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quarta-feira, 20 de abril de 2011

Faltava-nos a energia de estarmos vivos...










Ele disse vim para morrer, bem o sabes. Ele disse vim para morrer, porque pensaba que sabia a resposta a todas as perguntas do mundo. Ele disse não sabia uma resposta. Ele disse não sabia que morrer custa muito. É muito difícil morrer, disse ele. Sabendo tudo, ou não sabendo nada sobre o mundo e sobre a vida, morrer custa muito, disse ele. É muito difícil morrer, disse ele. Não dissemos nada. Ele disse a morte é impossível. Ele disse o amor é impossível. Ele disse tudo o que desejamos é impossível. Cada palavra do príncipe de calicatri era verdadeira, como era verdadeira a lentidão dos rostos. Faltava-nos a energia de estarmos vivos e, no entanto, a morte era impossível. Também eu já sabia isso.

José Luís Peixoto. Uma casa na escuridão. Quetzal Editores. 2002

sexta-feira, 18 de março de 2011

O ogro mascarado de plácida leitora de poesia (1)

Prova de que a poesia não me (nos) faz melhor(es) pessoa(s)

É domingo de entrudo. Almocei já, cedo hoje, mais do que é costume, meu. Estaciono (um falar) a burra sob a janela fechada da Biblioteca fechada, talvez ainda elas venham a aprender alguma coisa por contágio. Olho em volta. Está o ambiente animado. Toca fugir, pois. Pois. Não fossem os "porens..." que virão mais tarde. É preciso ter (a gente, eu) muita calma. Entro na pastelaria e peço, sff, para me levarem um bolinho de maçã e um chá bastante preto à esplanada. A esplanada são três paredes e nenhum tecto dum prédio antigo, enfrente, com vistas ao edifício e o jardim da Biblioteca, belíssimos, estáticos, calados. É para o que der, e dá-me, o lugar idóneo, numa rua próxima ao terreiro e afastada do seu bulício, em que pouso o corpo dolorido e lanho das páginas dum livro irregular de capa roxa poemas, imatéria dum poeta excelente se fosse mais crítico consigo ou tivesse um bom amigo que às claras lhe dissesse: olha, que isto aqui é merda, mesmo.

domingo, 13 de fevereiro de 2011

Verdades coma templos

PANTALEÓN: Cando se che acaban os soños quédache a literatura.
Rubén Ruibal. Limpeza de Sangue. Xerais. 2006

sexta-feira, 28 de janeiro de 2011

Um porco e também pessoas

Na lagoa, a puxar pelos pés do porco de um lado para o outro, estavam dois putos caxineiros a nadar naquela porcaria como se fosse a piscina municipal. Boquiabertei total. Nadavam à pescador, de um modo desenrascado e trabalhador, capazes de ficarem com uma mão livre e pegarem em coisas na água atirando-as de um lado para o outro. Diziam: quando chegar aí acima vou-te matar.

valter hugo mãe. Excerto de "aprender com os animais". 27 janeiro de 2011. Texto escrito para a sessão Caxinas para Capital das Quintas de Leitura do Teatro do Campo Alegre

Era assim: como se estivéssemos no mar, vagas de luz numa tela inventada, e houvesse uma sereia que nos encantasse ao piano, a gente rastejava com a cabeça (cada pessoa a sua) bem levantada, cobras enfeitiçadas éramos, como quem fareja no sal do ar o cheiro da terra sem sucesso, como quem perscruta na espuma duma onda que rebentou areais de praia e palmeiras ou eucaliptos. Havia também sobre o quadrado azul de lagoa em calma ―porco nenhum à vista, menos morto― poltronas dum cinema-teatro antigo para os corpos magros dum tempo em que se distraía a fome adolescente em filmes de motoristas e senhoras insaciáveis. E havia mais, havia redes em que nos deixávamos pescar, como caranguejos tóxicos, simpáticos e inocentes, com um sorriso nas bocas desdentadas de que a natureza nos não dotou para modelarmos a irreverência das gargalhadas. Das poltronas nasciam vozes que desenhavam a nostalgia duma infância de medos assustadores em território ignoto, aquelas selvas de monstros (porcos ou gente) e a mais terrível puberdade de que um velhote perseguidor tinha saudades. Fartámo-nos de rir.

No intervalo saiu o pessoal à rua a apanhar fumo e frio e vistos de dentro através da vidraça, os braços bem colados ao abrigo, os pés saltitantes, eram peixes que abriam muito a boca à procura dum sonho ou de plâncton. Entre o interior e o exterior gerava-se, a despeito da temperatura, uma trasfega de copinhos com um líquido que pelo cheiro que ia semeando em volta e a cor de madeira nobilíssima e envernizada se diria o vinho que os ingleses chamam de port e bebem como se deles fosse.

Ainda mais tarde acabei por pensar que a felicidade (haja quem me gabe a paciência, que eu hei-de gabar a de vossas excelências) era ali, a ouvir um gajo de barbas em rosto de criança e olhos maduros, voz e piano fundidos como se ele e o instrumento fossem o mesmo animal vivo, que até me apeteceu chorar e só no chorei por não sorver forte e feio o ranho ou estragar a maquilhagem. Iludi as lágrimas com o mar azul sulcado de algas vermelhas que assomava à parede, também o calidoscópio camaleão, que me regressava a um estado de embriaguez sentimental e mansa em que a felicidade era mesmo ali, entre histórias de música, pedidos de casamento sem hora nem medida, cuspidelas (ou coisa pior) desde o poleiro e um porco morto, inchado e imperfurável de tão duro, a boiar na memória.

domingo, 23 de janeiro de 2011

E se somos todos fabuladores?










But what if we are all fictioneers, as you call Coetzee? What if we all continually make up the stories of our lives? Why should what I tell you about Coetzee be any worthier of credence than what he tells you himself.*

Sophie en Summertime de J. M. Coetzee.

A nada do que se diga sobre el, nin sequera ao que el diga de si, se deberá dar creto. Xa en Mocidade o advertía explicitamente nunhas palabras de que eu me apropiei e andan por aí, como aviso serio a navegantes sobre o que aquí se escribe ou cala, á vosa dereita.

Tomando como centro o período en que John Coetzee acada a idade adulta, Verán é o pretexto para retratar a sociedade branca da África do Sur da década de 1970. Un estudoso ficticio da vida de John Coetzee tenta elaborar unha biografía póstuma que non calla a partir de entrevistas a cinco persoas que o coñeceron nesa época e mais algunha papelada que deixou o escritor presuntamente xa falecido. O coro a seis voces fala da soidade, a morte, a vellez, a enfermidade, a eutanasia, a incapacidade de amar ou de expresar o amor, as relacións familiares e laborais, o apartheid, o compromiso político, o conflito da conciencia entre o sentimento de culpa e o apego a un territorio roubado. E tamén da música.

[Eu poida que perdese o sentido do humor, pero o único que me parece "funny" do libro son as apreciacións do crítico do Observer que colocaron na capa como reclamo. Ende ben, non o mercara precisamente por iso.]

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* Pero e se somos todos fabuladores, como chama vostede a Coetzee? E se todos inventamos decontino as historias da nosa vida? Por que vai ser máis digno de creto o que eu lle conte sobre Coetzee ca o que lle conte el?

quarta-feira, 12 de janeiro de 2011

O que se fai con palabras

...si he de morir quiero morirme vivo y no muerto de antemano...

Non dubido que quen lle roubou o bolso no tren sabía o que contiña. A ela nin lle importou a perda da carteira, cos cartos e a documentación, nin quedar sen lentes de sol, nin sen a muda que levaba para un imprevisto, agradable ou desagradable. Chegada ao destino, apeouse na brasa á procura dunha librería, rogando e renegando, que houbese, portódolosantos, un exemplar. Iso foi, máis ou menos, o que me contou cando lle comentei exultante que descubrira na biblioteca de miña nai unha novela que me tiña enganchada e apaixonada. Eu levaba anos contemplando o título no lombo sen que me seducise e era das escasas novelas que foron de miña nai que aínda non lera. Pero os meses de novembro e decembro foron de secura laboral e andaba a contar nos patacóns, que nunca se sabe o que o mañá non traerá. Así que dixen, en fin, a ver de que vai isto. E xa non o larguei. Sabedes esas historias que non queremos que terminen nunca, nas que o que menos importa é o final porque hai un mundo debuxado en cada frase, que avanzan e recúan, desenguedellándose as poucos, sen un gramo de palla que sobre e unha riqueza de vocabulario que mete gana de mastigar as palabras?

Yo escucho las palabras de Mágina, las de los hortelanos y los aceituneros, las que aprendí de mis padres, y me doy cuenta de que muy pronto desaparecerán porque ya casi no existen las cosas que nombraban, igual que han desaparecido los romances de saltar a la comba y las cantilenas amenazadoras de los juegos porque ya no quedan niños en el barrio de San Lorenzo que se asusten de la Tía Tragantía o de la momia de la Casa de las Torres: también en las palabras soy un extranjero y un advenedizo, he perdido las que me legaron y el acento con que me enseñaron a decirlas y no acabo de aceptar como mías las que aprendí después, vivo entre ellas y de ellas pero me son ajenas y no pueden explicarme que tal vez me rechazan igual que las miradas claras y frías de la gente que se cruza conmigo en las ciudades adonde quise huir cuando tenía quince años.

Antonio Muñoz Molina. El jinete polaco. 1991

segunda-feira, 27 de dezembro de 2010

Os livros, sempre



BARRETO NUNES, Henrique. Amigos Maiores que o Pensamento. Associação dos Jornalistas e Homens de Letras do Porto. 2010





No passado 21 de dezembro, o Henrique Barreto Nunes lançou uma colectânea de artigos e textos em volta das suas lutas e dos seus livros e que dedica, parafraseando o Zeca Afonso, aos seus amigos.
O volume, publicado pela Associação dos Jornalistas e Homens de Letras do Porto, foi apresentado na sede desta pelo geógrafo Álvaro Domingues.

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Improviso para saudar numa ca(u)sa um grande Amigo...
Para o Henrique Barreto Nunes

Deixa que nesta noite polar
a memória ocupe o pensamento todo
e não sobre lugar na mesa
para mais ninguém
foi aqui (lembras-te?)
que interrogámos o destino
e o ganhámos
talvez tudo o mais tenha sido em vão
menos aqui
nesta antiquíssima liberdade
que nenhuma ruína calou
nenhum esquecimento.

Ademar Ferreira dos Santos. Em Abnóxio
08.01.2010

quinta-feira, 11 de novembro de 2010

Tamén do meu silencio










Do silencio como arma que se vira contra o señor Stevens ou contra min: o dominio dos sentimentos, refreados para non afastar (velaí a inxenuidade!) o que se quere ter, mesmo sen sabelo conscientemente. Apréndese tarde, case sempre, que nunca se debe adiar a voz e/ou o xesto precisos.

Máis ben era coma se un tivese à disposición un número interminable de días, meses, anos para resolver as veleidades da súa relación coa señorita Kenton; un número infinito de eventuais oportunidades nas que remediar este ou esoutro malentendido. Daquela non había, con certeza, nada que indicase que tales incidentes manifestamente pequenos ían tornar imposibles para sempre soños enteiros.

Kazuo Ishiguro. The Remains of the Day


Porque no fin será iso o que reste do día: saudades de futuro.

(Subliño que a novela ―digo excelente― é moito máis ca esta pincelada. Deséñase nela un home a desvendarse sobre un escenario moribundo, decote cunha palabra, dignidade, empuñada en van. É, en definitiva, a introspección en voz alta que dá en exhibir a alma coma quem descasca unha cebola ―prosaica mente, a miña― para encontrar na última capa nada ou lágrimas. Lágrimas.)

segunda-feira, 27 de setembro de 2010

Apuntamento ou atrevemento sobre un título clásico


                        

HAI uns días terminei de ler, era sen tempo (e sen tempo ando mesmo, que é como andar sen vida, que é como andar nzumbi ou zumbando) o imprescindible Anna Karénina. Desde aquela, poucas as grazas, ando às voltas co título, barrenando nel, pois. Foi a escolla unha técnica comercial de vendas?

Ha de haber ao respecto montes e moreas de estudos. Eu son lectora e chégame. Iso si, se me propuxesen titulalo cun antropónimo (subliño, antropónimo) a min (que xa sei que ninguén me vai propor tal, a boas horas iamos mudar un dos nomes máis pronunciados da literatura universal, entendido o universo como isto que é o occidente, onde o sol morre), nun exercicio simple, téñoo claro: Levin, ou, seguindo o molde, Konstantin Arkádevich, Kostia na intimidade.

Non resisto, con todo, a citar a tradución excelente (digo isto consoante aos meus ruso de mínimos e castelán de máximos) de Víctor Gallego Ballestero para Alba Editorial, que espero que lla pagasen ben, como merece. E punto. Final.

segunda-feira, 9 de agosto de 2010

Ante un ermo vasto (10)

Cando terminou de ler as Memórias póstumas de Brás Cubas, quedou a pasmar un bo anaco. Entre tanto íalle abrollando a golpes suaves e ondulados unha idea que apenas uns séculos depois, xa consciente dela, había qualificar de fabulosa. El tamén ía escribir de morto! Que ocorrencia xenial! Acelerado polo entusiasmo, Xoán Lobo Vieira dirixiuse á casa galgando vila através sen desviarse ante paredes nin mirar aos lados para cruzar as rúas, sen pedir paso aos veciños que cumprindo a tradición se xuntaban ao luscofusco nas terrazas para falaren da calor e enxotaren en comuñón a impertinencia teimuda dos mosquitos. Non ben chegou, considerou oportuno ao decorado colocar un malte seco nun canto do escritorio. Deseguida librou o espazo de papelada, colleu unhas poucas de cuartillas limpas dunha resma xa mediada e sentou, na man dereita a pluma, entre o furabolos teso e o gordo da esquerda pousado moi intelectualmente o queixo, pronto a acometer a maior obra literaria nunca escrita: o relato da súa existencia real no alén. A brancura do papel foise tinguindo de amarelo mentres nun remuíño zoaba o baleiro da atemporalidade.

(Nunha dimensión diferente os deuses, parados ante un ermo vasto suspendido na eternidade por columnas xónicas cuns repoludos querubíns trompeteiros a modo de capiteis, continuaban a debater un proxecto á medida do soño humano: un xardín abundante en regatos e maceiras, con conexión wifi.)

quinta-feira, 29 de abril de 2010

O presaxio de algo irremediable










Es que me estou volviendo viejo, le dije. Ya lo estamos, suspiró ella. Lo que pasa es que uno no lo siente por dentro, pero desde fuera todo el mundo lo ve.
Gabriel García Márquez, Memoria de mis putas tristes


Non me vexo.

Mesmo así, coñézome ―a pouco que mergulle polo esófago abaixo, que escaviche nas tripas ou alén do tendón de Aquiles― as miserias, as fraquezas, os olores lúgubres e o desencanto dos cansazos perdurables. Un día sorpréndeme coa garda baixa unha fotografía de hai trinta anos que asoma ao descoido nunha gabeta e arráncame medio suspiro truncado en tose seca de emoción mal abafada ou carraspeira, vulgar, do desgaste impertinente. Outro día, asómbrame o mapa físico arruinado na memoria que me sae ao encontro á volta da esquina e resucita inclemente os adolescentes que fomos, talvez amantes, talvez amigos, se cadra compañeiros de ascensor nun edificio hoxe derreado, derreado coma min sen o saber, e leo entre as dobras da mirada allea a sorpresa da vellez debuxada fenda a fenda na correa do rostro, no frío óseo da man que se xunta á miña, na fortaleza forzada da aperta e nos bicos, dous, concisos e húmidos, sobre a fraxilidade doente dos pómulos.

Vou vella eu tamén, e que luxo!, se aínda hai quen me escriba historias de amores desgraciados con pinturas coloridas e letras como imaxes en rodopío.

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O título do texto é unha frase roubada do mesmo libro de Gabriel García Márquez.

sábado, 13 de fevereiro de 2010

A máquina que faz gostar das pessoas











Carta aberta ao valter
Querido valter

Porque te sei sensível e tanto, tenho medo de te magoar, mas se não te dissesse, penso, esta nossa amizade ainda nova não teria muito para onde crescer.

Fui ao lançamento da máquina, como sabes. Fui porque gosto do valter pessoa que antes já me encantara como escritor, porque me comove o que dizes e sobretudo como o dizes. Não acostumo ir a lançamentos de livros, salvo que sejam de amigos. Também não tenho hábito de acudir a conferências de escritores, salvo que a sua escrita seja tão poderosa como para me suscitar curiosidade, como foi o teu caso, e em boa hora. Gosto muito de ler, não imagino a vida, a minha, sem as leituras que desde a infância me acompanharam, já de antes de aprender as letras, quando minha mãe me lia histórias antes de dormir e quando o consolo de estar doente era o presente dum livro e água de limão. Pouco antes de morrer minha mãe, soube que a senhora Amparo, que estava de criada em casa quando eu era muito pequena, me chamava "a leona". E ainda hoje não consigo resistir-me a aprender a decifrar caracteres doutras línguas, porque são como chaves mágicas que abrem as portas da imaginação. Sou um bicho solitário, dá para perceber.

Depois de ler o remorso, quando comecei a máquina, ao primeiro desiludiu-me, parecia-me tão suave... mas enganara-me: no segundo capítulo já estava presa nas suas garras, duras e mansas. Seduzida. Com o corpo rendido ao fascínio das frases, da voz velha do senhor silva.

E preâmbulo feito, vou ao que ia. Gosto de ler. Não gosto de destripar literatura. Gosto menos de ouvir destripar literatura. Nunca gostei de aulas de literatura. E se não tivesse lido já a máquina, quando a professora iniciou a sua dissecação, deixando-as entranhas espalhadas pela mesa e mal-lendo parágrafos como quem assalta um documento desprovido de ânima; se não tivesse feito cento onze quilómetros com o fardo da anemia às costas para ouvir o valter, o que o valter tinha para partilhar; se não tivesse tão poucas oportunidades de ouvir a voz serena, o equilíbrio perfeito em que o valter combina a tristeza e a alegria para me apanhar de repente —depois de me despenhar o espírito ao abismo— quando estou para bater contra o chão... não tinha aturado aquilo nem um quarto de hora.

O pior é que não fui a única a sentir isso. Na plateia à minha volta as pessoas levantavam-se das cadeiras, falavam baixinho, entretinham-se com o telemóvel, saíam e tornavam a entrar na esperança de que nalgum momento a máquina de destripar romances acabasse e falasse o valter, ou nem sequer voltavam já, cansadas. Quando ela terminou, muitos à minha volta negaram-lhe os aplausos, descontentes. Também eu. E aplaudiram com força, força e calor, as mãos a arder, quando falou o valter, o escrevedor de romances-poemas.

Ai, valter, peço-te, não sofras por isto, que eu te sei vidrinho, vidrinho de cheiro como sou eu, que dizia um meu amigo que uma vez me quebrou.

Houve coisas muito, muito boas. Tudo o resto foi bom de mais, divinamente humano: as fotografias, os quadros, a magnífica voz do Adolfo que era o próprio antónio silva que eu ouvira página após página. E tu, claro, que nem bonito és e mesmo assim, és a beleza.


Beijo como um universo de palavras

P.S.: Ainda bem, nestes papeis digitais, as bágoas não esborratam as palavras.

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Ai, que já ia esquecendo: a frase aquela das histórias de pedrinhas que cito prometendo esclarecer de quem é é, é claro, da máquina do valter; a pedrinha é que não.

quinta-feira, 26 de novembro de 2009

O poeta que virou prosador (sem destorcer nada)










manhã seguinte partimos e nada novo se deu. dia inteiro reavemos caminho que havíamos gasto à ida. Certinhos de nem querer esperar o tempo de um suspiro, rodámos carroça ininterrupta ansiando, como por vida, proximidades de nosso pai e ermesinda. o aldegundes falava na sarga, e eu anuía, e a sarga, pobre coitada, sozinha para várias noites, despalavrada de ninguém, ainda se morre de estupidez por ignorância de saber que viajámos ao invés de morrer. 
o remorso de baltazar serapião. valter hugo mãe


Não é leitura para seres sensíveis mas é preciso ser sensível para lê-lo. Aviso: li-o do princípio ao final com a alma (pois, isso que já não tenho) encolhida. Agradável não é adjectivo para definir a emoção de quem segue a viagem pela mente do baltazar serapião, ao contrário, foi para mim e muito, muito convulsiva a força da escrita do valter hugo mãe*, são potentes as imagens que transmite, fez-me vibrar, sofrer com quem sofria e desfrutar da beleza com que transforma o mundo (os seus abismos e cimeiras, os seus horrores e excelências) em literatura de maiúsculas minúsculas.

Transformar o mundo em literatura era o título da conferência que me levou ao pé dele ontem, numa manhã de bágoas dessalgadas e ventos como ar de pulmões que se agarram à vida, sol por dentro de mim desafiante. Ele falou de si, de vencer os medos, de lutar contra as vertigens, de perseguir os sonhos. Como se fosse qualquer um de nós, mortais. Porque é gente, afinal, nem que escreva como um anjo sem céu.

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* As letras e a voz são dele... Xiça!

domingo, 8 de novembro de 2009

Adicción

Sabía, eu sabía, que se ocultaba unha desrazón tras o meu empeño en ir até a Foz do Lima para ver unha película da que non auguraba satisfaccións profundas. Por que non fun a Cidadeabertaaomar, onde con certeza ía encontrar algo máis de xeito ao meu xeito? Ah, versión orixinal, trécolas! Estaba Ágora, que podía resultar interesante, e Yo también, ambas indobradas. Pero un irracional impulso me enxotou da somnolencia plúmbea vespertina antes da hora, que así aparco con tempo, persuadíame, e tomo un cafeciño con vagar, insistíanme a voz e os seus ecos. Mentira podre, trola burda de hiperfraxil sustentabilidade. Debera levar unha coleira ao pescozo, terapia condutista agresiva que me sacudise o espiñazo de arriba abaixo en descarga eléctrica espasmódica, dolorosísima (choque adrenérxico, Vani dixit), cada vez que me achegase ao trinque dunha librería. Velaquí a inxustificación.

Estacionado o coche, enfiei dereita ao CC, esquecida do café e do pastel na Natário, cunha ansia propia de junkie, as mans trementes e a carteira despavorida. Só un, rogábame, só un, refreándome ante o expositor que vomitaba exemplares do último futuro best-seller que nin vía, o corazón galopándome, antes de cruzar o limiar, non me deixes caer na tentación. Paseei con indolencia cínica polas mesas de novidades, papel reciclado de aquí a un mes, levantando con agarimo candidatos a compañeiros nocturnos, meus amores onánicos de pracer resolto en bágoas, que pousaba de novo, sometida á orde da razón, só un, só un.

Logo, xa fronte ao andel, obxectivo senlleiro, percorrino alfabeticamente até acadar o m minúsculo, titánico. E ollei o prezo, atacada de remorsos, calculando a cantas comidas decentes equivalía. E acariñei o papel da capa, as pastas duras, a lonxitude do título. Abrino, finalmente, e lin, mergullei no canastrel, pegañento, das súas missangas-palabras:

desejei que ela se calasse, que parasse de me chamar meu amor, como antes o fazia sem que me irritasse. disse-lhe vezes sem conta que só continuaria se fizesse silêncio das palavras, ao que se ria e espantava os olhos esbugalhados para me incomodar ainda mais. estava feliz por me reaver, como feliz ficaria uma mulher que fosse minha, se de viagem para que eu fosse voltasse.*

Aconchegueino no peito, decidida, desouvíndome. E as voces. Unha volta mais só, só para ver, só sen tocar, sen levar. E eu non. E as voces si. Como se os libros fosen acabar. E dei a volta toda en volta, esvarando a mirada polas seccións técnica, informática, arquitectura, psicoloxía, que sei o qué en que os meus ollos non reparaban, vagacento o paso do espírito impaciente, até que xa ao pé del, estrangulando os remorsos (cantas comidas etc.) multiplicados, e as mans coma gadoupas feroces arrincándoo da orfandade, sen o abrir sequera, pagando rápido na caixa, non quero saquiño, e fuxindo, fuxindo, derrotada.

"Peço desculpa", respondi, olhando para o chão. "Não volta a acontecer."**
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* o remorso de baltazar serapião. valter hugo mãe
** As três vidas. João Tordo

quarta-feira, 21 de outubro de 2009

De soidades e finais










De todos os terrores nocturnos e diurnos o do transtorno mental é o maior. O esquecemento, a loucura en calquera das súas formas, múltiples e perversas, róldanme coma teimudos aparecidos desaparecidos. Cadaquén ten os seus. A min habítame a obsesión cando vou tras a túa sombra pola cidade, sendo como é a túa sombra a que me segue. Nas películas made in USA, nin que sexa cine independente, obsesiónanse cos finais felices, o que sempre me deixa con moitos efes nos labios, desinchándome.

Vén todo isto a conto (ou non) de que pasei o sábado na Invicta, aproveitando que tiña que ir recoller ao Sá Carneiro os turistas que regresaban da city á noite. O primeiro que fixen ao chegar foi visitar a librería de segunda man por ver se encontraba algunha sorpresa. E encontrei. Collino con certo pudor. Ler as cartas de amor dun vivo... Aínda que fun lendo algunha entre café e café, polo de agora repousa na mesa de cabeceira, que ando no Brasil de finais do XIX, pero xa intuín que o tema recorrente é a soidade.

E falando en soidades, volvo ao principio: dediquei parte da tarde á película de Joe Wright. Pouco teño para dicir, fóra de que me gustou, non fose o final (certo, iso son eu e os finais, que teño tendencias tráxicas) e unha escena da ex-muller e xefa de redacción do xornalista que amarra tremenda lascarda nunha cea fina (paripé de premios e promesas que os políticos entenden á súa maneira: medallas para os deles; porras para os outros, sempre os outros), á que só encontro xustificación se foi para mostrar persoas con virtudes e defectos, xente coma nós, con medo da soidade. Porque no fondo debe ser iso a loita de quen ten algo e o perde, de quen non ten nada e encontra algo.

Xa digo, non fose o final tan simetricamente equilibrado, sinfónico e harmónico, todo ben, e mesmo ese, pódese ouvir de ollos fechados, desde a butaca, mentres os espectadores marchan lentamente da sala, até que soa a derradeira nota. Porque soa ben. Aínda que logo a vida non termine onde termina o relato e veñan unhas frases sobreimpresas innecesarias a chapodar a fantasía, lembrando que aquilo esta baseado nunha historia real. Por favor.

Como sei que non se me entende nada, que quede claro: conmoveume a película, e non fose polo final, ou case, púñalle o superlativo. A ver se así.

sexta-feira, 16 de outubro de 2009

Não é nada sério rir











Talvez mesmo, meu amor, que compre uma tapeçaria como a do Senhor Ferreira: podes achar idiota mas preciso de qualquer coisa que me ajude a existir.

António Lobo Antunes, Memória de Elefante


Era matéria pendente. Quando na feira da Invicta, há já alguns meses, me enfrentei a uma parede empapelada das obras suas, vacilei entre me deixar seduzir pelos títulos (apetência minha de norma geral) ou começar num dos dois extremos. Decidi atacar pelo princípio no fim. Depois, o volume escolhido pousou na mesa de cabeceira mudo, na espera de que as mãos minhas cirúrgicas e os meus olhos sôfregos mergulhassem nas suas tripas. A hora chegou e foi meu companheiro de cafés desta semana. Nessas andava e gozando em cada frase, nos tons agres de humor e nos outros, pungentes, de misérias, quando deparei com a entrevista que lhe fizeram no JL. Aí matou-me, porque acabei por adorar nele tudo, e porque me obriga a lê-lo inteiro ("Quero fazer o que mais ninguém fez": JL 1018, pg. 23), que não é tarefa de dois dias e meio. Mas, por enquanto já prometi que o próximo vai ser o último e agora já sim guiada pelo título, que só ele merece a minha rendição.

No entanto, as últimas páginas calharam-me na mesa duma tasca de Âncora, Vila Praia de, a onde fui instigada pelo estímulo das bancadas de peixe fresco na ribeira sob os guarda-sóis coloridos, Atlântico em pano de fundo rebrilhante e a calor morna deste outono. Enquanto vinha da cozinha o crepitar do óleo em que se fritavam, coitados bichos mortos!, as fanecas, enquanto não chegavam para eu as espulgar de espinhas e saborear a carne branca em lascas com reflexos irisados em forense necrofília, slurp, tive de conter mais dum sorriso, virar o rosto contra a parede, agachar a cabeça, que não é sério a gente rir sozinha, menos chorar na linha a seguir, sobre uma toalha de papel que cobre a clássica marinheira, quadros azuis e brancos, na sala de jantar (no rés-do-chão, apenas desta volta, sem rima de primeiro andar), onde operários de fato-macaco convivem com executivos engravatados em barulhos de talheres e copos, pratos, bocas. Safei num naco de pão trigo que me disfarçou os dentes e me suavizou a linha dos lábios.

Bebo o café na esplanada e remato o livro. Penso que Âncora é um bom lugar para morar no inverno e fora os fins de semana das invasões colectivas de ouropéis dominicais ou fato de treino. Sei que não é sério sorrir ao mar e ao relato que ainda me bole na moleza das vísceras, desafiando a nostalgia da noite em que não nos encontrámos. Lembras? Podes achar idiota, podes: a mim é ler o que me ajuda a existir sem ti.

domingo, 7 de junho de 2009

O prometido é prometido










Fui coagida. Se não vens, disse ele, não há mais abracinhos, nem pausas para o café, nem mais conversa. Ai, disse eu, é que sou alérgica a perfumes. Escusas! Levas uma mola, escreveu o outro e eu ia lendo quando senti as carnes arrepiaram-se-me e algum cabelo. Para aí!, disse, e fui logo fechar a janela, que as correntes de ar são traidoras. Acabei cedendo às ameaças. Nem que só fosse porque havia feira do livro na Invicta e aproveitava a viagem para comprar literatura em saldos. Depois mandei-lhe uma foto antiga minha da Nicole Kidman, para ele me reconhecer, sem dúvidas.

Chegada a hora ainda demorei em me decidir. Assomava o sol... vou de mota, resolvia. Toldava-se o céu... vou ter de ir de carro, lamentava e deixava-me estar outro pouco a contemplar as nuvens, na espera de que surdisse um claro, e assim hesitante mente. Numa última tentativa saí ao quintal e caíram-me quatro gotas. Montei no carro. Ainda não trespassara os limites da Aldeia e já ia constatando que aquilo não era chuva a sério. Dei volta. Peguei na mota. Não, não me choveu todo o caminho, seus mal pensados! Só um pouquichinho no regresso, tipo a água virar tipo vapor antes de tipo tocar em terra.

E sim, ele logo me reconheceu. A fotografia não enganava. Tu és a Sun Iou Miou e se não levas também o primeiro livro, revelo a tua identidade falsa aqui diante desta multidão entregue! E arranco-te a perna. De modo que agachei as orelhas e saí de ali com dois livros que vou ter de ler (ora essa!) para emitir uma opinião críptica. Por enquanto, vão passar a ocupar um lugar de preferência na minha casa de banho, que a sua leitura, disque, está recomendada para descontrair.

P.S.: Boh! Eu com tantos receios e afinal não ia assim tão perfumado!

segunda-feira, 1 de junho de 2009

minusculando-me










passei-me. andei de fim-de-semana com o valter hugo mãe querendo-se fazer peso ligeiro na mochila —o nosso reino (o deles) cangando nas costas, na memória—, tentando eu desentranhar o significado das minúsculas até que dei com a resposta num alto e consegui me esquecer delas e mergulhar no prazer de o ler. Assim, presa no espírito do rapaz atormentado que não soube ser santo, lembrava aqui e alá os meus terrores de infância cristã e culpas incompreendidas que logo me levaram a descrer e hoje a renegar sem piedade até a intolerância. e nessas serpeava deslizando pela estrada quando o indicador duma ponte medieval me disse vem. vou, disse eu. no último desvio, quis descer a pé para não interromper com barulhos tanta paz e detive a mota frente a uma capelinha em que nesse momento entravam um homem e um puto e pensei: lá vai o padre, o sacristão ou o que for explicar os mistérios da vida, do canalha que é a vida, à criatura. e de repente, um estrondo paralisou-me, uns segundos que tardei em perceber que ligaram os alto-falantes da capela a uma potência brutal, os quatro, quatro aos quatro pontos cardinais. "e nós pimba!", proclamava o êmulo do qb aos ventos, furando-me os ouvidos, lacerando-me a sensibilidade toda. agoniada pela alegria reles daquela aldeia morta, tirei rápido umas fotos da ponte, lindamente adornada de remendos de asfalto, e da santinha com a lixeira ao lado em bonito conjunto escultórico... devia ser que antes estercavam de flores murchas o canto. enfim, voltei para mota, e guarda mochila e casaco na mala, e coloca o capacete e as luvas, enquanto o calor do meio dia me cozia a miolada e o bombardeio da changaralhada ma fritava, sem compreender como podia estar aquele fulano ali sentado sem se imutar (à sombra, valha-lhe isso), o padre ou sacristão ou o que quer que for e o miúdo saindo da capela como se aquele volume insofrível (para mim, pronto) a silenciar pecados graves de usar preservativo e tal fosse o murmúrio do rio que corria em baixo... "surdos, estão todos surdos neste lugar?!", gritei achegando-me ao pé do homem. "o que?", dizia o outro que nem sei se era padre, se sacristão, se o quê, com um sorriso amável, e punha a mão por trás da orelha, inquirindo, o que? virei-me de costas e fugi de ali antes que acabasse saindo ao dia seguinte a abrir telejornais. motociclista frita-da-tola enfia-lhe um alto-falante pela cabeça a um padre, sacristão ou o quê nunca mais se soube numa aldeia do sul da europa. passara-me.

segunda-feira, 26 de janeiro de 2009

Na antesala da morte










Para Couselo, que non entende a poesía
—quérese dicir, que non entende que a poesía
cadaquén a entende como lle peta—,
que despois non me veña dicindo
que teño unha prosa...




A ver, vou relatar entón os feitos tal como aconteceron, non como quixen imaxinar que foran. E foi que véndome na obriga voluntaria de ter que acudir ao centro de saúde co fin de que o meu médico de cabeceira me estendese unhas receitas, solicitei vía internet cita no devandito centro para venres, 23 de xaneiro do ano en curso, ás 13.25 horas (HE).

E é que descubrín (era sen tempo!) que me sae máis á conta pedir cita á última hora da mañá porque hai (misterios da vida) menos atrasos do que á primeira. Non me pregunten a razón, pero teño unha teoría irrefutable. A saber:

A xente que madruga máis tende a morrer menos, co cal á primeira hora non falta ningún paciente, pero como non acaban de morrer nunca e fican aí nun vou-non-vou, xúntanselles os achaques e o médico ten que lles dedicar máis tempo. Así, desde o primeiro paciente, prodúcense desfases entra a hora da cita concedida e a hora en que o usuario do sistema da sanidade pública accede ao servizo. En consecuencia, un pode pensar que a última hora da mañá a acumulación de atrasos ía ser considerable, eh, lerchas? Pois non! Ao contrario! E por que? Pois sigan lendo.

Está demostradísimo —hai sisudos estudos científicos que o confirman— que os que dormen máis, viven menos —en todos os sentidos—, e entre estes hai, coma mínimo, dous subgrupos:

a) Uns son uns lacazáns de moito pendello, quédalles o maio pegado ao cu e as lagañas aos ollos, chegan tarde á cita, e coas consecuencias directas que sobre a saúde ten a falta de atención sanitaria, non tardan en ir para as patacas.

b) Outros déitanse tarde, non por quedar a rezar, senón porque dedican as noites ao vicio e á libertinaxe, que de sempre foi cousa malísima para a saúde, disque, e destes algúns nin sequera regresan á casa polo seu pé, antes baten a bota no acto en casas de lenocinio, abertos en canal en liortas tabernarias, ou terminan cos miolos ciscados no asfalto.

Da maneira que for, os desaparecidos deixan ocos libres na lista, co cal ao longo da mañá no só os atrasos diminúen, senón que se adiantan as citas.

Ao que ía. Velaquí que cheguei puntualmente á hora, e tras dar os bos días, un xubileta, con moita sorna e dándolle ao outro co cóbado, preguntoume:
—Es a Miou?
—Sun Iou —respondín.
Con certeza, o riso solermeiro que asomaba aos seus labios non se debía ao meu apelido Falso, senón ao Verdadeiro. Ante a miña resposta afirmativa, puxo cara de contrición e continuou dando o recado:
—Pois xa te chamaron tres veces.
—Non morreu ninguén —arrepentinme logo, porque tres, mínimo, deberan coller camiño da cova.

Total que quitei o libro da mochila e púxenme a ler. Os xubiletas marcharon coa señora que saíu da consulta e entrou un mozo. Quedei soa e tan gusto. Nestas chegou un cata, saudou, respondín mecanicamente, que a vida do finado Deoquinha estaba moi interesante, e vin polo rabicho do ollo que sentaba ao meu lado, deixando un asento libre de separación, como se non houbese máis mundo. Pensei, este é dos que quere leria, pois vai dado. E mergullei no texto.

De pronto, levantei a cabeza, mirei para o reloxo da sala —pasaran vinte minutos— e o corazón case me sae do sitio cando vin a porta da consulta aberta. En mala hora, pregunteille ao veciño:

—Oi, o médico non me chamou, ou?

Era o que estaba esperando. Alá desatou a esfolar os médicos polos atrasos. E acabou contándome a súa vida, moito menos interesante sen dúbida que a do finado Deoquinha, que na gloria estea, e moitísimo menos seguramente tamén ca a da viúva, a Benedita, que non era nada o que parecía, polo visto, e tamén estaba na gloria.

Que me pasei co título? Claro! Pero se non a ver de que ían vostedes tragar este ladrillo ata o final. E ademais, non é a vida a antesala da morte?

sexta-feira, 9 de janeiro de 2009

Seca










Quéixase o Condado de que non escribo (será que lle sobra o tempo para estragalo en me ler?). O caso é que el e a Condadesa Con-Sorte chámanme para ir buscar os Reis: este ano puxéronse de acordo en varias casas, parece, e portáronse! He! Despois de desenvurullar o paquete, e mentres lle bebo un Alentejo e como unha torrada con manteiga e peixiños non-natos mortos, abro un libro que encontro sobre a mesa por unha páxina ao chou. Leo e roubo as palabras para transformalas en aviso a navegantes:

Si alguna vez la vida te maltrata,
acuérdate de mí,
que no puede cansarse de esperar,
aquel que no se cansa de mirarte.
Luis García Montero, En otro amor

E, xa que estamos na casa do Condado... lembran aquel día que andamos pés sobre pedras á procura do lago perdido por Castro Laboreiro?











Pois parte daquilo está aquí (e unha vez alí, se queren, claro, cliquen en Saudade I, debaixo da foto).

E agora fuxo, antes que apañe pola trasnada, pero pedíamo o corpo: non é unha beleza? A foto, digo.