sábado, 27 de dezembro de 2008

E foi bom!

Conste que estava assustada. Levava meses sem vê-la e as fotos que periodicamente me enviava o meu cunhado davam muito que desconfiar. Na primeira era escarrada ao Chuckie, o Boneco Diabólico, com aqueles olhos vermelhos que arrepiavam. Logo já minha irmã, mãe da criatura, ao saber-me tão aflita, mandou uma em que aparentemente era normal -no mínimo era coisa passageira, consolei-me, se calhar, os vestígios duma má noite de álcool e troça. Mesmo assim, a dúvida persistia, porque nas fotos sempre faltava alguma parte do corpo, o que me induzia a recear que perdera peças, ou que se avariava com muita frequência.

Por isso, no dia 24, quando chegaram pela anoitecida, o primeiro que fiz foi dar muitos beijos e abraços nela para comprovar, sorrateira, que não deixaram nenhum pedaço atrás, em QuilómetroZero.

Enfim, com certeza na foto não se vê de corpo inteiro, mas à tia babada basta-lhe o sorriso que lhe dedicou.

quarta-feira, 24 de dezembro de 2008

Na véspera da véspera

Quen me coñece sabe como é a miña vida ultimamente. Levo dous meses sen saír, pegada ao ordenador, sen festivos nin tempo libre para nada. Para esta noite -e só por non quedar de túzara- acordara ir cear á casa dun meu irmán que vive em Vilamormallo, pois ía tamén miña irmá desde o QuilómetroCero coa pequena. Despois pensaba volver para durmir n'As Carrouchas e mañá trabalhar (a)normalmente. Onte, contra as dez soou o teléfono: o número indicaba que era meu irmán.

-¡Hola!
-Hola. ¿Qué tal? -silencio longo.
-Dime.
-Que si no te importa íbamos a cenar ahí mañana.
-...?!

Esta noite a miña casa vai ser un campamento de refuxiados. Preciso cobertores, alcol e leite en pó. E persoal sanitario para me facer o boca a boca.

domingo, 21 de dezembro de 2008

Man de santo

—Si, recibín o esmalte de uñas, grazas. Esta noite contra as nove vounas pintar, que xa me vai facendo falla. Un bico, Jenni. Chao.
Miss Anyeska colgou o teléfono. Mirou arredor. O baboso de sempre procuraba gardar a compostura en balde. Dedicoulle un sorriso, ao cabo, que lle custaba tratar ben ao seu salvador involuntario? Ao pasar por el chiscoulle un ollo, mentres o guardiña, co monllo de chaves disposto a tintinar ao ritmo de samba na cintura, reprimía as mans que se lle ían atrás do abaneo das cadeiras.
—Grazas, guapetón.
—Se ti quixeses, aínda che podía facer uns favores —atreveuse o impresentable.
—Anda que tes unha leria…!
—Leria? Quen che dera a ti o que eu teño!
—Non era malo, non, que nesa cela tan triste, ás veces, pónseme unha dor no peito do soa que me sinto.
—Pois para ese mal téñoche eu man de santo.

quarta-feira, 17 de dezembro de 2008

Nem pensar!










Tenho andado a cismar sem ponderação nenhuma ultimamente, tanto, que por vezes nem tempo para reflectir tive, menos ainda para meditar sobre as consequências das ideias que me faziam assim cogitar. De maneira que logo de muito matutar, vou considerar a possibilidade de não ruminar mais... O quê? Nem pensar!

terça-feira, 16 de dezembro de 2008

Que cachada!

Estaba tan feliz ela a durmir onde non debía ata que aparecín eu.










E agora só digo: quen a manda baixar de aí?

sábado, 13 de dezembro de 2008

Choque

Salvouse, así como volo conto. Porque se en vez de eu lle dar polo embigo como lle dou, medise coma quen di dez centímetros menos, ou el tivese dez centímetros máis de pernas, o golpe había ser brutal... para el, claro. E non sendo así, apenas produciu leves danos no abdome do devandito e no pescozo dunha servidora, que sentiu como a cabeza lle saía disparada cara á esquerda, arrastrando, por fortuna, o corpo enteiro atrás.

Quere isto dicir todo que hoxe, sábado, ando co pescozo cabaleiro e a cabeza que me estoupa, consecuencia da turrada que me metín contra o Teletubby hai dous días ao remate do minipartido de hóquei, cando xa só quedabamos os dous na pista a pelexar cegos e feroces pola bola. E aínda ben, que non me espichou o stick.

quarta-feira, 10 de dezembro de 2008

Babalú




Ao ver a Lima no teu blogue lembrei-me logo de uma cadelinha que eu tive em Luanda...
Manoel Carlos



Pediu-me para escrever esta historinha —para lhe poupar lágrimas, disse ele— de quem foi a sua paixão e a sua tristeza, e eu escrevo com as palavras e a alma dele, com os dedos meus entintados nas águas do mar de Luanda, que são também as nossas.

Contou com a voz ténue de quem venera os silêncios que aparecera nem sabia como, pequeninha ela, na sua vida, caída dum lugar que fica além das lembranças, onde os tentáculos da memória se tornam fios no lusco-fusco. Bem que há donos que escolhem cão e cães que escolhem dono, a Babalú elegeu o Manoel Carlos e de troco ele adoptou-a, para de ali em diante fazerem vida a dois, companheiros que se entendem olhos nos olhos e no contacto dum corpo encostado a outro, em harmonia de fábula, como os contos de animais que falam com mais juízo do que as pessoas. Tanto era assim que por vezes o Manoel Carlos ficava atento à boca dela, aguardando que exprimisse as coisas lindas que o olhar dela lhe muximava.

Ião juntos a toda a parte. Quando ele entrava ao trabalho, ela ficava sossegada no carro a cochilar no banco de trás, a acumular forças para se jogar num pulo ao rosto dele e cobri-lo de beijos, como a criança que se atira aos braços da mãe após uma ausência de minutos que pareceram horas, como a namorada recebe o namorado que chegou de comboio num dia frio de inverno. Nas tertúlias com os amigos, a Babalú era uma mais, e quando depois de andar à gandaia, chegava o momento de espairecer a ressaca, deitava-se ao lado dele na praia, sem deixar ninguém aproximar, coma um anjo sem céu nem asas, marcando o limite das confianças a dois metros.

Mas uma noite —sempre há uma noite nos contos que chega funesta, tal como na vida há dias, algum dia, que se perdem no calendário— em que não a levou com ele, no regresso à casa, encontrou a mãe à espera, mensageiro triste de novas que ninguém quer dar, mas que no fim foi dizendo:

—A Babalú foi atropelada e está gemendo no teu quarto.

Não me contou o Manoel Carlos o quanto lhe pesava o coração, convertido em punho que bate no peito na pungência do remorso que ecoa: “Porquê eu não te levei comigo?”. Não, contou apenas do olhar diferente com que o recebeu, como pegou nela ao colo, como a abraçou com o amor todo —grande como é sempre o amor— que lhe tinha. E ela, que aguentara até esse momento para se despedir, balançou leve a cauda e no esforço deixou desfalecer a cabecinha e escapar um delicado xaxualho de xau-fui no derradeiro alento.

domingo, 7 de dezembro de 2008

17167!





Na beleza do outono
aprendi que os dias já não
servem para te beijar...


Mais um ano, mais uma vez: chove, chove, chove...

Obrigada, Teté. Mais uma vez levaste o prémio à Primeira: foste a mais madrugadora!

terça-feira, 2 de dezembro de 2008

O mendigo ilustrado






Fotogramas do documental
Afranio
de Víctor Coyote



Víctor Coyote presentou na Aldea das Carrouchas, na clausura das III Xornadas sobre a Represión Franquista no Baixo Miño "Memoria e Nación", o seu documental Afranio, unha perspectiva coral moi amena da fuxida lendaria do mestre e dirixente agrarista Antón Alonso Ríos durante Guerra Civil española, quen deambulou tres anos disfrazado de mendigo (co nome de Afranio de Amaral) polos montes e aldeas de Galiza até cruzar a raia con Portugal.

Só non sei que diga da interpretación de Luís Tosar, que como case sempre nin me quece nin me arrefece. Pero debe ser cousa miña.

Tampouco acabo de entender como despois de ouvirmos o magnífico galego (e portugués raiano, claro) empregado por todos os entrevistados, os actores deste anaco de terra, en xeral, seguen sen dar os anchos.










O actor Luís Tosar (esquerda),
o director do documental, Víctor Coyote (dereita)
e a botella de agua de Mondariz sen gas (centro)
na presentación no Auditorio das Carrouchas

segunda-feira, 1 de dezembro de 2008

Gran Reserva





Hoxe e cada día desde 1990, envellecendo comigo, conquistando o paraíso na terra.

Sen esquecer os que non son tan privilexiados.

Utilicen a cabeza e o condón.

terça-feira, 25 de novembro de 2008

Assombração

Será que infelizmente todo o mundo tem
uma árvore abatida no coração
ou que ambos pinheiros são o mesmo?
Também não é nada má a versão da história do Manoel Carlos.


Já antes de comprarem a moradia estava ali o pinheiro. Com os anos foi crescendo, engordando o tronco, espairecendo pelo chão as acículas e no ar o aroma da resina. Ninguém lhe sabia a idade: só que era velho e manso. Quando chegou a carta o dono da casa não acreditava. A denúncia da viúva desdentada que morava ao lado recebera sentença favorável e o pinheiro devia ser abatido porque lhe fazia sombra no jardim. Baixou ao garagem e pegou na motosserra. Colocou-se ao pé da árvore, circundou-a medindo os passos em volta, olhou para cima: na copa avistou um pisco que cantava. Saíu à rua e timbrou no portal da vizinha.

—Bom dia, minha senhora. Vai me ter de desculpar, mas está a fazer sombra na minha vida.

Entre o barulho do trânsito e o da máquina ninguém sentiu os gritos.

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Moral da estória: Até um cadáver ruim dá bom esterco.

quinta-feira, 20 de novembro de 2008

Questão de honra

Miss Anyeska virara cínica com o tempo, mas não perdera o sorriso, antes ao contrário, conservava-o como um tesouro, consciente da sua valia, e chegara a dominar a arte de embelecar atacando sempre com o marfim dos dentes numa táctica irresistível. Havia, com certeza, gestos discretos que contribuíam a facilitar a submissão da presa, aparentemente inócuos e espontâneos, como a forma de cruzar as pernas, aquele ligeiro toque da língua partindo da comissura dos lábios a humedece-los inteiros para terminar adentando no inferior, ou o jeito que punha a alisar desnecessariamente a saia, por diante, num movimento de mãos destinado a concentrar a atenção do objectivo elegido. Método clássico e, todavia, infalível. Só quem arriscasse a afundar no verde triste dos seus olhos salvava a algibeira e a honra.

quarta-feira, 19 de novembro de 2008

Qué va a ser, caballero?

Pois, si, xa non bastaba isto de asumir que unha xa non é unha rapariga, que a traten de vostede e incluso de señora. Tampouco son desas ás que cando alguén trata de "vostede" se defende cun non-por-favor-atúame, porque despois do choque inicial, ese que senta coma unha patada no cu, non queda outra que asumila e sempre lembro que cando tiña vinte anos, os de trinta (criaturiñas eles que me parecen agora), parecíanme anciáns decrépitos ao bordo da xubilación e agora até os sesentóns ao bordo da xubilación me parecen mozos.
Resumindo, que teño que máis que facer. Fun á Moinobreemoileal, por causas de choio, e como estaba na hora do café de despois do xantar, parei para tomar un, que sempre son dous, nun local que me dixeran que aínda estando da beira de acá facía café como se estivese da beira de alá. Total que aparco a moto á porta -non son unha incivilizada, non estorbaba-, entro co meu casco na man, a chupa posta, a mochila ao ombro, o meu metro e medio con todo o que ten que ter un corpo de muller, sen máis nin menos... e saúdo. O camareiro que anda a fedellar, arrombando non sei o que, responde case sen levantar a cabeza. Collo un xornal, e vou para a barra (son rapariga de barra... en fin, rapariga, quen me dera!, unha forma de falar). Entón achégase para me atender e cando vén a virar a curva dime, todo cheo el:
-Qué va a ser, caballero?
-Posme un café, por favor -E arrisquei medio sorriso, por non largar unha gargallada.
A cara do fulano, claro, até me deu pena, coitado, do que desinflou de golpe e sen terra que o tragase. Foi para a máquina e xa, sendo que parecía que era muller, seguíu porfiando nos roles establecidos, non fora ser o demo:
-Con leche? -case afirmando, coma con medio signo de interrogación se o houbese.
-Non, só, só -respondín, que unha con leite... só outras cousas.
Entón xa pasou a atuarme, pediume perdón pola confusión todo azorado, e aínda rimos un pouco.

Cando marchei, até me deu a impresión de que lamentaba bastante que non fose caballero, mira ti, e pudese chegar a ser algo máis ca café só.

terça-feira, 18 de novembro de 2008

Fogo!

O doutor Segismundo estava no gabinete com a porta entreaberta, a fazer de conta como era costume que despachava assuntos de vital importância. Na verdade, ultimamente apenas havia movimento, por mor das estritas ordens da chefia de só conceder empréstimos a pessoas de reconhecida solvência, e essas onde estavam? O bairro já não era o que era. Suspirou. Tinha desde ali um ângulo perfeito para controlar os funcionários e não tirava os olhos da menina Jennifer. Estava visto que ia ter de ser ele a dar o passo.
Pegou no auscultador do telefone e marcou quatro cifras da linha interna.
—‘Tou, sim?
Foi ouvir a voz cálida e grave e desatarem-se nele os mais baixos instintos, quer-se dizer, um calorão à altura do ventre, mais ou menos.
—Ehem, sim, menina Jennifer. Faça o favor de passar pelo meu gabinete.
—Ai, xôtor, vou sim! —Não demorou meio segundo a assomar pela porta— Dá licença, xôtor?
—Passe, passe. À vontade. Queria-lhe comentar um assunto. Mas sente, tenha a bondade, menina.
—Então diga lá, xôtor.
Ela debruçou-se deliberadamente sobre a secretária, colocando-lhe ao nível dos olhos o decote libérrimo que exibia aquela manhã. O director sofreu uma breve crise de estrabismo, que cedeu ao tempo que a menina Jennifer pousava com uma lentidão pasmosa o cu, a sacudi-lo como se quisesse varrer o pó da cadeira.
—Fogo! —exclamou calado o doutor Segismundo sem que se vissem labaredas por parte nenhuma—. Eu arder hei arder, mas a ti há-te ferver, rapariga!

segunda-feira, 17 de novembro de 2008

Projectos

O bom de passar um tempo à sombra é que sobram horas para pintar as unhas de vermelho. Habilmente, como a mais veterana das secretárias, ia-as limando, com um tris-tris-tris que sabia que seduzia os vigilantes. Depois, agitava o frasco de esmalte entre as mãos, para o aquecer, fazendo tintinar o vidro contra os anéis. O guardinha, teso ele, em mais dum sentido e direcção, olhava de esguelha para dentro da cela. E dentro, ela sorria também de esguelha, acautelada, medindo cada gesto com a inteligência racional do sobrevivente nato. Fora estava um lindo dia de sol e Miss Anyeska tinha projectos de futuro. É que há outra classe de projectos?

sábado, 15 de novembro de 2008

Lima da Ponte










Miñas señoras e meus señores...
Xa está na casa. Chámase Lima da Ponte, nome de pedigrí para unha vira-lata, e para evitar a chanza: Lima limón? Non! Lima porque rilla moito? Esta si podía ser... pero non é! É Lima, como o río Lima!!! E mais um motivo para vos ter abandonados, por se fosen poucos, pero é que a pequena estraña moito a mamá Chispa, o papá Sur, os irmáns e o tío Les. Paciencia, que estamos en período de instrución... Hoxe demos moitos temas: o do nome, o do non, o de ir no coche e o de quedar soíña a chorar sen que ninguén lle faga caso... Que dura é a vida de dona!










Unha santiña é o que é.

quinta-feira, 13 de novembro de 2008

Animaladas










Como non teño tempo para dicir nada nin nada que dicir nin que tivese tempo, clicade aquí e aplicádevos o conto! Non teñen desperdicio!!!

Grazas, Van e Fausto!

E non se me asusten, furricosos, que non fai falla saber idiomas para entendelos.

Ah, e o da foto sei que parece un porco, pero é un can. Claro que cando me dixo a finada da miña veciña, que non me deixa mentir, que co gasto que me daban os cans criaba un porquiño, respondinlle:
—Un porco, o que? Unha granxa enteira!

terça-feira, 11 de novembro de 2008

Regreso á infancia










Hoxe levo o día enteiro con isto e isto na cabeza. Será que vou vella.

sexta-feira, 7 de novembro de 2008

Polo si ou polo non










Ninguén me preguntou nada, pero se mañá fose o derradeiro día da miña vida, agora estaría onde estou para abrir mañá os ollos onde estou e fechar os ollos para sempre onde estou agora, como se mañá fose o derradeiro día da miña vida. Quen sabe se non é?

sábado, 1 de novembro de 2008

Véspera de defuntos redivivos










Cantiga de escárnio e mal-dizer à pimba
Natura fez de mim dama,
por isso se tenho fome
não procuro pão nem mama,
mas quem diga que me come.

Tu disseste: tenho manhas,
e esgrimiste competência,
falaste-me de façanhas,
eu ardi em concupiscência.

Prometeste dar a lua
se eu te dava a minha flor
e eu disse: dá lá essa tua,
que eu dou-te cá o meu penhor.

Presto tiraste a arma,
que eu presumia potente.
Foi só ires afundar-ma
e acanhou tão de repente,
que disse olhando o defunto:
É p'ra isto que estou nua?
E pronta a esquecer o assunto
pus-te no olho da rua.

Mas por não fazer um drama
e apagar a comichão
chamei-te de novo à cama
e tu não disseste não.

Começamos do princípio
e metemos mãos à obra.
Se mais não, deu para este rípio
e p'ra dar vida a uma cobra*.

E assim terminou a história
bem sepultado o morto,
pois não cabe maior glória
do que endireitar o torto.










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*Cobra1: Objecto em forma de cobra; pessoa perita no seu ofício e a sua arte.
*Cobra2: (Do latim copula, pelo provençal cobla) Ant. copla: Pequena composição poética, geralmente em quadras, para ser cantada.
(Fonte: Novo Aurélio Século XXI)