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quarta-feira, 16 de fevereiro de 2011

Dizem que o sistema falhou

Não sei se chove em Málaga, mas será precisa muita água para lavar tanto sangue, para escoar tanta dor, para encher tanto vazio que resta, para amparar tanto abraço que se perde no ar. Eu não te conhecia, Susana. Apenas ouvi uma vez a tua voz ao telefone, nem tanto há, este natal, quando liguei para mandar um beijo a tua avô, minha tia, e a tua mãe, minha prima. Atendeste tu e gritaste mãe! Não sei se vou encontrar palavras para dizer agora à tua mãe, nem se a tua mãe vai encontrar palavras para dizer à tua filha. Não sei sequer se servem dalguma coisa as palavras quando não se escutam aquelas de quem pede protecção contra a barbárie dum deusezito miserável que se julga com poder sobre a vida doutrem, e somando horror ao horror, destrói de vez e à machadada a vida que não pôde continuar a destruir aos poucos, torturando, como quem arranca a uma mosca as asas, uma por uma, e os olhos, um e outro, e por fim o coração, o coração único... Porque tu, a Susana que eu nem conhecia, fugiste mesmo assim, já sem asas, já sem olhos, com voz ainda para gritar mãe!, já sem coração, esse que não encontrará quem te fizer a autópsia para redigir um relatório sobre as causas da morte, tão claras, tão bem definidas: uma falha no sistema. Mais um número nas estatísticas.

domingo, 25 de julho de 2010

Retrato impresionista dun incendio calquera










Agárraseme ao nariz o fume mentres ascendo a Arga ferida, fito o sol alto e a alta desesperanza que o tolda, que me abrasa por fóra e dentro, polos poros que transpiran e os ollos que cuspen querendo derrubar a fera que arrasa o monte contra a tarde en calma. Dóeme o rostro dos bombeiros, arrimándose o aconchego uns aos outros, vermello e negro, negro e vermello, formigas de brazos caídos coma o espírito, o cansazo e a tristura tatuados a ferro na pel incandescente e seca, de costas ao quita-medos e á impotencia, o camión-bomba rendido aos pés deles, manso, fungando de ventre baleiro, rebentado.

Agárraseme ao peito o lume mentres descendo a Arga magoada, prendo o instante nos ollos en que os dragóns de auga envorcan o cesto, como xoguetes que desafiasen as mofas do trebón colosal cincento; resóame nos ouvidos o brado do monstro cego; no tacto apéganseme os estralos agonizantes dos piñeiros que a resina ceba e o silencio das criaturas de pernas curtas ou asas inválidas que sucumben sen unha memoria tisnada de tenrura que as salve.


segunda-feira, 5 de julho de 2010

Nunha caixa de cartón










Atravesei o eido cunha laia e unha eixada. Escollín un lugar onde o sol chegase peneirado polas follas das maceiras no verán, ceibe e calidamente manso do inverno. E cavei. Cavei un buraco da medida dunha cadela pequena e teimosa: setenta centímetros de fundo, trinta de largo, de longo para aí sesenta. Tanta terra nunha morea.

Levantei a caixa de cartón do chan. Pesaba. Agachei e coloqueina amodo. A herba sabíame húmida nos xeonllos. Este ano ou non hai mosquitos ou fíxenme inmune ás picadas, reflexionei. Nunca imaxinei que a primeira padexada de terra fose resoar así contra a tapa da caixa de cartón. Foron outras logo, ningunha igual ca a primeira. Calquei suavemente cos pés.

Axeitei tres pedras enriba.

Atravesei o eido. Gardei no alboio a laia e a eixada. Era case noite xa. Nunha noite de inverno, lembrei, hai catorce anos, cheguei á casa cunha caixa de cartón e unha mincha de cadela dentro.

quarta-feira, 16 de junho de 2010

A viaxe

Dicides de min que sempre tardo, e tardo. Non é no destino onde se me espera, senón en cada reviravolta e desvío do camiño, na beira da estrada, ao pé das nubes que se tocan, mergullada entre espigas ou papoulas, apegando na pel o cantroxo, a lavanda, o tomiño e a resina, aceptando ―con reparos― o túzaro recibimento dos cardos, ou ergueita sobre a atalaia calcaria inestable en que me equilibro para aprehender o instante efémero de luz e recendos.

Dicides de min que sempre tardo e é só que xa nunca alcanzo o destino cando regreso: morreume a infancia.














































domingo, 23 de maio de 2010

Amanhecer sem ti (2)

Para o Ademar Santos







Fui à procura de desrazões e o rio deu-mas.
María Alonso Seisdedos

Amanhecer sem ti

Para o Ademar Santos







Já é dia.
Vou fazer o café.
Descansa, Ademar.
María Alonso Seisdedos

Nem um dia

Para o Ademar Santos







Tem muitos dias em que acordo destas horas e já logo-logo me levanto. Escrevo-te, então, um bilhete de madrugada para te dar o bom dia. Hoje não consegui dormir. Antes que o telefone tocasse, às 02.04 (HE), eu não conseguira dormir, como se... quem sabe? Deixara o telemóvel na mesa de cabeceira, por se me devolvias a chamada que preocupada pelo teu silêncio te fiz. Quando tocou, ao meu "bom dia" de brincadeira aliviado (!), não foi a tua voz que respondeu, mas um silêncio longo, e depois já, num sussurro, senti alguém que não eras tu a pronunciar o teu nome e a seguir, um pretérito imperfeito. E eu agora a escrever para ti, como se me lesses, sem te poder dar o bom dia, nem um dia, mais um dia... para nós.
María Alonso Seisdedos

Tempo desconjugado

Para o Ademar Santos







Está um silêncio de horror ou tristeza, nem sei, instalado na minha caixa do correio electrónico. És tu que já não és. E eu aqui, tão longe, num infinito em que as distâncias carecem de medida que as contenha. E eu aqui ainda. E tu já nem. Nós nada já mais. Nem o teu olhar. Os olhos, lembras, que me deste? Não, não lembras. Sou só eu a lembrar doravante. E as mãos, as tuas mãos na mesa na hora do almoço dos domingos tão poucos. A tua voz, a silabar o meu nome inteiro, a tua voz na rua a me guiar entre ruínas inexistentes, como nós agora, que já nem entulho somos. E eu, os verbos cativos, que me recompunhas, agora só conjugados no tempo passado contigo, impresente.

Está o frio em mim, mas em ti é o mundo uma prancha de aço em contacto com as costas que nem sentes.
María Alonso Seisdedos

quarta-feira, 28 de abril de 2010

Com um sentido ou dois a menos

Imaginem só que há bocado, enquanto tentava escrever um comentário, esqueci um dos cinco sentidos. Pus mentalmente as mãos nos ouvidos, nos olhos, na língua; juntei fisicamente uns dedos aos outros dedos. Faltava um e eu sabia (ainda bem!) que eram cinco: um sentido por cada dedo. Nem o sexto (o dedo, o sentido) me acudia. Tive-o de ir procurar ao espaço virtual: era o olfacto. Às vezes isto assusta-me, falo a sério, assusta-me ao ponto de perder o sentido... ou o rumo.

segunda-feira, 1 de fevereiro de 2010

Sensación térmica

Non sei se alguén o notou. Aí fóra vai unha friaxe que conxela as neuronas, peneirada por unha brétema translúcida que o sol aínda non deu fundido. Medraron os días, tamén iso se nota, pero non as horas. E é que anda a intemperie vestida de ilusión óptica. É inverno. Cada vez é máis inverno.

quarta-feira, 2 de dezembro de 2009

A (frágil) linha traçada no ar...










Este texto é fragmento duma
carta que escrevi em tempos.


Falar em caça sempre me lembra um sucedido. Tenho um tio de quem muito gosto, lá em Castela, irmão único de minha mãe. Ele é —era, agora já não— caçador, de caça menor (dizia que era incapaz de matar um bicho grande, com aqueles olhos de pessoa a mirar para a gente). Com ele aprendi a querer os cães, eu treinava-os com bolas feitas de papel de jornal velho e esparadrapo (não sei como se diz em português, essa fita adesiva que vendem nas farmácias para colar as vendas, antes era de pano, agora de papel, e que na minha família materna é tudo só farmacêuticos). Um dia pedi-lhe para o acompanhar. Madrugámos muito e lá fomos a caminhar para os campos de trigo, entre os restolhos, tudo amarelo e um horizonte infinito onde descansar a vista (e como eu adoro aquela terra seca, onde um manancial ou uma árvore são prodígios de encantar e as nuvens parece que basta esticar um braço para alcança-las!). Estava feliz que nem sei explicar. Ia atrás dele, como me indicara, com cautela sempre, atenta. De pronto, à nossa frente saiu uma codorniz a voar: retive aquela imagem da ave pequenina e torpe a bater as asas, como se aparecesse num ecrã... e na metade deste, pum!, vi-a cair, a linha que traçava no ar rota, eu com o coração de criança encolhido, lágrimas quase a abrolhar... Mas engoli-as, não queria que o meu tio me visse a chorar, não o queria desiludir (como se ele não fosse perceber, he!). Só disse: "Tito (chamamos-lhe assim Tito, de tio), vou para o carro, que estou cansada. Espero ali". E lá esperei que ele voltasse —à sombra do Ondini bege e da tristeza—, que não demorou muito. Sei que lhe estraguei a manhã de caça, mas ele não me recriminou nada, nunca comentou, é bom de mais para isso.

E agora lembro que devo chama-lo, ver como ele está, que já vai velho e não deixam andar só agora de carro. Antes passava as tardes todas num pinheiral que tem imenso, não sei quantas hectares, às vezes incluso o dia inteiro ele lá, a plantar pinheiros, tirar água do poço para as aves, apanhar cogumelos... De caçar deixou há muito. Disse-me que tinha pena de matar os poucos animais que ainda restavam. Tenho de voltar e leva-lo, para competirmos, como outrora, a ver quem conhece mais nomes científicos de animais e plantas.


Telefonei-o há uma semana, estava de aniversário. Desta vez nem me perguntou pelos cães, quantos tens agora?, como era seu costume nos últimos tempos, a avidez instalada do monstro que lhe vai engolindo as lembranças. Percebi que não conseguia me reconhecer, mas na sua inseguridade sentia a minha voz como de alguém muito próximo. No final, na despedida disse-me:

—Então quando vens por cá? Precisamos muito de ti.

Soube aí que retrocedera à aqueles anos por um instante, que me reclamava para lhe ajudar na farmácia como sempre fazia durante as férias da escola.

—Já não tardo —respondi.

Tardei de mais. Chamaram para me avisar que está no hospital, grave. Vou ir, mas já sempre vai ser tarde.

sexta-feira, 20 de novembro de 2009

Eutanásia










A pequenininha está doente, muito doente, aliás, doente de velhice, que é enfermidade sem cura. Enquanto escrevo isto, ela chora e chora. E eu aguardo pelo momento de arrancar com ela para o veterinário, mais um dia, ver lá o que o se pode fazer ou fazer, se for o caso, o que se deve. Surda, cega e com dores, não me queria eu assim, e só espero, quando me chegar a hora, que me chegará e também não vai ser suave, que alguém tenha dó de mim e uma seringa à mão.

quarta-feira, 18 de fevereiro de 2009

Retorno á lucidez










A náusea, a náusea
como o outro dixo o horror!, o horror!
É o meu propio corpo o que se rebela,
o que renega de si e da mente que aprisiona.
Doen os dedos das arcadas
con que en sacudidas lentas vomitan en lugar de palabras
vísceras.
Quéixase cada músculo obrigado a camiñar
e os tendóns renxen esgotados,
xemen os artellos e a consciencia.
Era sen tempo:
emprendín o camiño de regreso,
polas tebras do meu congo,
o río lúgubre que me arrastra
á nada.

quarta-feira, 16 de julho de 2008

A podridão

Não queria falar mais em negrume aqui mas... aconteceu

Por uma vez não me vem de dentro a tristeza, mas de fora, doutros, da bile que salta pelo ar quando morre até a melhor das lembranças e só resta um cadáver repugnante e fétido a provocar náuseas.

quarta-feira, 14 de maio de 2008

De viva voz

Que nazan palabras onde algúns porfían en semear silencios.

sábado, 10 de maio de 2008

Bestial

O país inzado de mortos e eles celebran o referendo como se nada.
_________________
No fondo consólame saber que a miña capacidade de sorpresa segue viva.

quinta-feira, 8 de maio de 2008

Do máis fondo

Teño frío,
un frío que xamais sentira,
frío que aterece o miolo dos ósos,
que entala o miolo de dentro do máis fondo,
frío de xeo glacial que o sol nunca ha de lamber,
frío eterno de inverno interminable,
frío de paraíso deshabitado e húmido,
frío do baleiro que deixa un corpo que nunca estivo...

terça-feira, 1 de abril de 2008

Por un fío!

Dúas horas desconectada do mundo por problemas técnicos: sen teléfono, sen rede! E aínda queren que faga de funambulista?

quinta-feira, 20 de março de 2008

Radio

Encántame escoitar a radio cando me ergo. Esta mañá non estaba para ouvir informativos, senón música, que está fóra un sol radiante (e de vento frío, como agoirei esta madrugada, xoscouse o almorzo ao ventimperio), así que pulsei o botón do scan para que ela fose procurando algo de xeito mentres eu preparaba o café, café, café. E descubrinme cursi quetecagas bailando isto polo medio da cociña, e mentres a voz esmorecía e o aroma do café empezaba a colocarme, cortoume o éxtase a voz dun crego (que modificación xenética lles inxectan no seminario para eles falaren todos igual?). Saltoume o dedo coma un resorte cara ao scan e a seguinte emisora mandoume de cabeza á adolescencia, a aquela tarde de domingo de inverno, eu a escoitar unha e outra vez este home no tocadiscos. Estaba soa na casa e apareceu meu irmán máis vello (vello de mil anos meu irmán) co seu colega Rober (anxos sen paraíso ambos...), quen con toda a tristura que cabe nunha mirada, póndome unha man no ombro, dixo: Que sorte, que non entendes...
Ten a radio ese poder de mandarnos para arriba e para abaixo sen miramentos. Quen me vai abrigar agora da treboada?

sábado, 15 de março de 2008

Inverno aínda

Camiño sobre cadáveres de algas
que arrastrou a marea.
Son unha sombra leve
que nin escorrenta a pachorra arrogante das gaivotas prateadas.
Só os pilros, que en parellas
petiscan á súa vida pola area,
aceleran o paso ao sentiren
os meus pasos lentos de espectro que se enterra.