha de ser a muller dos meus soños.

terça-feira, 4 de janeiro de 2011

Às voltas com o testamento vital (ainda) II. O artigo de Laura Ferreira dos Santos

Fracturas, compromissos e "sabotagens"
Por Laura Ferreira dos Santos
No Público. 3 de janeiro de 2011


O novo parecer do Conselho Nacional de Ética sobre o Testamento Vital

Em 2009, o Conselho Nacional de Ética para as Ciências da Vida (CNECV) desaprovava o projecto de lei do PS que, entre outras coisas, versava sobre as Declarações Antecipadas de Vontade (DAV), construindo todo um parecer assente na desconfiança perante o princípio de autonomia. A este princípio opunha a "intimidade" moral e a confiança criada na relação médico-doente, a partilha da responsabilidade e o papel imprescindível da família na definição do que é melhor para a pessoa doente. A realidade que inspirara o projecto, dizia-se, fora a anglo-saxónica, com maior ênfase na autonomia, quando a nossa "realidade antropológica e cultural" é muito distante dela. Perante afirmações deste género, até apetecia perguntar aos relatores se, tendo sido a democracia uma "invenção" anglo-saxónica, seria também estranha à tradição do nosso país (para outros comentários, cf. Laura Santos, Testamento Vital, 2011).

Entretanto, muda a composição do CNECV, surgem novos projectos sobre as DAV e surge também um novo parecer do CNECV, discretamente, por entre os festejos natalícios. E, desta vez, o CNECV consegue transitar de uma ética sobretudo paternalista, inspirada no princípio hipocrático da beneficência e em certos preceitos cristãos camuflados - no fundo, o ser humano tem sempre a sua autonomia limitada por Deus e, aqui na terra, quem sabe o que é melhor para ele é o médico -, para uma ética secular não-canónica. Passagem pacífica? Quem ler os diversos textos agora disponíveis perceberá naquelas frases compactadas do Memorando (M), que começam de um modo e terminam estranhamente de outro, quantas fracturas e compromissos estão por trás do novo parecer. Seja como for, o novo parecer, e quem se bateu por ele, deve ser saudado pelo seu ênfase na liberdade e sentido de responsabilidade dos cidadãos. Rapidamente, e cingindo-me sobretudo ao parecer:

Autonomia. Apesar do que é dito no M, quando chegamos ao parecer o primado do princípio da autonomia resiste, embora se diga, compreensivelmente, que não pode ser de aplicação absoluta (pense-se, por ex., nas leis do país).

Importância. O parecer diz que as DAV são "um elemento de relevância máxima para o apuramento da vontade real da pessoa".

Narrativa biográfica. Para além das disposições escritas e/ou da designação de um procurador, o CNECV aconselha, na linha de bioeticistas recentes, a introduzir numa DAV uma "história de valores", que possibilite entender melhor as vontades dos incapazes, sobretudo quando as situações são complexas. Parabéns a quem pugnou por esta ideia.

O que se pode recusar? O M não limita as DAV às situações terminais, como o PSD ou o CDS. Há, dizem, o estado vegetativo persistente, as demências, as recusas das testemunhas de Jeová... Penso que, segundo o parecer, se pode recusar quase tudo, desde que não haja desconfianças do carácter genuíno da recusa (feita num exercício de autonomia prospectiva, claro).

Obstinação terapêutica. Depois de o M quase insinuar que as DAV são para resolver este problema, o parecer consegue "relembrar" que nem sequer é preciso uma DAV para recusar essa obstinação. Porém, na sua (só dele?) nota de imprensa, Miguel Oliveira da Silva diz que se pretende com as DAV "evitar a chamada obstinação terapêutica". Há aqui alguma tentativa de sabotagem?

Aconselhamento médico e carácter vinculativo. Estranhamente, o M, ao analisar os projectos, abstém-se de entrar neste ponto crucial - todos os partidos, com excepção do BE, faziam depender o carácter vinculativo de, pelo menos, haver aconselhamento médico forçado. No parecer, surge-nos algo que deve ter sido redigido com pinças: há o dever de os médicos informarem, "mas qualquer pessoa capaz pode optar por não querer ser informada", sem ser penalizada. O que se esperava que se dissesse é que as pessoas podem recolher informações junto de pessoas que não os médicos ou "equipas de saúde". Pois alguém entende que se faça uma DAV sem querer estar informado do que vai fazer e do que pretende? Quantos compromissos para chegar aqui? O que vão os partidos fazer com isto? Obrigar-nos a levar com a vinheta do médico em cima da nossa DAV, se a queremos vinculativa? O parecer não lhes parece dar razão.

Finalmente, apenas um pormenor humorístico: a conselheira Maria de Sousa deve andar tão impressionada com o fenómeno WikiLeaks que fez uma declaração a dizer que não podia aceitar a existência de um registo nacional de DAV em plataforma informática, pois nenhuma pode assegurar confidencialidade. Sugere que voltemos ao papel e lápis? Docente de Filosofia da Educação da Universidade do Minho e membro da Comissão de Ética da ARSN.

segunda-feira, 3 de janeiro de 2011

Às voltas com o testamento vital (ainda)

Hoje no Público mais um artigo de opinião da Laura Ferreira dos Santos sobre o último e natalício parecer do Conselho Nacional de Ética para as Ciências da Vida relativamente ao projecto de Declaração Antecipada de Vontades.

_____________
Eu sei: a ligação é só para assinantes. Amanhã ―passou o dia, passou a romaria― eu roubo legalmente o texto.

Fragmentos do día de Aninovo




sexta-feira, 31 de dezembro de 2010

E non me fechedes os ollos












Como parece os deuses están tan distraídos nos seus incestos, orxías e bacanais que nin se lembram dos mortais contribuíntes que por aquí andamos, turrando contra todo e nada, facede o favor de esforzarvos (uffff!) en construir un 2011 mellor, porque o futuro, non che me vos enganedes, somos nós quen o diriximos a cada paso que damos (ou non damos).

P.S.: Se celebrades o rito da pasaxe ao Aninovo com uvas ou pasas, tentade non esganarvos, que a familia e os amigos non teñen culpa ningunha da vosa torpeza.

quinta-feira, 30 de dezembro de 2010

De sentenças de morte (e indultos)

Como propósito para o ano novo é mesmo nada disparatado. Vive-se tantas vezes, às vezes, sem dar por isso, pela vida, que incomoda. Sentir os dedos doer, por exemplo, e os olhos a perseguir sonhos é um exercício de concentração estrito. Não foi isso o que aconteceu ao touro. Quis não morrer na hora que lhe marcaram e fugiu. Mas assim morreram-o antes ainda, matado, a caminho do regresso ao matadouro, adormecendo-lhe o instinto, domesticando-o quimicamente para virar de ali a uns dias posta com arroz e salada, filet-mignon com batata a murro ou rabo estufado com ervilhas. Assim morremos antes da hora nós tantas vezes, às vezes, e no fim, miséria, só daremos boa janta aos vermes... ou nem, incineraditos, que é moda de poupar espaço, as cinzas a entrar por olhos e bocas e narinas alheios, raispartam o vento, rosmam os presentes cuspindo lixos do defunto.

Pois não indultaram o bicho depois de eu ter escrito esta porcaria? E agora faço o quê?! Mando o rascunho à lixeira? Vou ver eu se quando me chegar a hora me indultam também, e os vermes que se lixem.

quarta-feira, 29 de dezembro de 2010

Pestanejar na escuridão












A Poeta é incerteza, suma sacerdotisa do paradoxo ponto ela ou dúvida que arrasta à pesquisa dissecante pelo território trépido e fluido dos significados. Assim é que oscilando dissolve interrogações para atingir espaços acústicos que são ecos pelas margens dos ouvidos, espelhos nos horizontes dos olhos e no hálito pulsátil dos lábios, um tremor de oásis. A leitora segura-se nas velas páginas à distância pouca dos antebraços telescópios e enfuna em orgulho, vasto, a húmida estreiteza do peito (transido de nevoeiros) que estoira num foguetório sinfónico, por ser ali, numa página ímpar, nome que se escreveu em digressão e cursivo, por primeira vez, tinta em folha-papel de livro-poemas, sombra clara.

Obrigada, Suzana ―era sem tempo que eu dissesse.

: Descartes aconselhou-me a duvidar de tudo, mas duvido dele e apetece-me não questionar algumas vezes; e gosto desta dúvida ―dá-me uma espécie de asas; dói-me, contudo, aristocraticamente a cabeça e escuto zumbidos transversalmente ao silêncio e ao meu pestanejar na escuridão; pergunto-me, pergunto-me sempre: da própria incerteza. do sentido da dor. da subsconsciência dos sentidos, das ignorâncias, da ignorância da ignorância. do caminho da liberdade. da via do compromisso, dos trilhos do apego. dos desvarios do controle. dos sacrifícios dos orifícios. do que Deus estará a fazer. e fico incerta, insecta, zunindo em torno daquilo que julgo ser a minha cabeça
Suzana Guimaraens
"Dispersões insones" (excerto). Parodox.sou (2010)

terça-feira, 28 de dezembro de 2010

Durmir













Espertou na mesma postura en que se lembraba a fechar os ollos, con el a protexela do mundo, abrigándolle as costas e a desistencia. Nove horas. Seguidas. Sen unha miserable dor que a arrancase da cama no medio e medio da noite ou co sono tan profundo que os vidros ciscados polo sangue non deron quebrado a suspensión da consciencia. Nin un pesadelo de corredores en penumbra que se abrían a abismos, resplandores. Nin un soño en tons grises de conquistas compartidas. Falaba de si en terceira persoa, como se fose personaxe ficticio en filme alleo, porque cando prendeu o ordenador, no ceo da boca o amargor do café chirlo con que eludía a prescrición médica e a dozura pesada dos figos secos no centro da lingua sobrepostos á pasta de dentes, aquilo parecíalle mesmo sobrenatural. E nunca crera en nada que excedese a natureza simple do palpable. Nunca?

segunda-feira, 27 de dezembro de 2010

Os livros, sempre



BARRETO NUNES, Henrique. Amigos Maiores que o Pensamento. Associação dos Jornalistas e Homens de Letras do Porto. 2010





No passado 21 de dezembro, o Henrique Barreto Nunes lançou uma colectânea de artigos e textos em volta das suas lutas e dos seus livros e que dedica, parafraseando o Zeca Afonso, aos seus amigos.
O volume, publicado pela Associação dos Jornalistas e Homens de Letras do Porto, foi apresentado na sede desta pelo geógrafo Álvaro Domingues.

___________________
Improviso para saudar numa ca(u)sa um grande Amigo...
Para o Henrique Barreto Nunes

Deixa que nesta noite polar
a memória ocupe o pensamento todo
e não sobre lugar na mesa
para mais ninguém
foi aqui (lembras-te?)
que interrogámos o destino
e o ganhámos
talvez tudo o mais tenha sido em vão
menos aqui
nesta antiquíssima liberdade
que nenhuma ruína calou
nenhum esquecimento.

Ademar Ferreira dos Santos. Em Abnóxio
08.01.2010

domingo, 26 de dezembro de 2010

sábado, 25 de dezembro de 2010

quinta-feira, 23 de dezembro de 2010

Aparecem-me cadáveres

Pronto, para aqueles que não tiveram hipótese de iluminarem o seu desentendimento com a leitura em papel, já está disponível em versão pdf a história verídica que o pessoal de Novas da Galiza arriscou a publicar-me.

quarta-feira, 22 de dezembro de 2010

Regresso ao passado

Não, não ando com saudades doutros tempos. É só que ontem fixem um experimento científico: fui ao Porto pela EN13 desde Viana do Castelo: 70 quilómetros em duas horas e meia. Prodigioso. O total do percurso, 110 quilómetros em três horas.

Em 31 minutos fiz o trajecto que vai de minha casa a Viana do Castelo, pela A28 (incluídos aqui os caminhos da aldeia, a ponte e uma parte pela EN13 desde Cerveira até à entrada da A28 em Lanhelas, uns quarenta km). Depois, já no lusco-fusco (felizmente sem chuva), trás atravessar o Lima, saí em Darque, mas ao não encontrar indicações para seguir para o Porto (havia uma estrada cortada, talvez era esse o caminho?), voltei para a A28. Passei pelo primeiro arco a sorrir e penteadinha para a fotografia e abandonei a via CCUT na primeira saída. A partir de aí fui tentando não atropelar idosos com carros de mão ou de bicicleta, vestidos de preto rigoroso, quem sabe se prêt-a-porter para o seu futuro enterro, e parando nas passadeiras, tudo como é devido, sem livrar o Estado da carga onerosa dalguma (miserável) pensão de reforma. A velocidade nunca era muita: por três ou quatro segundos e só em duas oportunidades consegui colocar o carro a uns vertiginosos 70km/h, que quase me iam descolocando a queixada. Do resto a velocidade de cruzeiro era, aparentemente, de 50km/h, mas pelo troço que atravessa Póvoa de Varzim e Vila do Conde, sempre em primeira, em arranca-pára, até os sapos iam mais rápido. A última vez que olhei para a velocidade média TOTAL do percurso, pouco antes de passar às vias de acesso ao Porto, era de 50km/h, que com certeza deveu descer, pelo muito que demorei a entrar.

Para mim foi uma aventura que levei com muita paciência e música. Mas há quem tenha de fazer isso cada dia...

É lamentável não existirem comboios com mais frequência, porque visto isto, as duas horas que se demora da estação de Vila Nova de Cerveira à de Campanhã no Porto levam-se muito mais descansadamente.

(Não digam a ninguém, mas voltei pela A28: 1 hora e 10 minutos, desde que arranquei o carro no Porto até à minha casa.)

________
Depois de ouvir as notícias, quase é melhor assim: 50 km/h sempre.

segunda-feira, 20 de dezembro de 2010

A preciosa inutilidade da poesia










A poesia não precisa de ser útil. É no valor imenso da sua inutilidade que se fixa a sua importância. As imagens que possa oferecer ―como quem diz, o dia que se inicia com jogos malabares de pedras, corações-calhaus a dançar no ar que a ninguém alcançam, a ninguém ferem, ninguém é ninguém que passa, o chão que os recebe, prontos para mais um amanhã: a circular persistência do sonho inatingível― podem ser uma verdade qualquer, e a verdade tem frases assim que tocam (música).

_____________
projecto de vida

de manhã
jogo calhaus ao ar e
faço o cômputo das pedras
que não ferem nenhum passante
os passantes não passam
as pedras estão no chão e
os calhaus cairam todos
novamente

Ana Saraiva. 19 de dezembro de 2010
(Versão para português de María Alonso Seisdedos)

domingo, 19 de dezembro de 2010

O silencio roto da Rosa





Será que as rosas de inverno falan?

sábado, 18 de dezembro de 2010

Alguén que poña orde nisto

Dígovos que no meu eido, a estas alturas de decembro, hai rosas. Rosas.

Flipo en cores, tons de rosa.

quinta-feira, 16 de dezembro de 2010

¡Felicidades, Profesor!

Sei que ele não vai ler isto, e com certeza (lá vão tantos anos) nem se lembrará de mim, mas eu cada vez que me cruza a palavra "professor" pela mente é este homem que lhe põe imagem e som.

Os outros mestres

Uma loja de ferragens decente é um naco de paraíso metalizado. (Fosse o mundo uma livraria, uma loja de ferragens e mais um rio de águas bravas, eu pedia para mim a eternidade no aquém.) Desde a porta até ao meio fundo há metros cúbicos de prateleiras que estreitam os corredores. Ainda não alcancei o balcão e já a menina me interpela intuindo a minha insegurança.

―Eu queria ―digo― uma coisa que não sei se têm aqui.
―Temos ―responde e, revelando o caminho à imensidade, manda-me descer as escadas.

Desço e peço pela minha boca o que o funcionário, sem hesitar no labirinto, mostra. Tomamos medidas e ele explica-me qual a maneira de montar a engenhoca, como quem dá uma aula à minha ignorância com a paciência e sabedoria duma escola antiga.