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quarta-feira, 27 de abril de 2011

Nem só palavras...





As mães sopram as manhãs
e elas ardem



mãe. E leva os filhos nos olhos como se os levasse pela mão
Nuno Higino (texto). Alberto Péssimo (ilustração). Letras&Coisas. 2011

quarta-feira, 20 de abril de 2011

Eva

Eva naceu hai unha semana. Sei eu porque a tiven no colo e a nai paríraa de madrugada, aínda non se atrevía a abrir moito os ollos na penumbra do cuarto do hospital, entre ramos de flores e xente, enfermeiras e auxiliares que ían e viñan, o instinto de mamar ben aprendido e os avós felices. Todos felices, a verdade, cos ollos postos nas súas mans de velliña, as uñas longas que habería que cortarlle, á espera do primeiro sorriso que aínda tardará (ou non, porque logo parecerá que foi onte), os pés en harmonía co resto do corpo e tamén coas orellas, detalle este importante, talvez o máis importante.

sexta-feira, 1 de abril de 2011

A luz nas mãos





valter hugo mãe
Fundação Cupertino de Miranda
Vila Nova de Famalicão

domingo, 20 de fevereiro de 2011

Pas de quatre

O corpo da espectadora estremécese, ou antes... arrepíase todo na butaca. As imaxes son brutais. É violencia viva o que desde a pantalla se suxire, pesadelos, a crueldade dun cacho de espello roto cravado, encravado, no estómago, a mancha de sangue que devagar abrolla e revela a autodestrución. Non, non é o escenario un cuadrilátero sórdido onde os golpes mazan a cabeza, un, e o corpo, dous, a cabeza, un, e o corpo, dous, un-dous, un-dous, un-dous, un-dous... (un, dous, tres... dez, e o árbitro baixa o brazo), até o ko, o perdedor estendido no chan, a derrota, a humillación que sangra pola boca, a cella sempre partida, o nariz, outrosí, esmagado, o bazo que estoupa, o modelado, mazado torso descuberto e o cheiro ao suor, as manchas de suor na roupa, os puños do campión en alto, o público que vocifera, que xesticula, que insulta, que aclama, a estética cutre do ximnasio e do ambiente familiar, o fondo lúgubre dos rostros destruídos, os tópicos todos que rodean o boxeo, a delincuencia, a droga, o cárcere, a síndrome de abstinencia expresada en destellos, un home que pelexa contra si mesmo, luces e sombras sobre o catre dunha cela, a familia unida e o amor sobre todas as coisas..., os abrazos, os abrazos, a superación que vence a través do esforzo e o sufrimento. Non, o escenario é o palco dun teatro magnífico, pano de veludo, madeira nobre, cándidas criaturas delgadas que se desprazan leves nas puntas dos pés, odio e ambición nos corredores, tules, plumas, saltos harmónicos no ar, sincronía no pas de quatre, a estética límpida e sublime das artes, músculos que se estrican, osos que estalan, dor, sufrimento, o rancor das miradas de esguello, a princesiña destronada estendida no chan, tibias e peronés que escachan baixo as rodas dun automóbil, a elegancia no vestíbulo, abrigos de pel, vestidos de fantasía, a sobriedade do smoking, no-smoking, o brillo turbio das xoias e o carmín nos labios, o perfume, os perfumes, o rumor do diñeiro co que se vende a gloria e se compra a vangloria, as lámpadas penduradas de altísimos teitos, unha muller que loita contra si mesma, as ás negras que se espanden, o monstro negro que devora, a loucura, a violencia de quen procura a perfección, a violencia dun brinde pola beleza, pola beleza, pola beleza, un-deux, un-deux, un-deux, un-deux, o combate á morte entre bastidores e nas alucinacións da mente distorsionada, o estrondo contido do público que aplaude en pé, comodamente alleo ao significado real da perfección.

sexta-feira, 28 de janeiro de 2011

Um porco e também pessoas

Na lagoa, a puxar pelos pés do porco de um lado para o outro, estavam dois putos caxineiros a nadar naquela porcaria como se fosse a piscina municipal. Boquiabertei total. Nadavam à pescador, de um modo desenrascado e trabalhador, capazes de ficarem com uma mão livre e pegarem em coisas na água atirando-as de um lado para o outro. Diziam: quando chegar aí acima vou-te matar.

valter hugo mãe. Excerto de "aprender com os animais". 27 janeiro de 2011. Texto escrito para a sessão Caxinas para Capital das Quintas de Leitura do Teatro do Campo Alegre

Era assim: como se estivéssemos no mar, vagas de luz numa tela inventada, e houvesse uma sereia que nos encantasse ao piano, a gente rastejava com a cabeça (cada pessoa a sua) bem levantada, cobras enfeitiçadas éramos, como quem fareja no sal do ar o cheiro da terra sem sucesso, como quem perscruta na espuma duma onda que rebentou areais de praia e palmeiras ou eucaliptos. Havia também sobre o quadrado azul de lagoa em calma ―porco nenhum à vista, menos morto― poltronas dum cinema-teatro antigo para os corpos magros dum tempo em que se distraía a fome adolescente em filmes de motoristas e senhoras insaciáveis. E havia mais, havia redes em que nos deixávamos pescar, como caranguejos tóxicos, simpáticos e inocentes, com um sorriso nas bocas desdentadas de que a natureza nos não dotou para modelarmos a irreverência das gargalhadas. Das poltronas nasciam vozes que desenhavam a nostalgia duma infância de medos assustadores em território ignoto, aquelas selvas de monstros (porcos ou gente) e a mais terrível puberdade de que um velhote perseguidor tinha saudades. Fartámo-nos de rir.

No intervalo saiu o pessoal à rua a apanhar fumo e frio e vistos de dentro através da vidraça, os braços bem colados ao abrigo, os pés saltitantes, eram peixes que abriam muito a boca à procura dum sonho ou de plâncton. Entre o interior e o exterior gerava-se, a despeito da temperatura, uma trasfega de copinhos com um líquido que pelo cheiro que ia semeando em volta e a cor de madeira nobilíssima e envernizada se diria o vinho que os ingleses chamam de port e bebem como se deles fosse.

Ainda mais tarde acabei por pensar que a felicidade (haja quem me gabe a paciência, que eu hei-de gabar a de vossas excelências) era ali, a ouvir um gajo de barbas em rosto de criança e olhos maduros, voz e piano fundidos como se ele e o instrumento fossem o mesmo animal vivo, que até me apeteceu chorar e só no chorei por não sorver forte e feio o ranho ou estragar a maquilhagem. Iludi as lágrimas com o mar azul sulcado de algas vermelhas que assomava à parede, também o calidoscópio camaleão, que me regressava a um estado de embriaguez sentimental e mansa em que a felicidade era mesmo ali, entre histórias de música, pedidos de casamento sem hora nem medida, cuspidelas (ou coisa pior) desde o poleiro e um porco morto, inchado e imperfurável de tão duro, a boiar na memória.

domingo, 23 de janeiro de 2011

E se somos todos fabuladores?










But what if we are all fictioneers, as you call Coetzee? What if we all continually make up the stories of our lives? Why should what I tell you about Coetzee be any worthier of credence than what he tells you himself.*

Sophie en Summertime de J. M. Coetzee.

A nada do que se diga sobre el, nin sequera ao que el diga de si, se deberá dar creto. Xa en Mocidade o advertía explicitamente nunhas palabras de que eu me apropiei e andan por aí, como aviso serio a navegantes sobre o que aquí se escribe ou cala, á vosa dereita.

Tomando como centro o período en que John Coetzee acada a idade adulta, Verán é o pretexto para retratar a sociedade branca da África do Sur da década de 1970. Un estudoso ficticio da vida de John Coetzee tenta elaborar unha biografía póstuma que non calla a partir de entrevistas a cinco persoas que o coñeceron nesa época e mais algunha papelada que deixou o escritor presuntamente xa falecido. O coro a seis voces fala da soidade, a morte, a vellez, a enfermidade, a eutanasia, a incapacidade de amar ou de expresar o amor, as relacións familiares e laborais, o apartheid, o compromiso político, o conflito da conciencia entre o sentimento de culpa e o apego a un territorio roubado. E tamén da música.

[Eu poida que perdese o sentido do humor, pero o único que me parece "funny" do libro son as apreciacións do crítico do Observer que colocaron na capa como reclamo. Ende ben, non o mercara precisamente por iso.]

_________________
* Pero e se somos todos fabuladores, como chama vostede a Coetzee? E se todos inventamos decontino as historias da nosa vida? Por que vai ser máis digno de creto o que eu lle conte sobre Coetzee ca o que lle conte el?

sábado, 15 de janeiro de 2011

A paixão de amar

"Eu já não temo a morte. Sou um homem livre".
Irmão Luc em Dos homens e os deuses. 

Pedira um pingo ao balcão no café do hotel. Gosto de entrar ali. Tão asséptica a sala. Tanta luz. Quase ninguém ou ninguém. Ler qualquer coisa na espera. Se calhar até foi de aí que veio a boa disposição, do café, da espera, da luz. Sabia, aliás, que iria gostar do filme. O espírito. O canto-chão e a polifonia: sob um céu variável a estupidez assassina e o amor infindo a um não-ser que é todos os seres. Eu já pensei alguma vez, desta altura, que marchar era morrer, quando se habita na vida, mesmo que sejam de barbárie os sinais, tenebrosos, irracionais como o homem às vezes é mesmo no nome duma promessa talvez improvável. A insónia povoa a noite se o medo se instalou nas paredes internas do corpo e as rói, se a gente se fez rama para os pássaros pequeninos, cedro firme e sólido que aspira às alturas com as raízes em terra. Mas aprende-se a conjurar com a oração e o calor dum abraço colectivo o estrondo da águia impiedosa que paira e ameaça e defende o seu espaço próprio de terror... E na chuva, na paisagem, reconhece-se o caminho que se escolheu. Há uma derradeira ceia em que se partilha um vinho enquanto um cisne morre, o mais belo canto da paixão de amar, e transforma o sorriso em lágrimas. 

Está no fim a neve, essa frialdade dos corações, essa beleza de postal em que se traça a esteira das mortes inúteis.

quarta-feira, 12 de janeiro de 2011

O que se fai con palabras

...si he de morir quiero morirme vivo y no muerto de antemano...

Non dubido que quen lle roubou o bolso no tren sabía o que contiña. A ela nin lle importou a perda da carteira, cos cartos e a documentación, nin quedar sen lentes de sol, nin sen a muda que levaba para un imprevisto, agradable ou desagradable. Chegada ao destino, apeouse na brasa á procura dunha librería, rogando e renegando, que houbese, portódolosantos, un exemplar. Iso foi, máis ou menos, o que me contou cando lle comentei exultante que descubrira na biblioteca de miña nai unha novela que me tiña enganchada e apaixonada. Eu levaba anos contemplando o título no lombo sen que me seducise e era das escasas novelas que foron de miña nai que aínda non lera. Pero os meses de novembro e decembro foron de secura laboral e andaba a contar nos patacóns, que nunca se sabe o que o mañá non traerá. Así que dixen, en fin, a ver de que vai isto. E xa non o larguei. Sabedes esas historias que non queremos que terminen nunca, nas que o que menos importa é o final porque hai un mundo debuxado en cada frase, que avanzan e recúan, desenguedellándose as poucos, sen un gramo de palla que sobre e unha riqueza de vocabulario que mete gana de mastigar as palabras?

Yo escucho las palabras de Mágina, las de los hortelanos y los aceituneros, las que aprendí de mis padres, y me doy cuenta de que muy pronto desaparecerán porque ya casi no existen las cosas que nombraban, igual que han desaparecido los romances de saltar a la comba y las cantilenas amenazadoras de los juegos porque ya no quedan niños en el barrio de San Lorenzo que se asusten de la Tía Tragantía o de la momia de la Casa de las Torres: también en las palabras soy un extranjero y un advenedizo, he perdido las que me legaron y el acento con que me enseñaron a decirlas y no acabo de aceptar como mías las que aprendí después, vivo entre ellas y de ellas pero me son ajenas y no pueden explicarme que tal vez me rechazan igual que las miradas claras y frías de la gente que se cruza conmigo en las ciudades adonde quise huir cuando tenía quince años.

Antonio Muñoz Molina. El jinete polaco. 1991

segunda-feira, 10 de janeiro de 2011

Do meu ser não-ignorado e ignorante (e do Manuel Bandeira)




Arnaldo Saraiva, no interior da Porta Treze, debulha a "Poética" do Manuel Bandeira




Em convite a-solene animaram-me a entrar para a Porta Treze, mas quando fui tirar do armário o manto da invisibilidade para alindar-me num desaparecimento ténue, descobri que as traças deram (boa) conta dele e apenas uns fios, como raros cabelos de múmia pré-histórica e voraz, baloiçavam no cabide. E eu disse, ora, tem de ser. E foi. Fui, digo, como eu sou, de mínimo corpo inteiro. E já encontrei ali, na rua, afincado contra a parede dum treze inexistente que se fez real o Nuno Higino, apresentei-me, que eu sou quem sou e tal, e trocámos sorrisos, claro, claros. E logo a seguir estava o Antero, o professor que não me deixa chamá-lo de professor, ainda sendo ele professor mesmo, na mesma, e nem meio passo mais à frente as mãos fortes e os olhos luminosos do Luandino a acolher-me. Aí eu pensei, lúcida, será que as traças foram criadas há milénios para um fim concreto na minha vida?

Com certeza, eu estou a falar aqui de mim, este é o meu diário. Por isso irei também notar que permaneci quieta, a casa do cérebro este de portas e janelas escancaradas, a ouvir e ver como o Arnaldo Saraiva debruçava de palavra e gestos a sabedoria dele em volta do Manuel Bandeira sobre a minha ignorância, essa que quero conservar sempre para sempre e a cada pouco espantar-me na felicidade do muito que ainda, hoje e amanhã, tenho para aprender.


Poética

Estou farto do lirismo comedido
Do lirismo bem comportado
Do lirismo funcionário público com livro de ponto expediente
protocolo e manifestações de apreço ao Sr. Diretor.
Estou farto do lirismo que pára e vai averiguar no dicionário o
cunho vernáculo de um vocábulo.
Abaixo os puristas

Todas as palavras sobretudo os barbarismos universais
Todas as construções sobretudo as sintaxes de excepção
Todos os ritmos sobretudo os inumeráveis

Estou farto do lirismo namorador
Político
Raquítico
Sifilítico
De todo lirismo que capitula ao que quer que seja fora
de si mesmo
De resto não é lirismo
Será contabilidade tabela de co-senos secretário
do amante exemplar com cem modelos de cartas
e as diferentes maneiras de agradar às mulheres, etc.

Quero antes o lirismo dos loucos
O lirismo dos bêbados
O lirismo difícil e pungente dos bêbedos
O lirismo dos clowns de Shakespeare

―Não quero mais saber do lirismo que não é libertação.
Manuel Bandeira

quarta-feira, 29 de dezembro de 2010

Pestanejar na escuridão












A Poeta é incerteza, suma sacerdotisa do paradoxo ponto ela ou dúvida que arrasta à pesquisa dissecante pelo território trépido e fluido dos significados. Assim é que oscilando dissolve interrogações para atingir espaços acústicos que são ecos pelas margens dos ouvidos, espelhos nos horizontes dos olhos e no hálito pulsátil dos lábios, um tremor de oásis. A leitora segura-se nas velas páginas à distância pouca dos antebraços telescópios e enfuna em orgulho, vasto, a húmida estreiteza do peito (transido de nevoeiros) que estoira num foguetório sinfónico, por ser ali, numa página ímpar, nome que se escreveu em digressão e cursivo, por primeira vez, tinta em folha-papel de livro-poemas, sombra clara.

Obrigada, Suzana ―era sem tempo que eu dissesse.

: Descartes aconselhou-me a duvidar de tudo, mas duvido dele e apetece-me não questionar algumas vezes; e gosto desta dúvida ―dá-me uma espécie de asas; dói-me, contudo, aristocraticamente a cabeça e escuto zumbidos transversalmente ao silêncio e ao meu pestanejar na escuridão; pergunto-me, pergunto-me sempre: da própria incerteza. do sentido da dor. da subsconsciência dos sentidos, das ignorâncias, da ignorância da ignorância. do caminho da liberdade. da via do compromisso, dos trilhos do apego. dos desvarios do controle. dos sacrifícios dos orifícios. do que Deus estará a fazer. e fico incerta, insecta, zunindo em torno daquilo que julgo ser a minha cabeça
Suzana Guimaraens
"Dispersões insones" (excerto). Parodox.sou (2010)

segunda-feira, 20 de dezembro de 2010

A preciosa inutilidade da poesia










A poesia não precisa de ser útil. É no valor imenso da sua inutilidade que se fixa a sua importância. As imagens que possa oferecer ―como quem diz, o dia que se inicia com jogos malabares de pedras, corações-calhaus a dançar no ar que a ninguém alcançam, a ninguém ferem, ninguém é ninguém que passa, o chão que os recebe, prontos para mais um amanhã: a circular persistência do sonho inatingível― podem ser uma verdade qualquer, e a verdade tem frases assim que tocam (música).

_____________
projecto de vida

de manhã
jogo calhaus ao ar e
faço o cômputo das pedras
que não ferem nenhum passante
os passantes não passam
as pedras estão no chão e
os calhaus cairam todos
novamente

Ana Saraiva. 19 de dezembro de 2010
(Versão para português de María Alonso Seisdedos)

segunda-feira, 13 de dezembro de 2010

As marcas no rostro

Digo que na historia a violencia, a visual e a oculta, é brutal desde o primeiro instante, e por iso, tal como afirmei onte á noite, camiño do coche, pola húmida beira do río Miñor, esta mañá, que xa durmín desacougada por pesadelos de colleita propia, non entra nos meus cálculos repetir sesión. Digo, con todo, que é unha película imprescindible na memoria de calquera amante do cine. A interpretación extraordinaria do rapaz protagonista, o proceso de transformación interior que asoma ao seu rostro, merece, ao meu xuízo hoxe aínda estremecido, o bater de asas en aplauso de centos de paxaros liberados.

terça-feira, 7 de dezembro de 2010

49: o presente

Uma cifra qualquer é o que é, um dia em que sempre chove desde há tantos anos, anos que agora, vistos de aqui, parecem nada: nada não como no tango, apenas nada como nada: o passado é um invento, uma criação necessária para segurar os pés à beira do precipício que dizem futuro.

O presente, porém, existe mesmo: foi-me oferecido e está aqui.

quinta-feira, 11 de novembro de 2010

Tamén do meu silencio










Do silencio como arma que se vira contra o señor Stevens ou contra min: o dominio dos sentimentos, refreados para non afastar (velaí a inxenuidade!) o que se quere ter, mesmo sen sabelo conscientemente. Apréndese tarde, case sempre, que nunca se debe adiar a voz e/ou o xesto precisos.

Máis ben era coma se un tivese à disposición un número interminable de días, meses, anos para resolver as veleidades da súa relación coa señorita Kenton; un número infinito de eventuais oportunidades nas que remediar este ou esoutro malentendido. Daquela non había, con certeza, nada que indicase que tales incidentes manifestamente pequenos ían tornar imposibles para sempre soños enteiros.

Kazuo Ishiguro. The Remains of the Day


Porque no fin será iso o que reste do día: saudades de futuro.

(Subliño que a novela ―digo excelente― é moito máis ca esta pincelada. Deséñase nela un home a desvendarse sobre un escenario moribundo, decote cunha palabra, dignidade, empuñada en van. É, en definitiva, a introspección en voz alta que dá en exhibir a alma coma quem descasca unha cebola ―prosaica mente, a miña― para encontrar na última capa nada ou lágrimas. Lágrimas.)

domingo, 5 de setembro de 2010

Propósito de emenda










Redescubrín con el que non era necesario saber a hora cando as horas nos pertencen. O sol marca os tempos: o de camiñar polo piñeiral ao abrigo do sol, o de afundir os pés na area na fin da tarde e o de deterse a contemplar en silencio o día que termina. Rituais de sosego antiquísimos.

Onte lembreino... lembráronmo.

quarta-feira, 1 de setembro de 2010

Van acabar os paxaros

Leo poesía sen lentes, por iso non distingo o rostro da auxiliar cando pronuncia un dos meus moitos nomes na sala de espera do oculista por riba do balbordo de voces que incomodan nos acentos máis circunflexos do campo visual. O fundo do ollo está perfecto, consignan, e a miopía nas mesmas. Continuarei logo a ler sen lentes poesía, antes que acabe, desde o principio e até o final do mundo, cando se produza a temible restruturación da cadea trófica e os poetas se sirvan esmiuzados en forma de pastillas enerxéticas aos xogadores das seleccións nacionais de fútbol.

A poesía vai

A poesía vai acabar, os poetas
vão ser colocados em lugares mais úteis.
Por exemplo, observadores de pássaros
(enquanto os pássaros não
acabarem). Esta certeza tive-a hoje ao
entrar numa repartição pública.
Um senhor míope atendia devagar
ao balcão; eu perguntei: "Que fez algum
poeta por este senhor?" E a pergunta
afligiu-me tanto por dentro e por
fora da cabeça que tive de voltar a ler
toda a poesia desde o princípio do mundo.
Uma pergunta numa cabeça.
―Como uma coroa de espinhos:
estão todos a ver onde o autor quer chegar?

Manuel António Pina. Ainda não é o fim nem o princípio
do mundo calma é apenas um pouco tarde (1969)


Quen sabe se é a poesía o que vai acabar ou as árbores. Anuncian chuvia pero a min estas nubes parécenme un decorado de cinema, posto aí por esixencias do guión, coma o falso nu dun actor recatado que non se mostra por diante ou se si, nunca suficientemente (non que me interese, mas están sempre eles ás voltas co tamaño, como se o grandor fose equiparable ao pracer e ao asombro ou estímulo crucial de humidades). Non chove, digo, e talvez acaben así as árbores e os paxaros para ocuparen o seu lugar os estiletes de cactos e mosquitos, tan incongruentes coa paz da pel e coa reciclaxe prevista dos poetas.

Aboia no meu eido un recendo teimudo à lavanda que agoira desemprego nos silenciados observadores de aves vivas.

segunda-feira, 23 de agosto de 2010

A-videncias e amigos invisibles










O neboeiro da tarde en Moledo que me conxelou os dedos sobre as páxinas do Anna Karénina fixérame presentir unha noite máis fresca para o concerto da noite na Nova, onde, entre tanto, rachaban as piñas poucas que van restando dos incendios. A servidora xa non lle quedaría estranxeiro ao que fuxir se se dedicase a vender estas videncias con libro de reclamacións e dereito ao reembolso da "vontade" dos crédulos (esa que os adiviños saben que se ha mostrar magnánima, porque a mesquindade non presta ante os ollos omniscientes dos poderes sobrenaturais) expresada nos negros billetes coloridos.

Porque ao final a noite foi quente. Non abondase a temperatura real, estaba a sensación térmica transmitida desde o palco por el, polo vento cálido da súa voz e a súa simpatía vertidas en cancións de amor e paixón, e eu deixándome arrolar na música para non me consumir nas letras, a lúa entre nubes acenando, o meu amigo invisible case corpóreo a evitar, as súas mans tenras e firme nas miñas, que me arrastrase ao fundo a negrume.

segunda-feira, 9 de agosto de 2010

Ante un ermo vasto (10)

Cando terminou de ler as Memórias póstumas de Brás Cubas, quedou a pasmar un bo anaco. Entre tanto íalle abrollando a golpes suaves e ondulados unha idea que apenas uns séculos depois, xa consciente dela, había qualificar de fabulosa. El tamén ía escribir de morto! Que ocorrencia xenial! Acelerado polo entusiasmo, Xoán Lobo Vieira dirixiuse á casa galgando vila através sen desviarse ante paredes nin mirar aos lados para cruzar as rúas, sen pedir paso aos veciños que cumprindo a tradición se xuntaban ao luscofusco nas terrazas para falaren da calor e enxotaren en comuñón a impertinencia teimuda dos mosquitos. Non ben chegou, considerou oportuno ao decorado colocar un malte seco nun canto do escritorio. Deseguida librou o espazo de papelada, colleu unhas poucas de cuartillas limpas dunha resma xa mediada e sentou, na man dereita a pluma, entre o furabolos teso e o gordo da esquerda pousado moi intelectualmente o queixo, pronto a acometer a maior obra literaria nunca escrita: o relato da súa existencia real no alén. A brancura do papel foise tinguindo de amarelo mentres nun remuíño zoaba o baleiro da atemporalidade.

(Nunha dimensión diferente os deuses, parados ante un ermo vasto suspendido na eternidade por columnas xónicas cuns repoludos querubíns trompeteiros a modo de capiteis, continuaban a debater un proxecto á medida do soño humano: un xardín abundante en regatos e maceiras, con conexión wifi.)

domingo, 8 de agosto de 2010

Danza de partituras ao vento






O anfiteatro enchíase mentres os acomodadores pedían para nos aconchegarmos uns aos outros coma se fose inverno. E non era. A superficie das bancadas, nas que estivera día enteiro batendo o sol de cheo, queimaba como se fose ao tacto baldosas dun piso que tivese a gloria a arder por baixo. Só que non era.

O que era era un vento de suspiros que quitaba as follas das partituras a bailar, pretendendo conquerer, envexoso, os aplausos en que os espectadores prorrompían mal acabada a peza, nin se sabe se satisfeitos do ouvido se ansiosos por ouvir máis. Os pianistas, á deles, viraban en círculo, trocando os instrumentos coma quen muda de parella sen desafinar no clímax, que se reflectía nos rostros levantados dos ocupantes do patio ou nos debruzados dos que abrazabamos o espazo no escano superior evitando que o son se perdese na penumbra.

Había nenos por todas partes: os máis vellos escoitaban en silencio, beneducadísimos; os máis cativos ían adormecendo sen roncar sequera nin ousar soñar de alto un conto de medo ou de marcianos orelláns, aniñados no colo que os acollese.

No anfiteatro da Nova o público réndese sempre ao final en pé porque hai poucas ocasións de ouvir música decente por aquí, fóra o verán, e percíbese a entrega dos músicos, en xeral1, que chegaron con día aínda e levan pintado no resplandor dos ollos a caricia desta paisaxe que ancorou entre o norte e o sur de ningures.


_________
1Vale, dixen en xeral porque o verán pasado estivo por aquí o túzaro dos calcetíns cor de rosa, que non deu de máis nin as boas noites e saudava tan envarado que non lle collía unha palla no cu, como se tivese medo de que os pantalóns lle rachasen. O farruco, xa pode tocar onde lle pete, que a min só pagándome unha millonada me volve ter de público. Ese non sabe quen son eu!

segunda-feira, 2 de agosto de 2010

A cor, a luz






Anêmonas vermelhas, Dacha



Eu nunca pensei mercar un cadro, digo, pensar pensei moitas veces pero sempre como un imposible. Por iso fun á exposición que a Dacha (Dália Faceira, que descubrín no Alpendre da Lua) colgara en Caminha apenas coa intención de agasallar de cores a vista e acender coa luz dos lenzos a temperatura corporal. Saín do local, dígovos, tamén con algún centímetro a máis de altura no ánimo. Agora cómpre buscarlle un sitio onde quebre a brancura inane das paredes.